Uma teoria da solidariedade afro-asiática: uma proposta relacional para repensar as Relações…
Uma teoria da solidariedade afro-asiática: uma proposta relacional para repensar as Relações Internacionais
José Alejandro Sebastian Barrios Díaz
Resumo: O texto propõe uma teoria da solidariedade afro-asiática nas Relações Internacionais, argumentando que ela se estrutura por práticas de cooperação, internacionalismo e produção relacional, compreendidas como ontologia relacional, coexistência simultânea e teoria não ocidental.
A ordem internacional sempre foi descrita como um problema de organização: como estabilizar, governar e prever um mundo marcado pela diferença. Nas Relações Internacionais, essa questão deu origem a teorias, instituições e práticas que se apresentam como respostas à anarquia, à insegurança e ao conflito. No entanto, essa narrativa pressupõe algo raramente interrogado: que a ordem internacional não constitui um bem comum universal, nem uma condição intrinsecamente desejável, sendo antes vivida de forma desigual, contestada e, em muitos contextos, experimentada como estrutura de hierarquia e exclusão. Mais profundamente, essa compreensão repousa sobre uma ontologia implícita que privilegia unidades autônomas, cujas interações são organizadas primordialmente pela competição e pela sobrevivência.
A ordem internacional moderna foi historicamente concebida a partir de uma gramática política centrada na guerra, na competição e na anarquia. Desde as formulações clássicas das Relações Internacionais, a formação do Estado tem sido explicada como resultado de dinâmicas coercitivas, nas quais a necessidade de sobrevivência em um ambiente hostil impulsiona processos de centralização política, extração de recursos e organização da violência. Essa narrativa, profundamente enraizada na experiência europeia, foi progressivamente universalizada, tornando-se um paradigma explicativo dominante para compreender a política global. No entanto, essa universalização obscurece trajetórias históricas alternativas e invisibiliza formas distintas de constituição do político, particularmente no Sul Global. Ao deslocarmos o foco para essas experiências, torna-se evidente que a centralidade da guerra como fundamento da ordem internacional precisa ser revisitada (Jackson 2005), abrindo espaço para compreender o internacional não apenas como um campo de conflito, mas como um campo de relações constitutivas.
Este ensaio propõe compreender a solidariedade afro-asiática como uma forma histórica de internacionalismo do Sul Global que articula, de maneira simultânea, processos de construção do Estado, formação da Nação e contestação da ordem internacional. Diferentemente das abordagens convencionais, que tratam a cooperação como um fenômeno secundário, a solidariedade é aqui concebida como uma ontologia e prática política central das relações internacionais, dotada de capacidade constitutiva (Qin 2018). Isso implica um deslocamento analítico chave: em vez de considerar a guerra como o motor exclusivo da política internacional, propõe-se pensar a coexistência, situada e historicamente específica, entre conflito e solidariedade como forças co-constitutivas das Relações Internacionais, indicando a necessidade de uma reconfiguração ontológica e analítica da disciplina.
Se a ordem global aparece como projeto, ela também se revela como ruína no mundo contemporâneo. Não no sentido de algo que terminou, mas como uma estrutura que persiste enquanto falha, sustentando-se naquilo que exclui e sendo continuamente pressionada e contestada por formas de vida que escapam às suas categorias. É nessas fissuras que outras formas de organização emergem, não como alternativas plenamente formadas, mas como práticas de sobrevivência e solidariedade que desafiam a gramática dominante das Relações Internacionais. Tais práticas não apenas coexistem com a ordem internacional, mas participam de sua constituição, revelando uma dinâmica simultânea de conflito e articulação.
A solidariedade afro-asiática não pode ser reduzida a um ideal normativo abstrato ou a um discurso retórico de unidade entre povos colonizados. Trata-se de uma prática historicamente situada, cuja emergência está profundamente vinculada ao contexto da descolonização e ao chamado momento de Bandung, que articulou cultura, política e internacionalismo de maneira inovadora (Chakrabarty 2010). Nesse contexto, a solidariedade operou como uma estratégia de autopreservação política entre Estados recém-independentes inseridos em uma ordem internacional hierárquica, ao mesmo tempo em que funcionou como uma resposta às dinâmicas da Guerra Fria, nas quais o chamado Terceiro Mundo se tornou objeto de disputa entre grandes potências, mas também sujeito de projetos políticos próprios (Friedman 2015).
Mais do que uma aliança estratégica, a solidariedade afro-asiática constituiu um nexo relacional no qual experiências compartilhadas de colonialismo, racismo e dependência permitiram a produção de vínculos políticos, culturais e epistêmicos entre sociedades. Nesse sentido, ela revela que a política internacional não se organiza apenas a partir de unidades isoladas, mas por meio de relações que constituem atores, interesses e horizontes de ação. Ao mesmo tempo, evidencia que essas relações não eliminam o conflito, mas o reconfiguram, produzindo uma dinâmica de coexistência simultânea entre antagonismo e solidariedade.
A própria categoria “afro-asiática”, contudo, deve ser compreendida em sua historicidade e plasticidade política. Conforme sugerem leituras recentes, ela emerge no interior de um vocabulário mais amplo associado ao chamado “Terceiro Mundo”, sendo posteriormente rearticulada em torno da noção contemporânea de “Sul Global”, sem que essas categorias sejam mutuamente excludentes (Hala 2012). Essa expansão semântica reflete transformações nas agendas, nos atores e nas escalas da solidariedade, que passam a incorporar novas regiões, temas e formas de articulação política ao longo do tempo. Iniciativas como a Afro-Asian Peoples’ Solidarity Organization e a Afro-Asian Writers’ Association evidenciam como essa solidariedade foi institucionalizada não apenas no plano diplomático, mas também no campo cultural e intelectual, por meio de redes transnacionais que buscavam produzir um espaço comum de reflexão e ação política.
A atuação coordenada de países afro-asiáticos nas Nações Unidas durante os processos de descolonização ilustra de forma concreta como a solidariedade operava como mecanismo de ampliação de poder político. A formação de blocos de votação e a articulação conjunta em fóruns multilaterais permitiram que esses Estados influenciassem decisões centrais da organização, especialmente no que se refere à afirmação do direito à autodeterminação e à condenação do colonialismo. A aprovação da Declaração sobre a Concessão de Independência aos Países e Povos Coloniais, adotada em 14 de dezembro de 1960 pela Assembleia Geral das Nações Unidas por meio da Resolução 1514 (XV), constitui um exemplo emblemático desse processo, evidenciando como a ação coletiva de países do Sul Global foi capaz de tensionar normas internacionais e redefinir parâmetros de legitimidade no sistema internacional (AGNU 1960). Ao atuar de forma coordenada, esses Estados não apenas ampliaram sua capacidade de incidência normativa, mas também reduziram vulnerabilidades estruturais frente às grandes potências, transformando a solidariedade em um recurso estratégico de inserção internacional.
A independência nacional e o internacionalismo não são dimensões opostas, mas mutuamente constitutivas, indicando que a formação do Estado no Sul Global deve ser compreendida como um processo simultaneamente interno e transnacional, estruturado por relações que excedem o espaço nacional. Esse entrelaçamento entre o nacional e o internacional desafia uma das premissas centrais das Relações Internacionais: a separação analítica entre o doméstico e o internacional. No contexto afro-asiático, essa fronteira se torna porosa, sendo continuamente atravessada por fluxos de solidariedade, cultura e política.
Além disso, a solidariedade afro-asiática deve ser compreendida como um espaço de produção onto-epistêmica. Ao articular experiências históricas de colonialismo e resistência, esses movimentos contribuíram para a elaboração de visões alternativas de mundo, desenvolvimento e modernidade, desafiando a centralidade das narrativas ocidentais e propondo novas formas de imaginar a ordem internacional. Nesse sentido, a solidariedade não apenas responde à ordem global, mas participa ativamente de sua reconfiguração, abrindo caminho para a formulação de categorias analíticas capazes de ampliar os horizontes da disciplina.
Como a solidariedade afro-asiática pode ser teorizada como uma chave analítica capaz de repensar os fundamentos ontológicos, dinâmicos e epistemológicos das Relações Internacionais?
É a partir dessas inflexões que se torna possível propor uma teorização mais sistemática da solidariedade afro-asiática, compreendendo-a não apenas como fenômeno histórico, mas como fundamento para repensar, de forma integrada, a ontologia, a dinâmica e a epistemologia das Relações Internacionais.
Com base nessas inflexões, este artigo propõe compreender a solidariedade afro-asiática a partir de três dimensões analíticas inter-relacionadas, que permitem deslocá-la de uma categoria descritiva para uma chave teórica das Relações Internacionais. Em primeiro lugar, a solidariedade é concebida como uma ontologia relacional e como um nível de análise, a partir do qual os próprios atores internacionais são constituídos nas relações que estabelecem (Qin 2018, 2022). Em segundo lugar, ela é entendida como uma forma de coexistência, que desafia a primazia da racionalidade individualista e reposiciona a política internacional como um campo de interdependências constitutivas (Qin 2018). Por fim, a solidariedade afro-asiática é formulada como uma teoria não ocidental das Relações Internacionais, capaz de transformar experiências históricas do Sul Global em categorias analíticas com potencial de diálogo mais amplo na disciplina (Acharya e Buzan 2021). Esses três níveis não operam de forma isolada, eles se reforçam mutuamente, compondo uma proposta teórica que busca repensar os fundamentos ontológicos, epistemológicos e políticos das Relações Internacionais.
A primeira dimensão dessa proposta consiste em compreender a solidariedade afro-asiática como uma ontologia relacional, deslocando-a de sua leitura convencional como instrumento estratégico entre Estados. Inspirada na teoria relacional proposta por Qin Yaqing, essa abordagem parte do princípio de que os atores internacionais não são entidades pré-constituídas que posteriormente entram em interação, mas sujeitos cujas identidades, interesses e capacidades emergem das próprias relações que estabelecem (Qin 2018). Nesse sentido, a solidariedade afro-asiática não é apenas um efeito das interações entre Estados do Sul Global, mas um processo constitutivo que participa da formação desses atores enquanto sujeitos políticos no sistema internacional. A experiência da Conferência Afro-Asiática de Bandung, realizada em 1955, deve ser compreendida não apenas como um evento histórico ou uma aliança circunstancial, mas como um momento fundacional de uma articulação relacional que reconfigura as formas de agência no plano internacional.
Essa reconceitualização permite ainda propor a solidariedade afro-asiática como um nível de análise específico nas Relações Internacionais. Em vez de tomar o Estado como unidade primária e autoevidente, essa perspectiva desloca o foco para os processos relacionais que estruturam o campo internacional, permitindo observar como práticas de cooperação, circulação cultural e articulação política produzem configurações específicas de poder e legitimidade. Ao fazê-lo, desafia-se o a história única (monismo ontológico), que historicamente privilegiou abordagens centradas em unidades individuais (Estados operando em um ambiente anárquico), abrindo espaço para uma leitura da política internacional como um campo dinâmico de relações em constante transformação (Qin 2022).
A segunda dimensão aprofunda essa inflexão ao propor a solidariedade afro-asiática como uma forma de coexistência, na qual a autoexistência dos Estados é inseparável de sua inserção em redes de relações. Diferentemente da ontologia individualista que estrutura grande parte da teoria internacional, essa perspectiva sugere que o “Eu” estatal só adquire significado no interior de uma relação com o “Outro”, subvertendo a ideia de atores independentes com propriedades a priori (Qin 2018). Nesse quadro, a solidariedade não é um recurso contingente mobilizado em contextos específicos, mas uma condição constitutiva da própria existência política no plano internacional. A experiência afro-asiática revela, assim, que a política internacional não se organiza exclusivamente em torno da competição e do conflito, mas também por meio de formas de articulação que produzem pertencimento, reconhecimento e interdependência.
Essa concepção implica a adoção de uma racionalidade relacional, na qual a ação política não é orientada exclusivamente pelo cálculo de custos e benefícios, mas pela preservação e transformação das relações (Qin 2018, 2022). Ao enfatizar a redução da hostilidade mútua, a construção de confiança e a manutenção de vínculos duradouros, essa racionalidade oferece uma alternativa às leituras utilitaristas predominantes na disciplina. Nesse sentido, práticas como a cooperação técnica, a circulação de ideias e a produção cultural no espaço afro-asiático deixam de ser fenômenos periféricos e passam a ser compreendidas como centrais para a organização da política internacional, evidenciando a coexistência simultânea de dinâmicas de conflito e solidariedade.
A terceira dimensão consiste em afirmar a solidariedade afro-asiática como uma teoria não ocidental das Relações Internacionais, capaz de dialogar com o projeto de pluralização da disciplina sem se reduzir a uma posição meramente reativa. Como argumentam Amitav Acharya e Barry Buzan, a construção de uma “Global IR” depende da capacidade de transformar experiências históricas situadas em categorias analíticas que possam ser mobilizadas para compreender a política mundial em diferentes contextos (Acharya e Buzan 2021). Nesse sentido, a solidariedade afro-asiática é uma fonte de produção de conhecimentos e conceitos que permitem repensar seus fundamentos.
Ao sistematizar práticas históricas de cooperação, internacionalismo e produção cultural como elementos de uma racionalidade relacional, essa proposta contribui para desafiar o “gatekeeping” epistemológico que historicamente marginalizou conhecimentos não ocidentais (Qin 2022). Ao mesmo tempo, evita o risco do excepcionalismo ao propor uma universalidade situada, isto é, uma teoria que emerge de experiências específicas, mas que possui capacidade de generalização analítica. Dessa forma, a solidariedade afro-asiática deixa de ser apenas um objeto empírico e se afirma como uma contribuição teórica ao multiverso de conhecimento das Relações Internacionais, ampliando os horizontes da disciplina e reconfigurando suas bases ontológicas e epistemológicas (Acharya e Buzan 2021).
O Quadro 1 abaixo sintetiza a proposta de que a solidariedade afro-asiática pode ser mobilizada em três direções teóricas complementares nas Relações Internacionais: como ontologia relacional, como forma de coexistência e como base para uma teoria não ocidental. Na primeira, inspirada em Qin Yaqing, a solidariedade é entendida como constitutiva dos próprios atores, cujas identidades e interesses emergem das relações (Qin 2018); na segunda, ela expressa uma lógica de coexistência na qual a existência dos Estados é inseparável de suas relações, orientando-se por uma racionalidade relacional que coexiste com o conflito (Qin 2018, 2022); e, na terceira, conforme o projeto de Global IR desenvolvido por Amitav Acharya e Barry Buzan, a solidariedade afro-asiática é elevada à condição de recurso teórico capaz de transformar experiências históricas do Sul Global em categorias analíticas com alcance mais amplo (Acharya e Buzan 2021). Em conjunto, essas três dimensões permitem deslocar a solidariedade de um fenômeno empírico para uma chave analítica que reconfigura os fundamentos ontológicos, dinâmicos e epistemológicos da disciplina (Qin 2018; Qin 2022; Acharya e Buzan 2021).
As três dimensões propostas permitem avançar para uma inflexão conceitual mais ampla nas Relações Internacionais, ao oferecer as bases para a formulação da noção de formação internacionalista do Estado. Se a solidariedade afro-asiática é compreendida como ontologia relacional, forma de coexistência simultânea e recurso teórico não ocidental, então a própria constituição do Estado no Sul Global não pode ser explicada exclusivamente por dinâmicas internas ou por imperativos de sobrevivência em um ambiente anárquico. Em vez disso, ela deve ser entendida como um processo intrinsecamente relacional, no qual práticas de solidariedade, cooperação e articulação transnacional participam ativamente da produção de capacidades estatais, identidades nacionais e formas de inserção internacional. Nesse sentido, a formação do Estado deixa de ser um processo primordialmente doméstico para se revelar como uma prática simultaneamente interna e internacional, atravessada por redes de relações que constituem o próprio campo político no qual o Estado emerge e se consolida.
Referências
Acharya, Amitav, e Barry Buzan. 2021. Re-imagining International Relations: World Orders in the Thought and Practice of Indian, Chinese, and Islamic Civilizations. Cambridge: Cambridge University Press.
Chakrabarty, Dipesh. 2010. “The Legacies of Bandung, Decolonization and the Politics of Culture.” In Making a World after Empire: The Bandung Moment and Its Political Afterlives, edited by Christopher J. Lee, 45–68. Athens: Ohio University Press.
Friedman, Jeremy. 2015. Shadow Cold War: The Sino-Soviet Competition for the Third World. Chapel Hill: University of North Carolina Press.
Halim, Hala. 2012. “Lotus, the Afro–Asian Nexus, and Global South Comparatism.” Comparative Studies of South Asia, Africa and the Middle East 32 (3): 563–583. https://doi.org/10.1215/1089201X-189157 .
Jackson, Robert H. 1993. Quasi-States: Sovereignty, International Relations and the Third World. Cambridge: Cambridge University Press.
Jackson, Robert H. 2005. Classical and Modern Thought on International Relations. London: Palgrave Macmillan.
Qin, Yaqing. 2018. A Relational Theory of World Politics. Cambridge: Cambridge University Press.
Qin, Yaqing. 2022. Globalizing IR Theory: IR Theory and Practice in Asia. London: Routledge.
AGNU (Assembleia Geral das Nações Unidas). 1960. Declaração sobre a Concessão de Independência aos Países e Povos Coloniais. Resolução 1514 (XV), adotada em 14 de dezembro de 1960.
Sobre o Autor
José Alejandro Sebastian Barrios Díaz: Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e doutor em Relações Internacionais pela UnB.
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