Trump e a desvalorização do dólar: os macrofundamentos da política monetária americana
Jaime Cesar Coelho e Ghabriel de Oliveira Teixeira
Resumo: O artigo analisa a política de desvalorização do dólar, conduzida pelo governo Trump como uma estratégia para reindustrialização dos EUA, transferindo custos de ajuste da economia americana ao mundo via tarifas e juros baixos.
O segundo mandato de Donald Trump iniciou no dia 20 de janeiro de 2025. Já no dia 26 foi anunciada a taxação de 25% sobre todos os produtos colombianos. Poucos dias depois, no dia 1 de fevereiro, repetiu a taxação sobre o Canadá e o México, além de uma tarifa de 10% sobre produtos chineses. Mas foi no dia 2 de abril, com recém-completados dois meses de mandato, que Trump anunciou o “Dia da Libertação”, uma rodada de tarifas de extensão global. Ninguém passou ileso. E Trump não perdeu tempo para passar um recado ao mundo: o protecionismo está na ordem do dia. Esse movimento do segundo mandato de Trump não é exatamente uma novidade. Seu primeiro governo já havia sido marcado por políticas consideradas protecionistas, como a adoção de tarifas de 25% sobre o aço e de 10% sobre o alumínio, a retirada dos Estados Unidos (EUA) do Acordo Transpacífico (TPP) e o acirramento da Guerra Comercial com a China. O neoprotecionismo trumpista visa dar uma resposta no plano político ao eleitorado interno, que, a partir dos anos 1980, com a globalização, viu os empregos industriais migrarem para o exterior com as estratégias corporativas de offshoring (deslocalização) e outsourcing (terceirização) e, no plano geoeconômico, a desarticulação das cadeias globais de valor, que, no entender do MAGA, tem beneficiado mais a China e outros competidores do que os EUA.
Neste artigo, contudo, pretendemos olhar para um outro objetivo da política econômica de Trump: a desvalorização do dólar.
Por que desvalorizar?
A combinação de ajuda externa (decorrentes dos planos de reconstrução da Europa), os gastos militares (em grande parte decorrentes dos conflitos impulsionados pela Guerra Fria) e o investimento no estrangeiro geraram, ao fim da década de 60, um excedente de dólares em circulação mundial que os EUA já não podiam cobrir com as suas reservas de ouro, o que aprofundou seus déficits gêmeos, comercial e fiscal (Varoufakis 2017). Com a sua capacidade de garantir a paridade do dólar questionada, Nixon rompeu com o padrão ouro-dólar e apostou na flutuação cambial, na força do dólar como moeda suficientemente internacionalizada e na ausência de uma moeda competidora à sua altura. A estratégia visava atrair capitais massivos para os títulos do Tesouro, financiando os déficits com os excedentes mundiais reciclados em Wall Street (Tavares 1998), acompanhada de abertura financeira e desregulamentações (Helleiner 1996; Serrano 2002).
Desse modo, os EUA saíram da contestação de sua hegemonia para a afirmação categórica de sua liderança. Como provedores da “moeda mundial”, passaram a ter enormes ganhos de senhoriagem, a se financiar a um custo muito baixo (tendo os treasuries como âncora de sua expansão fiscal) e a transformarem a sua política monetária no controlador da liquidez mundial.
Assim, a política monetária dos EUA se converte num instrumento de macropoder, que afeta os custos relativos de todos os seus competidores e permite ao império transferir, senão totalmente, ao menos em grande parte, seus custos de ajustamento.
As macrofundações do Poder Monetário americano
Cohen (2005) busca entender quais as macrofundações do poder monetário, identificando que o poder de um país é duplamente determinado pela sua autonomia e pela sua influência externa, com a primeira precedendo e possibilitando o exercício da segunda; a autonomia é medida pela capacidade de um país em adiar ou transferir os custos do ajustamento do ciclo dos negócios.
O autor descreve dois tipos de custos de ajuste. Um transitório e um contínuo. A capacidade de evitar o primeiro refere-se ao Poder de Desviar e a capacidade de evitar o segundo refere-se ao Poder de Adiar. O Poder de Adiar é uma função limitada apenas pelo apetite do governo por reservas e pela disposição dos agentes estrangeiros em emprestar. O Poder de Desviar é limitado pelos atributos e dotações subjacentes da economia (Cohen 2005, 14).
Nos anos 1970, os EUA usaram o dólar como “poder de estado” (monetary statecraft) em dois momentos: a desvalorização cambial de 1973, que gerou perda de riqueza para detentores de dólares, e o Choque Volcker de 1979, que enxugou a liquidez mundial e levou outros países à recessão. O primeiro criou um custo contínuo via novo regime monetário; o segundo criou um custo transitório que alterou relações devedor/credor. Essa oscilação tornou-se uma válvula da liquidez mundial.
A alta dos juros, para fortalecer a moeda, enfraqueceu a indústria tradicional americana, mas impulsionou setores de alta tecnologia e informática. Com o dólar valorizado, produtos dos EUA perderam competitividade, incentivando importações e estratégias de outsourcing das corporações americanas e a formação das cadeias globais de valor que marcariam o período da mundialização do capital (Chesnais 2016). Sem resolver o déficit crônico no balanço de pagamentos, os EUA apenas adiaram custos. Agora, Trump busca a reindustrialização via inshoring e nearshoring strategies, recompondo a produção conforme interesses geopolíticos na competição com a China.
Esta estratégia implica um dólar mais fraco e tarifas elevadas, como as adotadas no segundo mandato de Trump e na imposição de sanções, e, neste último aspecto, os objetivos de segurança se comunicam com os objetivos econômicos (Coelho e Martins 2023; Silva e Coelho 2025). Figuras relevantes do governo republicano, como Robert Lighthizer, representante do comércio no primeiro mandato de Trump, defenderam abertamente a imposição de tarifas como forma de equilibrar os déficits americanos. No atual mandato, Stephen Miran, Presidente do Conselho de Assessores Econômicos (CEA), “cérebro” econômico da atual administração, defendeu, em seu artigo “A User’s Guide to Restructuring the Global Trading System“ (2024), a visão do dólar como uma maldição ao invés de um privilégio, o que certamente é um equívoco se levarmos em consideração o enorme poder de manipulação cambial à disposição do governo estadunidense. Mas há um fundo de verdade em relação a um dólar forte e à estratégia de internalização das cadeias de valor. O dólar forte é um peso que precisa ser compensado por tarifas, ao mesmo tempo que se persegue a desvalorização do ativo monetário para aumentar a vantagem competitiva dos produtores domésticos de tradables.
A necessidade de resolver esse tipo de desequilíbrio causado por fatores adjacentes de uma economia, como o seu câmbio, é o que Cohen (2005) entende como os custos transitórios do ajuste. Nesse caso, a capacidade do país de se ajustar se torna uma função de seu poder de desviar. Ou seja, é dependente do quanto o país consegue transferir os custos de seus ajustes para outros Estados. É nesse contexto que Trump e sua equipe econômica entendem a necessidade de impor tarifas para o planeta. Com a taxação generalizada e baixa taxa de juros, os EUA buscam transferir o custo do ajuste de seus déficits gêmeos para o resto do mundo. Desde o início do segundo mandato (janeiro de 2025) até o presente (junho de 2026) o dólar perdeu 16% de valor em relação ao euro e 5% em relação ao yuan. Em relação ao Brasil a perda foi de 17%.1
Conclusão
Assim como a “diplomacia do dólar forte” viabilizou a sucção de capitais ocorrida nos anos 1970/1980, a desvalorização do dólar busca viabilizar o projeto de reindustrialização americana. Há também uma aposta na impossibilidade de se criar alternativas ao dólar no curto prazo (o poder de inércia da moeda é ainda muito forte).
Isso se dá por duas características do dólar na economia contemporânea. Em primeiro lugar, enquanto moeda mundial, o dólar é o meio universal de pagamento, de precificação e de reserva de valor, e, portanto, todos os agentes econômicos necessitam em algum momento de dólares para realizar suas operações. O dólar está presente em 89% das operações em derivativos, em 57% das reservas internacionais, em 90% das operações FOREX realizadas diariamente, e entre 55% e 60% das operações comerciais (Yin e Kruijf 2025; BIS 2025a, 2025b; Strohecker e Smith 2025). Isso dá aos EUA uma capacidade única de impor sanções e regular o mercado como um todo (Santillo 2025). Em segundo lugar, a colateralização do sistema financeiro na dívida americana impõe a força do dólar como uma necessidade de sobrevivência sistêmica. Por isso, é possível que, em um momento, a estratégia de sobrevivência dos EUA se baseie na valorização do dólar e, em outro momento, na sua desvalorização.
Porém, essa posição do dólar é uma manifestação de relações sociais e políticas de poder e, portanto, não é imutável. Anteriormente indiscutível, o status do dólar é cada vez mais, assim como a própria hegemonia americana, debatido e questionado. A posição americana, como organizadora da economia global, está em xeque.
Brancaccio, Giammetti e Lucarelli (2022) defendem que uma potência que se depara com esse cenário recorre ao acirramento da luta imperialista, ao retorno do protecionismo e à maior agressividade de sua política externa. Os poderes de adiar e desviar não são privilégios eternos, mas o resultado de um arranjo político-econômico historicamente determinado e, portanto, de disputa. Trump, ao desvalorizar o dólar e fortalecer o protecionismo estadunidense, demonstra consciência do tamanho do poder monetário dos EUA, mas também escancara os limites atuais da liderança dos EUA na construção de uma nova ordem internacional pós-mundialização. Em especial, esses limites se encontram na produção da riqueza real e na produção do valor.
Referências
BIS (Bank for International Settlements). 2025a. OTC foreign exchange turnover in April 2025. BIS. https://www.bis.org/statistics/rpfx25_fx.htm.
BIS (Bank for International Settlements). 2025b. OTC interest rate derivatives turnover in April 2025. BIS. https://www.bis.org/statistics/rpfx25_ir.htm.
Brancaccio, Emiliano, Raffaele Giammetti, e Stefano Lucarelli. 2022. La Guerra Capitalista: competizione, centralizzazione, nuovo conflitto imperialista. Milão: Mimesis/Eterotopie.
Chesnais, François. 2016. Finance Capital Today: Corporations and Banks in the Lasting Global Sump. Boston: Brill Academica Pub.
Coelho, Jaime C., e Aline R. A. Martins. 2023. “Ordem e Crise? A questão do poder financeiro e monetário dos Estados Unidos no contexto da guerra na Ucrânia.” In Tempos Difíceis: o primeiro tempo do governo Biden e as Eleições de meio de mandato, organizado por Sebastião C. Velasco e Cruz e Neusa M. Bojikian, 193–206. SP: Unesp.
Cohen, Benjamin. 2005. “The Macrofoundation of Monetary Power.” Eui-Rscas, working paper, no. 1 (agosto): 1-16.
Helleiner, Eric. 1996. States and the Reemergence of global finance: from Bretton Woods to the 1990s. New York: Cornell University Press.
Miran, Stephen. 2024. “A User’s Guide to Restructuring the Global Trading System.” Hudson Bay Capital, novembro.
Santillo, João Rafael Rodrigues. 2025. “Um fardo exorbitante: Como Trump acredita que o dólar é um problema e está ativamente desvalorizando a moeda americana.” Econocrítica. https://open.substack.com/pub/econocrtica/p/um-fardo-exorbitante-como-trump-acredita?.
Serrano, Franklin. 2002. “Do Ouro Imóvel ao Dólar Flexível.” Economia e Sociedade 11, no. 2(19): 237-253.
Silva, Edna A. da, e Jaime C. Coelho. 2025. “As sanções econômicas no contexto da guerra hegemônica: o papel das sanções financeiras na estratégia da diplomacia econômica dos EUA.” In A volta de Trump: choque político e relações internacionais, organizado por Sebastião C. Velasco e Cruz e Neusa M. P. Bojikian, 187-205. Unesp.
Strohecker, Karin, e Grant Smith. 2025. “Dados do FMI mostram estabilização de fatia do dólar nas reservas globais.” CNN Economia, 22 de dezembro. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/mercado/dados-do-fmi-mostram-estabilizacao-de-fatia-do-dolar-nas-reservas-globais/.
Tavares, Maria da Conceição. 1998. “A retomada da hegemonia norte-americana.” In Poder e dinheiro: uma economia política da globalização, organizado por Maria da Conceição Tavares e José Luís Fiori, 27-54. 4ª ed. Editora Vozes.
Varoufakis, Yanis. 2017. O Minotauro Global: a verdadeira origem da crise financeira e o futuro da economia. São Paulo: Autonomia Literária.
Yin, Jessie, e Lize Kruijf. 2025. “Dollar Dominance Monitor.” Atlantic Council. https://www.atlanticcouncil.org/programs/geoeconomics-center/dollar-dominance-monitor/.
Sobre os Autores
Jaime Cesar Coelho: doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Campinas (Unicamp) e atualmente professor titular do departamento de Economia e Relações Internacionais do Centro Sócio Econômico da Universidade Federal de Santa Catarina.
Ghabriel de Oliveira Teixeira: graduado em Relações Internacionais e atualmente mestrando do Programa de Pós-graduação pela Universidade Federal de Santa Catarina.
Informação disponível em: https://tradingeconomics.com/.
