Rússia: do mítico ao real na incorporação da Ucrânia
Virgílio Caixeta Arraes
Resumo: artigo relativo ao suposto vínculo histórico e por conseguinte político entre Ucrânia e Rússia, ainda que utilizado pelo governo moscovita para justificar em parte sua agressão à nação vizinha. O texto identifica de maneira sintética as diversas fases da história russa: da presença escandinava no século nono à atual, sob condão do autoritarismo de Vladimir Putin, no poder há mais de um quarto de século.
Em setembro, Moscou intensificou ataques aéreos à capital antagonista, Kiev, ao empregar centenas de drones com substantivo poderio de destruição e com dificuldades de detecção rápida por radares convencionais. Após três anos e meio, a confrontação russo-ucraniana encontra-se em um impasse, cujo desfecho passa pelo exaurimento financeiro de um dos dois contendores, algo difícil de acontecer no curto prazo.
À primeira vista, a Ucrânia por si não tem condições econômicas de sustentar os embates constantes contra a vizinha, porém, com o socorro norte-atlântico, ela tem conseguido impedir maior avanço das tropas da nação invasora, apesar de ter sido despossuída de um quinto do território se comparada sua extensão com a de um decênio anterior.
Nesse sentido, Mariyinsky solicita a seus parceiros euro-ocidentais agregados em Bruxelas a interrupção da importação de gás natural liquefeito e de petróleo do Kremlin. No derradeiro caso, vale-se Moscou também da utilização de frota clandestina para o fornecimento e com isso complementar a entrega já efetuada pelo oleoduto em circulação em boa parcela da Europa.
Em adição à possível antecipação da suspensão da aquisição de dois fundamentais produtos da rival, propõem os países europeus utilizar fundos congelados do governo russo para custear parte dos gastos militares da contraparte ucraniana, de sorte que a ocasional reticência na continuidade do auxílio monetário possa diminuir, conforme proposto no encontro de cúpula em Copenhagen no dia primeiro de outubro.
Seria, por conseguinte, a execução de confisco de maneira inédita, ao abastecer, por um lado, a aliada em perigo, malgrado o precedente a se estabelecer na arena mundial, por outro, ao descontentar em extremo a nação (nuclear) agressora.
Suspeita-se originar-se da Rússia os voos de drones nos últimos dias à porfia na Polônia, Dinamarca e Alemanha com efeito imediato, por exemplo, de afetar decolagens e pousos em aeroportos civis e espraiar o terror na população civil sobre sua real finalidade em seus céus.
A preocupação chega ao ponto de desejar a União Europeia preparar-se de modo célere, em torno de um ano, com a implementação de uma barreira eletrônica, com o propósito de conter a ameaça castrense, mesmo de forma parcial, como advertiu o presidente da França, Emmanuel Macron, ao lembrar a impossibilidade de resguardar com eficiência mais de três mil quilômetros de fronteira
No espaço aéreo polonês, jatos da Organização do Tratado do Atlântico Norte derrubaram alguns dos artefatos avistados, mas em larga escala as aeronaves não teriam a capacidade de repeli-los a tempo de obstar ocasionais ataques.
Uma possibilidade à União Europeia seria a de absorver a recente experiência de defesa da Ucrânia contra tal armamento e escolher localidades consideradas vulneráveis para preservar, ainda que implique o risco de haver a revivescência de uma ‘Linha Maginot’ como acontecido na década de trinta na divisa entre França e Alemanha.
A opção pela incorporação de partes russófilas da Ucrânia mostrou-se temerária à administração moscovita, haja vista o número de perdas humanas em ambos os polos e os custos materiais, impagáveis nos próximos anos, a despeito do modo de recuperação da infraestrutura e da posterior exploração econômica das áreas incorporadas sem amparo do direito internacional.
Outrossim, o Kremlin, com a inusitada ação de conquista a datar de fevereiro de 2022, reforça o sentimento antirrusso da comunidade quievita, de forma que governo identificado com a pauta do país lindeiro ou com intenção de colaboração estreita dificilmente surgiria nas gerações vindouras mediante voto do eleitorado.
Costuma-se apontar o simbolismo da absorção das terras ucranianas pelos efetivos da nação vizinha, ao ter o objetivo da recuperação da aliança bastante remota da constituição da primeira nacionalidade da sociedade da Rússia, em virtude da chegada sucessiva de viquingues lá no final do século nono, sob a liderança afamada de Rurique (Rurik). Mais tarde, ela se desdobraria em três: russa, ucraniana e bielo-russa, apesar do descontentamento de determinados dirigentes da região de conformar-se com a segmentação.
Legendária personagem da história do leste da Europa, ele seria o responsável por estabilizar o cotidiano dos grupos locais, em sua maioria de ascendência eslava, a partir de sua fixação em Novgorod, situada a pouco mais de meio milhar da futura Moscou e bem distante da já estabelecida Kiev.
A Rússia quievita iria perdurar até a vinda dos irrefreáveis contingentes mongóis ao cabo da primeira metade do século treze, encabeçados por Batu Cã (Khan), neto do imperador Gengis Cã. As investidas contra aquela área haviam começadas duas décadas antes. A Horda Dourada ou Azul permaneceria até o final do século quinze, quando seria expulsa por Ivan III, responsável por inaugurar a terceira fase da história nacional, a da primazia do principado de Moscou.
Nesse momento, há a transição de dinastias, ao substituir-se a original, de procedência escandinava, por uma local, a Romanov, depois de um decênio e meio de turbulências políticas, ao migrar de forma célere por quatro soberanos, afora o brevíssimo impostor, de três famílias, uma delas de remota ascendência ruríquida, e a transformação do reino russo em czarado, substantivo de origem ainda sem consenso entre os estudiosos, em decorrência da multiplicidade de possíveis vínculos históricos.
Dentro do marcante período, ocorreria uma divisão, estabelecida por Pedro I, ao proclamar ele em 1721 o império russo cuja duração iria até a derrocada definitiva da monarquia em março de 1917. Destaque-se a transferência da capital de Moscou para São Petersburgo em 1712 como esforço de aproximar o país do restante da Europa.
Decorrida curta fase em 1917 de modificação, nasceria a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, cuja existência mal atingiria três quartos de século, ao extinguir-se em dezembro de 1991 por esgotamento. Com ela, a Rússia se tornou uma potência de fato global, ao encarar com êxito a Alemanha nazista entre 1941 e 1945 e os Estados Unidos entre 1947 e 1991, ao ser uma das duas superpotências da Guerra Fria.
Da época da extinção do governo comunista, iniciou-se o momento contemporâneo, assinalado pela implementação da democracia neoliberal, conforme recomendado pelos organismos internacionais financeiros. O modelo prescrito seria depois contestado pelo mandato de Vladimir Putin, sucessor do de Boris Yeltsin, com vida acima de quarto de século, de sorte que ele se encontra apto a superar em pouco tempo o período de poder de Josep Stalin. Em comum aos dois recentes dirigentes, Yeltsin e Putin, o apreço pelo autoritarismo, conquanto por vias distintas no campo econômico.
Portanto, como observado de maneira sintética, a elaboração da herança russa vai muito além da distante ascendência comum com a sociedade agredida, a partir da longeva contribuição de emigrantes escandinavos, ao se somarem outros no transcorrer de centenas de anos, de sorte que o esmaecimento do vínculo por suposto original é evidente, embora relembrado de forma distorcida por historiadores oficiais ou celebrado de modo equivocado por políticos governistas em torno dos quais circula o ávido Kremlin pelas anexações territoriais em curso.
Virgílio Caixeta Arraes: Graduado em História pela Universidade de Brasília (1994), mestre em História pela Universidade de Brasília (1998), doutor em História pela Universidade de Brasília (2005) e pós-doutor em História pela Université de Montréal (2017). Professor Associado da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de História, com ênfase em Estados Unidos: História.
