Ucrânia: 80 anos do fim da II Guerra Mundial e a dificuldade de autonomia
Virgílio Caixeta Arraes
Com o desenlace da II Guerra Mundial na Europa em maio de 1945, a Organização das Nações Unidas (ONU) iria florescer em outubro do mesmo ano e contaria com a Ucrânia como fundadora, apesar de não desfrutar ela de plena soberania, ao constituir a União Soviética, uma das vencedoras do conflito.
Há ao longo da entremeada história ucraniano-russa episódios nos quais se manifesta o desejo de concluir a familiaridade político-administrativa, firmada ao cabo do século dezoito, ao incorporar-se à Rússia a maior parcela do Hetmanato (Cossaco).
À medida que a ampliação de Moscou se desenvolvia ao tempo da monarquia absolutista, a possibilidade de autonomia de povos já entrelaçados a contragosto à sua jurisdição se reduzia como se envolvidos eles por camadas incessantes de nacionalização com o estímulo à adoção da religião ortodoxa e do idioma russo, por exemplo.
Ademais, a emigração iria intensificar-se em todo o vasto território em decorrência da circulação da burocracia civil e militar e também da de outros segmentos da sociedade como o religioso ou o mercantil. A russificação seria, portanto, aos poucos processo inexorável nas áreas absorvidas ao país.
De maneira geral, as comunidades subjugadas observariam a atuação da dinastia Romanov com o propósito de integração não como incentivo à coexistência, porém como mera imposição de valores estranhos à sua própria cultura e história. Destarte, mencione-se a proibição de utilização em público do idioma ucraniano no último quartel do século dezenove.
No caso de Kiev, ocorre uma exceção externa à convivência entre o Kremlin e Mariyinsky no século passado. Em abril de 1920, contingentes da Polônia, recém-independente, investiriam contra a Ucrânia e desta forma intensificariam a Guerra Russo-Polonesa, desencadeada no ano anterior. O Tratado de Riga, de março de 1921, permitiria contemplar a nação invasora com áreas ucranianas e bielo-russas.
Com a transformação radical de regime em solo russo entre 1917 e 1922, haveria um sem-número de turbulências em todo o leste do continente europeu como a eclosão de movimentos de independência ou a de anexações na esteira da extinção do império moscovita, istambulense e vienense.
A população ucraniana, como as do Cáucaso ou as do Báltico, aguardaria ventos mais favoráveis à sua causa, até em face do enfraquecimento da Rússia como atestaria a assinatura do Tratado de Brest-Litovsk, de março de 1918. A datar dele, Moscou teria de renunciar à Letônia, Lituânia, Estônia, Ucrânia, soberana desde o fim de 1917 como república, e parte significativa da Bielo-Rússia, a fim de encaminhá-las à supervisão de Berlim.
Ao lado do imenso contratempo militar na Europa, ela teria outrossim de abdicar da Geórgia, Armênia e Azerbaijão, a chamada Transcaucásia, com o fito de direcioná-las ao acompanhamento de Istambul.
Considerar-se-ia a autodeterminação, mesmo frágil em seus primeiros passos, como caminho imperioso para o desenvolvimento socioeconômico, ainda mais após a destruição provocada pelas batalhas durante a confrontação global.
Diferente da Polônia, Finlândia e do trio báltico, a independência da Ucrânia se encerraria ainda no desenrolar da revolução comunista, ao ser objeto de cobiça de dois governos devido ao parque industrial e às terras agricultáveis.
Ao retornar à Rússia, agora como União Soviética, a expectativa de tratamento positivo à boa parte da população aconteceria, ao implementar nela ampla reforma agrária, com a expropriação das propriedades da aristocracia e, em menor escala, da igreja.
Acrescente-se a execução da política de ‘indigenização’ (korenizatsia), aspecto de abertura às distintas nacionalidades, ao contrapor-se à russificação da fase imperial. Mais tarde, retomar-se-ia o deslocamento de russos para áreas observadas como delicadas do ponto de vista econômico ou militar, obstáculo à afirmação da liberdade dos países instituídos com o desaparecimento da União Soviética, como é o caso presente da Ucrânia.
Frustrar-se-ia o vaticínio e por conseguinte dissipar-se-iam as esperanças, ao ter o povo ucraniano de confrontar-se de modo dramático com a coletivização rural infligida pelas férreas mãos de Josef Stalin. A carestia logo adviria e teria impacto trágico sob a vida de milhões de pessoas, malgrado ser expressiva produtora de grãos.
As consequências do morticínio (1932–1933), alcunhado de Holodomor, seriam devastadoras. Uma resposta do Kremlin seria a de dificultar o deslocamento da população famélica, ao instituir passaporte interno ainda na primeira metade da década de trinta.
Não se restringiria à Ucrânia o imbróglio de pertencer ou não à Rússia, conquanto com relativa autonomia administrativa e com a manutenção dos valores culturais. Estender-se-ia a situação tensa aos povos bálticos, incorporados à força ao longo da II Guerra Mundial (1941), Moldávia e Belarus (antiga Bielo-Rússia). A despeito do regime, o nacionalismo ucraniano tem-se mantido, ao conseguir diferenciar-se do polonês e do russo.
Pela fertilidade de seus campos, costuma atrair a atenção de Moscou em função da justificativa de segurança alimentar — nos dias correntes, é exportadora de trigo, cevada e óleo de girassol; pelo potencial energético, ela assombra o continente, ao utilizar-se do abastecimento de usinas atômicas, inclusive a da maior da Europa, a de Zaporíjia, edificadas durante a época da União Soviética — com o embate atual com a Rússia, a lembrança do desastre de Chernobyl encontra-se viva no imaginário da região, em face da segurança das unidades em meio a combates.
No período de dissolução acelerada da administração soviética, a Ucrânia concordaria de seu modo próprio em abrir mão do arsenal nuclear de seu território, ao transferi-lo para a guarda da Rússia, sob aceite das grandes potências como Estados Unidos, França e Grã-Bretanha — estimava-se em mais de mil e duzentos ogivas o estoque naquele momento.
A medida estender-se-ia ao Cazaquistão e Belarus, também detentores significativos de tais artefatos. Com a entrega do estoque, seu movimento de independência aparentaria consolidar-se de modo rápido e sua soberania seria, acreditava a nação recém-nascida, respeitada graças à generosa desistência.
Na II Guerra Mundial, parcela da sociedade ucraniana apoiaria a invasão da Alemanha nazifascista, ao juntar-se a ela, ao ter no horizonte a possibilidade de separar-se da Rússia sob justificativa do tratamento dispensado na década anterior com os dramáticos efeitos da coletivização rural.
Extinto o projeto de autodeterminação nos anos quarenta, ecoaria no imaginário soviético, hoje russo, o enlace entre ucranianos e alemães como entrelaçamento de aspirações ultranacionalistas. A derrota de Berlim em maio de 1945 desencadearia o encerramento desta fase, ao debelar a ‘insubordinação’ de Kiev.
No entanto, a inspiração por independência permaneceria latente e se materializaria no início dos anos noventa. Oito decênios depois do final da II Guerra Mundial, o Kremlin continua a enxergar Mariyinsky apta a exercer sua soberania apenas de maneira formal tal qual 1945, ao invocar a necessidade de defesa em 2022 diante do extremismo de direita e da possibilidade de aliança, embora indireta, com a Alemanha sob o manto da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Virgílio Caixeta Arraes: Graduado em História pela Universidade de Brasília (1994), mestre em História pela Universidade de Brasília (1998), doutor em História pela Universidade de Brasília (2005) e pós-doutor em História pela Université de Montréal (2017). Professor Associado da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de História, com ênfase em Estados Unidos: História.
