Um legado feminista de Angela Merkel para a segurança internacional
Robson Cunha Rael
Resumo: O artigo analisa o legado feminista da Chanceler Angela Merkel decorrente das nomeações de duas Ministras da Defesa, Ursula von der Leyen e Annegret Kramp-Karrenbauer, tendo em vista a baixa presença feminina no comando da pasta da Defesa na maioria dos países do mundo.
A Chanceler alemã Angela Merkel, do partido União Democrática Cristã (Christlich-Demokratische Union Deutschlands — CDU), participou em 02/12/2021 da sua cerimônia militar de despedida do cargo (Grosser Zapfenstreich), após 16 anos como chefe de governo da República Federal da Alemanha, tendo sido a primeira mulher a ocupar o posto político mais importante do país. Merkel foi eleita pela revista Forbes a mulher mais poderosa do mundo por uma década (SEMENOVA; EVDOKIMOVA, 2021). Apesar disso, a Chanceler é criticada por não ter efetuado grandes realizações na agenda da igualdade de gênero. Por exemplo, a parlamentar Franziska Brantner, do partido Verde (Die Grünen), criticou Merkel por não ter feito mais em relação a temas como a violência contra às mulheres, a desigualdade de salários entre homens e mulheres, a participação de mulheres em conselhos corporativos, além de não ter sido efetivamente propositiva quanto à igualdade de gênero nas Nações Unidas e na União Europeia (AHRENS; AYOUB; LANG, 2021).
No entanto, Merkel contribuiu para o feminismo na área de segurança internacional com as nomeações de duas Ministras da Defesa, Ursula von der Leyen e Annegret Kramp-Karrenbauer, ambas da CDU. Conforme Anne Phillips (2001), além da incorporação de ideais feministas na política, é fundamental a presença de mulheres nos espaços decisórias para que haja representação de grupos excluídos. A exclusão/invisibilidade das mulheres ocorre por causa das divisões de responsabilidades e direitos baseadas em gênero (AYDIN, 2016), as quais colocam as mulheres na esfera privada e o homem na esfera público, como tomador de decisões e ocupante de instâncias de poder no Estado e na condução da política internacional. Mesmo quando mulheres ocupam espaços públicos, elas são vistas como mais capazes em temáticas restritas (SAMBONMATSU, 2002), como cuidado com os pobres e na luta por direitos femininos, enquanto homens são tidos como mais habilidosos nas questões de segurança, defesa e política externa. As noções de poder, Estado e segurança não são neutras, mas derivam de um contexto no qual o patriarcado é dominante. Muitas vezes o gênero (SJOBERG, 2010) é a categoria que define quem é ator internacional e quem é deixado de fora das análises de segurança, de modo que frequentemente as mulheres são invisíveis nas práticas de segurança internacional.
Ursula von der Leyen foi a primeira Ministra da Defesa da história da Alemanha (OLTERMANN, 2013), tendo ocupado o cargo de dezembro de 2013 a julho de 2019, quando a pasta foi assumida por Annegret Kramp-Karrenbauer (HENLEY, 2019). Como Ministras da Defesa, von der Leyen e Karrenbauer participaram de vários espaços decisórios na área da segurança internacional (FEDERAL FOREIGN OFFICE, 2020), como em reuniões do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), da Política Comum de Segurança e Defesa da União Europeia (PCSD/UE), além de importantes eventos centrados na referida área (BUNDE et al, 2021), como a Conferência de Segurança de Munique e a Conferência de Segurança Internacional do Forte de Copacabana.
Ursula von der Leyen iniciou a sua gestão como Ministra da Defesa atuando para que a Alemanha assumisse mais responsabilidades com a segurança internacional (incluindo o envio de tropas da Bundeswehr ao Mali), bem como reforçando a ideia de criação de um exército europeu (VON DER LEYEN, 2014). Em relação a crise da Crimeia, von der Leyen foi contrária ao suprimento de armas à Ucrânia, alegando a necessidade da busca de uma solução diplomática por meio de negociações com a Rússia (DW, 2015). Para ela, o uso da força deveria ser concentrado na luta contra o Estado Islâmico, por ser uma verdadeira ameaça à segurança internacional, a qual poderia trazer a Rússia para a mesa de negociações, uma vez que os russos também temiam o referido grupo terrorista (VON DER LEYEN, 2015).
Quando von der Leyen assumiu o cargo de Presidente da Comissão Europeia, Annegret Kramp-Karrenbauer (BRADY, 2019) começou o seu trabalho como Ministra da Defesa reforçando o compromisso militar alemão com a União Europeia e com a OTAN, incluindo o apoio ao aumento do orçamento das forças armadas, para alcançar 2% do PIB do país. Em sua gestão, Karrenbauer (BUNDE et al, 2021) determinou o envio da fragata Bayern para o Mar do Sul da China, na região do Indo-Pacífico, com a justificativa de reforçar a proteção de rotas marítimas, bem como para demonstrar aos Estados Unidos a capacidade europeia de agir diante da presença chinesa na região. Karrenbauer (JANJEVIC, 2021) também coordenou a retirada de tropas alemãs do Afeganistão, após quase 20 anos da missão de estabilização no país.
Num pronunciamento ao Bundestag, Karrenbauer defendeu que a Alemanha dialogasse com a Rússia sobre desarmamento a partir de uma “posição de poder” (TASS, 2020). Em resposta, Igor Konashenkov, porta-voz do Ministério da Defesa russo, classificou a declaração como absurda e chamou a ministra alemã de “garota de escola” (DPA, 2020). O ocorrido evidencia o que estudos feministas criticam sobre o enquadramento das mulheres em contextos de segurança (WIBBEN, 2010), as quais muitas são vezes colocadas como vítimas ou pacíficas, de modo a negar a possibilidade de as mulheres exercerem força e poder. A declaração do referido porta-voz indica que o empoderamento feminino precisa ser acompanhado de uma revisão crítica do poder masculino.
A desigualdade de poder nas relações de gênero prejudica tanto as mulheres que já ocupam posições de autoridade como as que almejam tais postos. Entre 1991 e 2018, ocorreram apenas 56 nomeações de mulheres para assumirem o cargo de Ministra da Defesa, em 41 países (BARNES; O’BRIEN, 2018). Mesmo se os 41 países indicassem simultaneamente as referidas ministras, o índice de nomeação feminina para a pasta da Defesa representaria menos de 25% dos países membros das Nações Unidas. Ademais, países como Estados Unidos e China nunca nomearam uma mulher para o comando do Ministério da Defesa.
Angela Merkel poderia ter realizado mais ações pelos direitos das mulheres e admitiu ser feminista apenas em seu último ano de mandato (NEUMAYER; WOOD; WISCHGOLL, 2021). No entanto, pelos dados e argumentos colocados acima, conclui-se que Merkel deixou um legado feminista na área da segurança internacional, com as nomeações de Ursula von der Leyen e Annegret Kramp-Karrenbauer, que comandaram a pasta da Defesa do país com a maior democracia da Europa, por oito anos. Tal período longevo é um indicador de competência feminina para o exercício de um cargo marcado pelo estereótipo masculino. Conforme afirmou Ivanka Trump na Cúpula do G20 em Osaka (2019): “women’s inclusion in the economy [and politics] is not solely a social justice issue, which of course it is. It’s also smart economic and defense policy”.
Referências
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BARNES, Tiffany D.; O’BRIEN, Diana Z.. The Appointment of Female Defense Ministers Worldwide. American Journal of Political Science, April 2018, Vol. 62, №2, pp. 355–368.
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BUNDE, T.; EISENTRAUT, S.; HARTMANN, L.; CARR, R.; HAMMELEHLE, J.; KABUS, J.; MIEHE, L.; PFEIFFER, S.; STARK, F.; MUDIE-MANTZ, A. Between States of Matter Competition and Cooperation: Munich Security Report 2021. Disponível em: https://securityconference.org/assets/02_Dokumente/01_Publikationen/MunichSecurityReport2021.pdf Acesso em: 31/10/2021.
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Robson Cunha Rael: Doutorando e Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisa em Segurança Internacional — GEPSI/UnB.
