Rússia e Ucrânia: a agonia prolongada da guerra
Virgílio Caixeta Arraes
Fonte: https://news.un.org/en/audio/2016/05/612182.
O conflito entre a Rússia, invasora, e a Ucrânia começa o terceiro mês sem vitória à vista. A devastação do país atacado aumenta a cada dia pela intensificação do emprego dos sofisticados armamentos russos e, ao mesmo tempo, pela resistência dos efetivos locais. Conjectura-se qual dos dois contendores fatigará primeiro.
A demora do confronto teria influenciado Moscou a alterar o plano inicial da investida, ao concentrar suas tropas nos territórios ucranianos mais filorussos: Donetsk e Lugansk com respetivas áreas adjacentes em detrimento de Kiev, local em que o enfrentamento de contingentes encontrou maiores dificuldades para o polo assaltante.
Nestas duas regiões, a humanidade assistirá, caso a atuação da diplomacia multilateral continue emperrada, haja vista a recente viagem do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Antônio Guterres, às duas capitais, a extenuantes combates, em intensidade superior em solo europeu aos da confrontação da (antiga) Iugoslávia no final do século passado e início do presente — o resultado seria a extinção da federação dos eslavos do sul, forjada no período posterior ao da I Guerra Mundial como forma de assegurar a autonomia de pequenas comunidades.
A possibilidade de que o Kremlin obtenha uma vitória de Pirro, se conquistar as duas repúblicas mencionadas ou patrocinar suas independências, assoma no horizonte devido às perdas humanas significativas e aos custos crescentes, parte dos quais derivados das incisivas medidas ocidentais direcionadas a boicotar a economia russa — à guisa de citação, a extração de petróleo poderá reduzir-se até um sexto em breve — https://www.bloomberg.com/news/articles/2022-04-27/russia-says-its-oil-output-may-drop-as-much-as-17-this-year .
Além disso, a opinião pública de modo geral posiciona-se contrária à ação de Moscou, indiferente à motivação invocada, ou seja, à contenção de milicias de extrema direita ou ao avanço das negociações de extensão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Resta ao governo moscovita o apoio ou antes a aquiescência de regimes autoritários como o de Pequim ou o de Caracas. Sem dúvida, isso não favorece a gestão de Putin.
A alguns analistas, a contenda entre Rússia e Ucrânia não seria nova, por ter-se originado em março de 2014, quando da anexação definitiva da Crimeia, outrora russa até o alvorecer de 1954, como resposta à rápida transformação do quadro político ucraniano, tornado a datar de então mais próximo da União Europeia (UE).
Na avaliação do Kremlin, a substituição de governantes teria sido estimulada a partir de ondas do exterior, com o propósito de enfraquecer a proximidade entre os dois países ou na prática entre a administração de Vladimir Putin e a de Viktor Ianukovytch.
Com o distanciamento entre ambos, a retaliação de Moscou seria a conquista territorial, até porque o motivo original da cessão da Crimeia — a celebração da efeméride da integração da Ucrânia ao império da Rússia — teria cessado desde 1991, quando da nova independência de Kiev na esteira da acelerada dissolução da União Soviética (URSS).
O interessado estreitamento da Ucrânia com países euro-ocidentais acentuou a receança da Rússia, ainda que tenha sido esta a executora das medidas de força em dois inesperados momentos em menos de uma década, ao menosprezar a utilização da diplomacia no auxílio à espraiada população de ascendência russa no vasto território ucraniano. Acresça-se que a alegada proximidade entre o triângulo Kiev, Bruxelas e Washington pode de modo indevido ter assegurado o argumento in extremis para o atual assalto de Moscou.
Quando restabelecido o relacionamento bilateral, somar-se-á à desconfiança existente tristes lembranças do período da presente disputa — note-se na Ucrânia a tentativa de reviver o cidadão-soldado, ao impedir a saída do país dos homens, casados ou pais, até sessenta anos, de forma que pudessem integrar-se à resistência, a despeito do grau de treinamento militar.
Se se compreende a necessidade desta determinação, apesar dos seus impactos imediatos na sociedade, chamou a atenção de maneira incomum a decisão de anunciar a libertação de prisioneiros, com a finalidade de que eles também se agregassem às lutas contra os efetivos estrangeiros sem demonstrar garantia de que isso de fato ocorreria.
A Rússia avança em determinada parte da Ucrânia, mesmo de forma lenta, porém inexorável, e consolida seu domínio em região já identificada na órbita de Moscou há anos pelo próprio sistema internacional.
À proporção que o tempo passa, como mencionado, especulam de maneira incessante os meios de comunicação qual dos dois países diante da continuidade das escaramuças intensas irá capitular devido ao esgotamento e aceitar, embora a contragosto, demandas momentâneas do outro, com a expectativa de revertê-las quiçá algum dia.
A Kiev, interessa a paz imediata e, se possível, o imperioso reconhecimento de seu opositor de sua preservação territorial, de sorte que se lhe preserve o acesso a áreas portuárias no mar Negro e no de Azove — alcunha adotada por unidade paramilitar de extrema direita, hoje incorporada ao ministério do Interior da Ucrânia;
A Moscou, a aceitação da neutralidade do vizinho diante do canto de sereia da Organização do Tratado do Atlântico Norte, em especial por esforço dos Estados Unidos (EUA), e, como contraponto à legítima aspiração do seu adversário, a incorporação de duas províncias, Donetsk e Lugansk, ou sua independência como zona fronteiriça.
Não alinhamento não deve importar nação sem vontade concernente a sua política exterior ou a seu destino ou ainda ajoelhada perante eventuais ditames de vizinho ou de oponente acérrimo. Há um importante precedente do período da bipolaridade de equilíbrio a ser recordado: a Finlândia, cujo ingresso na União Europeia (UE) viria ocorrer tão somente após a extinção da União Soviética, sua inimiga figadal durante gerações.
A proximidade cultural — como a religião ortodoxa — ou a herança histórica comum — uma vez que Kiev, estruturada por escandinavos há mais de um milênio, é considerada o berço da federação russa — não deve servir de invocação para a anexação do território ucraniano.
Por outra face, governos otanianos das duas margens do Atlântico têm fornecido auxílio financeiro e principalmente militar ao país atacado, como até a Alemanha, de forma que os combates não devem arrefecer e, como consequência, violações de direitos humanos, já registradas à farta em cidades como Bucha, ampliem-se.
De maneira paralela, aventa-se a possibilidade de que com as vias humanitárias firmadas governos aliados a Kiev participem das operações de evacuação de civis e talvez de socorro a feridos dos contingentes.
Diante de quadro tão dramático, espera-se que Washington e Pequim, a despeito da bem-vinda contribuição de outras potências, animem-se a persuadir Moscou e Kiev a sentar-se à mesa com o objetivo de estabelecer almejado cessar-fogo.
Virgílio Caixeta Arraes: graduado, mestre e doutor em história pela Universidade de Brasília e pós-doutor em história pela Université de Montréal (Canadá). Professor Associado da Universidade de Brasília.

