Rússia: da solidariedade à condescendência dos Estados Unidos com a Ucrânia
Virgílio Caixeta Arraes
Resumo: texto relativo ao conflito russo-ucraniano, ao tratar dos últimos desdobramentos como os do encontro de cúpula entre Donald Trump e Vladimir Putin e dos objetivos da intermediação da atual administração norte-americana na cizânia.
Há semanas, observa-se a confrontação entre Rússia e Ucrânia sem a visibilidade adequada no noticiário internacional, uma vez que a preocupação do eixo norte-atlântico se deslocou para o Oriente Médio, dada a ampliação da tragédia humanitária em outro desigual confronto, a ponto de a França manifestar de maneira recente a intenção de reconhecer o Estado da Palestina, malgrado a contrariedade dos Estados Unidos.
A exceção nos meios de comunicação sobre a invasão de fevereiro de 2022 foi o encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin no Alasca em 15 de agosto com o objetivo de tratar tão só da briga. A aspiração norte-americana imediata seria a do estabelecimento de cessar-fogo pelos russos. A localidade não poderia ser a mais apropriada, ao ter sido território moscovita no século dezenove e transferido à soberania washingtoniana sem conquista militar, mas por entendimento comercial.
Adquirido pelos Estados Unidos em março de 1867 por mais de sete milhões de dólares, o Alasca compunha a Rússia mesmo depois da desistência de circular lá — o propiciado na outra parte do estreito de Bering como peles, madeira e pescado poderia ser obtido no próprio império com esforços menores.
Na visão de Washington, incorporar a região robusteceria a movimentação no Pacífico Norte em detrimento da de Londres. Entretanto, o Capitólio não compartilhava, a princípio, do mesmo entusiasmo pela compra da região sem aparente valor econômico.
Diante da hesitação de parte do Congresso, a Casa Branca teria de valer-se do auxílio oficioso do plenipotenciário von Stoeckl em inúmeros encontros com parlamentares com o propósito de convencê-los a ratificar a operação — não se vislumbrava naquela época ser o Alasca detentor de largas reservas de cobre, ouro, gás e petróleo. O diplomata russo, instalado havia duas décadas em solo norte-americano, conhecia bem a elite da capital.
Se em 1867 houve concordância entre os dois governos, em 2025, não, dado que nenhum acordo adviria da reunião de cúpula, em face da insistência moscovita de abocanhar nacos definitivos da soberania vizinha e, ao mesmo tempo, de afastar sua acérrima inimiga de enfileirar-se sob a coordenação da Organização do Tratado do Atlântico Norte.
Em meados de junho último, a Casa Branca havia direcionado ao Kremlin ultimato com a intenção de forçar negociação a fim de interromper a prolongada disputa e, de modo simultâneo, se aproximado de Mariyinsky, ao buscar aliviá-la militarmente com o fornecimento de sistemas de defesa aérea.
Sem o atendimento da extremada decisão diplomática, ela poderia ampliar as sanções, ao intimidá-la de forma indireta, ao pressionar corporações e nações com quais interage a restringir o relacionamento econômico.
No entanto, efeitos da ocasional medida teriam impacto limitado, uma vez que o governo moscovita já se adaptou desde o primeiro semestre de 2022 a consequências de maior severidade, ao ter tido no horizonte o convívio com inúmeras punições multilaterais desde então. Com o encerramento do prazo da exigência, ao invés de coagir o Kremlin, a Casa Branca optaria por dialogar com ele, ao pautar a conversa no Alasca.
O tom de quando em quando ameaçador de Washington aos olhos do mundo se tornou, portanto, risível aos de Moscou e desesperançado aos de Kiev, de sorte que os contendores, ainda que se tenham dispostos a reunir, não almejariam concordar quanto ao período, ao menos de paralisação dos embates. Sem isso, os dois dirigentes-mores permanecem impossibilitados de ofertar a suas populações alívio mínimo.
De um lado, contam os russos com a solidariedade irrestrita dos chineses, renovada na visita de quatro dias em maio de Xi Jin Ping a Vladimir Putin, ao passo que, do outro, os ucranianos dispõem da relativa fraternidade dos euro-ocidentais e da ocasional boa vontade dos norte-americanos. Logo, a diferença da intensidade do apoio repercute de maneira negativa à administração quievita.
Com parceiros poderosos a figurar nos dois polos em litígio, a rivalidade no leste da Europa deverá estender-se por bastante tempo, a despeito do fato da elevação das perdas humanas e da ascensão inexorável dos custos materiais.
O Kremlin ainda tem a convicção de que seria possível derrotar Mariyinsky nos campos de batalha, em função da fadiga maior dela depois de três anos e meio de enfrentamento excruciante. Despojado e maniatado, o governo ucraniano ficaria de rédeas no chão.
Por isso, apesar da vontade de Volodymyr Zelensky de avistar-se o mais breve possível com Vladimir Putin, com o fito de definir pauta comum sobre a renhida disputa, o mandatário moscovita só aceita reunir-se com o quievita se fosse para referendar termos antes pelas chancelarias nos quais se estabelecesse a validade da situação atual, inaceitável para a nação invadida e agredida.
Dois objetivos desdobram-se na atuação estadunidense com vistas a suspender a contenda russo-ucraniana: o pessoal deriva-se da ambição de Donald Trump de obter uma das mais altas premiações globais: a do Nobel da Paz, concedida a Woodrow Wilson, Jimmy Carter e Barack Obama, democratas, e Theodore Roosevelt, único republicano.
No alvorecer do século passado, Roosevelt dispôs-se a mediar o conflito entre Rússia e Japão por causa do controle de extensas áreas da China e da Coreia, então unificada. Graças à intermediação, os dois impérios aceitariam o cessar-fogo e com alguma dificuldade conformar-se-iam com concessões mútuas.
O nacional decorre da inversão da tática de Richard Nixon, republicano, implementada nos anos setenta, ao prestigiar a China com o desejo de afastá-la da União Soviética. Meio século depois, reconhecido o ascendente poderio da neomercantilista Pequim, Washington tenta aproximar-se de Moscou, embora de forma errática, ao ofertar contribuir para o encerramento da guerra, ainda que com prejuízo para Kiev e com desprestígio para Bruxelas.
Fundamenta-se o país no reavivamento da tradição geopolítica de distanciar Moscou ora de Berlim, ora de Pequim. Por conseguinte, se a Ucrânia pôde conservar esperança com os Estados Unidos na gestão de Joe Biden, ela agora só pode contentar-se com a condescendência da administração de Donald Trump.
Virgílio Caixeta Arraes: Graduado em História pela Universidade de Brasília (1994), mestre em História pela Universidade de Brasília (1998), doutor em História pela Universidade de Brasília (2005) e pós-doutor em História pela Université de Montréal (2017). Professor Associado da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de História, com ênfase em Estados Unidos: História.
