Trump e o nacionalismo racializado
José Alejandro Sebastian Barrios Díaz
Resumo: Nos Estados Unidos, Donald Trump reforça a supremacia branca ao promover a associação da identidade nacional a uma visão conservadora, branca e cristã enquanto promove políticas excludentes contra imigrantes, refugiados e outros grupos vulneráveis. A retórica de Trump, que evoca uma “América verdadeira” fomenta um nacionalismo racializado, elemento central de sua visão política.
Nos últimos anos, o mundo testemunhou a ascensão de governantes que empregam discursos nacionalistas para consolidar seu poder e (re)definir os contornos da identidade nacional. Nicolás Maduro na Venezuela, Vladimir Putin na Rússia, Xi Jinping na China, Viktor Orbán na Hungria e Benjamin Netanyahu em Israel são exemplos de figuras políticas que exploram narrativas nacionalistas/racistas para reforçar sua autoridade e restringir direitos de grupos considerados ameaças à identidade nacional. Nos Estados Unidos, Donald Trump emergiu como um dos mais emblemáticos representantes dessa tendência, empregando uma retórica que ativa uma noção de “pureza racial americana” e reforçando os padrões de exclusão existentes contra imigrantes, refugiados, grupos racializados e populações LGBTQI+ (New York Times, 2025).
O nacionalismo pode ser entendido como uma ideologia que enfatiza a primazia da identidade nacional em relação a outras formas de organização política e social. No cerne do nacionalismo está a crença de que a humanidade está (ou deveria estar) dividida em nações e que são (ou deveriam ser) a base dos Estados soberanos independentes (Breuilly, 2013). Assim, um dos principais dilemas do nacionalismo reside na dificuldade — senão na impossibilidade — de fazer com que os fatos políticos correspondam a esse ideal nacional. Embora possa se manifestar de múltiplas formas, o nacionalismo frequentemente opera a partir de uma lógica binária que constrói fronteiras simbólicas que separam o “eu” do “Outro”, o que leva à exclusão de determinados grupos sociais. Nos Estados Unidos, essa construção nacional tem sido historicamente vinculada a raça, reforçando a supremacia branca como elemento central da identidade americana (Ngai, 2005). O discurso nacionalista de Trump resgata essa tradição ao associar a ideia de uma “América” a uma identidade branca, cristã e conservadora, promovendo a exclusão de grupos que desafiam essa visão hegemônica (Kaufmann, 2019).
A raça, por sua vez, não oferece apenas uma perspectiva sobre a política internacional, mas é um elemento central em sua organização: as hierarquias raciais moldaram a construção dos Estados-Nação, a economia e os regimes de cidadania ao longo da história. Para Antônio Sergio Guimarães (2009), esse conceito não corresponde a nenhuma realidade natural, biológica. Ao contrário, a raça é uma categoria sociológica, um conceito que denota uma forma de classificação social, baseada em uma identidade negativa perante grupos sociais particulares e informado por uma noção específica de natureza. A categoria raça, enquanto marcador social da diferença, se apresenta não apenas como fonte de exclusão ou assujeitamento, mas também como plataforma para estratégias de resistência, de produção de políticas públicas e de ativismos políticos. O racismo seria a forma de explicar diferenças pessoais, sociais e culturais a partir de diferenças tomadas como naturais — os processos de racialização como a operacionalização da raça. A raça e o racismo são, portanto/assim, elementos estruturantes das sociedades modernas (Souza, 2021). No caso dos Estados Unidos, a noção de identidade nacional sempre esteve intrinsicamente ligada à supremacia branca, operando como um mecanismo de inclusão e exclusão. A retórica de Trump reforça essa estrutura ao definir a nação em termos raciais e ao promover a ideia de um país ameaçado pela diversidade e imigração. Dessa forma, o racismo não é um subproduto do nacionalismo, mas um componente essencial de sua concepção de Estado e poder.
Em largos traços, a retórica de Trump é baseada em visão nostálgica dos Estados Unidos, frequentemente evocando a ideia de uma nação que precisa ser “recuperada” ou “protegida” de forças externas e internas (White House, 2025). Seu slogan de campanha, “Make America Great Again”, sugere esse retorno a um passado idealizado no qual a hegemonia branca era menos contestada. Esse discurso se traduz, na prática, em políticas restritivas, como a separação de famílias na fronteira Norte, a tentativa de proibição da entrada de muçulmanos e ataques diretos aos direitos das minorias. Por isso, ao construir uma narrativa em que os “Outros” — imigrantes latino-americanos, muçulmanos, refugiados e grupos LGBTQI+ — são vistos como ameaças à ordem social e econômica do país, Trump reforça padrões de exclusão e alimenta os discursos supremacistas brancos que moldam a política racial naquele país.
Nesse sentido, o presidente Trump utiliza sua retórica para fortalecer um senso de identidade nacional (e de nacionalismo) baseado na exclusão, mobilizando símbolos e mitos históricos que ressoam entre setores conservadores da sociedade americana. Ao longo de sua primeira presidência, entre 2017 e 2021, incentivou discursos demonizando a diversidade, abordagem que encontrou eco em grupos de extrema-direita, que passaram a se sentir legitimados a expressar publicamente suas ideias. O bilionário Elon Musk foi acusado de fazer uma saudação nazista durante as celebrações da inauguração da nova administração Trump em janeiro de 2025 (Al Jazeera, 2025). Ademais, a invasão ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021 é um exemplo do impacto dessa retórica, quando apoiadores do ex-presidente, motivados por teorias da conspiração e pelo sentimento de que a “América branca” estava sendo ameaçada, recorreram à violência para contestar resultados eleitorais.
Contudo, um número crescente de latinos e negros votou em Trump em 2024, o que pode parecer contraditório à primeira vista. A reconfiguração do apoio entre eleitores latinos e um deslocamento menor entre eleitores negros nos estados chave foram fundamentais para impulsionar a vitória de Trump sobre Kamala Harris. O republicano conseguiu ampliar sua base ao atrair votos dos dois grupos historicamente ligados ao Partido Democrata. Assim, embora Trump não tenha conquistado a maioria entre latinos ou negros, ele obteve 13% dos votos negros e 32% dos votos latinos, de acordo com dados de boca de urna da CNN (2024). Comparativamente, em 2020, ele recebeu 8% e 23%, respectivamente. Os números refletem uma transformação nas preocupações do eleitorado, indicando que a estratégia republicana de apelo econômico teve impacto em grupos tradicionalmente democratas.
A permanência e a disseminação da retórica nacionalista e racializada promovida por Trump não apenas reforçam divisões sociais, mas também abrem caminho para a institucionalização de um regime no qual a exclusão torna-se uma política de Estado. O nacionalismo trumpista, ao articular a ideia de uma “América verdadeira” supremacista, redefine o conceito de nação em termos de pertencimento racial e cultural, restringindo o acesso a direitos e cidadania plena para aqueles que não se encaixam nesse ideal. Esse movimento, contudo, não ocorre isoladamente, mas faz parte de uma onda global que busca legitimar racismo e xenofobia como elementos estruturantes das identidades nacionais.
Referências
Al Jazeera. 2025. “Musk accused of giving Nazi salute during Trump inauguration celebrations.” Disponível em https://www.aljazeera.com/economy/2025/1/21/musk-accused-of-giving-nazi-salute-during-trump-inauguration-celebrations. Acesso em 3 de fevereiro de 2025.
Breuilly, John, ed. 2013. The Oxford Handbook of the History of Nationalism. Oxford Handbooks in History. Oxford: Oxford University Press, 2013.
CNN. 2024. “Election 2024: Exit polls.” Disponível em https://edition.cnn.com/election/2024/exit-polls/national-results/general/president/0. Acesso em 3 de fevereiro de 2025.
Guimarães, A. S. 2009. Racismo e antirracismo no Brasil. São Paulo: Editora 34.
Kaufmann, Eric. 2019. “White identity and ethno-traditional nationalism in Trump’s America.” The Forum 17 (3): 385–402.
New York Times. 2025. “As Trump Attacks Diversity, a Racist Undercurrent Surfaces.” Disponível em https://www.nytimes.com/2025/02/03/us/politics/trump-diversity-racism.html. Acesso em 3 de fevereiro de 2025.
Ngai, Mae M. 2004. Impossible Subjects: Illegal Aliens and the Making of Modern America. Princeton: Princeton University Press.
Souza, Karine Silva. 2021. “Esse silêncio todo me atordoa”: a surdez e a cegueira seletivas para as dinâmicas raciais nas Relações Internacionais. Revista de Informação Legislativa: RIL, Brasília, DF, v. 58, n. 229, p. 37–55, jan./mar.
White House. 2025. The Inaugural Address. Disponível em https://www.whitehouse.gov/remarks/2025/01/the-inaugural-address/. Acesso em 3 de fevereiro de 2025.
José Alejandro Sebastian Barrios Díaz: Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.
