Rússia: cautela com o choque entre Estados Unidos e Irã
Virgílio Caixeta Arraes
Resumo: artigo relativo ao desenrolar da ampliação da tensão entre Estados Unidos e Irã, acompanhado o embate de perto pela Rússia. A relação entre Washington e Teerã desde o período da Guerra Fria tem consequências para Moscou, normalmente com desgaste político ou econômico em decorrência do impacto da variação dos preços do petróleo e do espraiamento possível de ondas integristas até seu território.
A atenção da opinião pública global direciona-se nos últimos dias ao Oriente Médio e cercanias, ao centrar-se de maneira correta na observação atenta da escalada do embate aéreo entre Teerã e Tel Aviv, ambas detentoras de armamentos sofisticados de fabricação própria.
De modo oficial, a disputa relaciona-se com o desenvolvimento do programa nuclear iraniano com orientação castrense, motivo de inquietação ocidental há décadas, em decorrência da autonomia política da teocracia xiita desde o advento da derrubada da decrépita monarquia persa em janeiro de 1979, parceira então confiável de Washington na oposição ao comunismo.
Nem o Kremlin, nem a Casa Branca reconheceriam em negociações contemporâneas com o Irã plena segurança em suas tratativas. A desconfiança é mútua, uma vez que a datar da transformação de regime durante a derradeira fase do período bipolar, Teerã teve de defender-se de Bagdá em quase um decênio (setembro de 1980 a agosto de 1988) de confrontação. Com a nova ordem mundial, tem de contrapor-se a invectivas constantes de chancelarias do eixo norte-atlântico.
A concentração do Ocidente naquela região do planeta derivaria do manancial petrolífero extraído a baixo custo e contribuinte assim da manutenção das engrenagens do funcionamento do sistema capitalista desde o amanhecer do século vinte. Depois da Segunda Guerra Mundial, a prevalência da exploração na Arábia Saudita era de corporações norte-americanas, no Irã, de britânica, e no Iraque de origem anglo-estadunidense.
No início dos anos cinquenta, o governo iraniano proporia maior divisão dos ganhos petrolíferos à Companhia Anglo-Persa. Mais adiante, a intenção não seria a de repartir lucros tão somente, porém a de estatizar a extração das fartas reservas em face da necessidade de crescimento célere.
Defronte do quadro econômico desfavorável, Londres amadureceria a ideia de golpe de Estado, dado que o encaminhamento de contingentes não contaria com a subscrição de Washington, em função de possível reação de Moscou, interessada em agir na área como na época da Segunda Guerra, com o envio de seus próprios efetivos.
Seria tempo de novo delineio global e, desta maneira, Downing Street teria de aceitar a presença da Casa Branca nos assuntos iranianos em troca da garantia do distanciamento do Kremlin. Com isso, o preparo da Operação Ajax, orquestrada entre o serviço secreto dos dois países, destinada a derrubar do poder o primeiro-ministro de matiz nacionalista, enfatize-se, não socialista.
No alvorecer da implementação da atuação conjunta, o objetivo seria o de desacreditar o governo perante a sociedade local, ao associá-lo de modo indevido ao comunismo, em especial nas mesquitas e nas repartições públicas.
Em seguida, seria o de promover a substituição do mandatário com a colaboração do xá. A despeito da pressão sobre a continuidade do dirigente, o plano se frustraria em virtude do apoio popular à administração. Como consequência, em agosto de 1953, a situação chegaria a um impasse: ou abdicaria o imperador ou renunciaria o primeiro-ministro.
Graças ao estímulo do generoso socorro financeiro anglo-americano, tropas circulariam nas ruas da capital em prol do desgastado xá, reprimiriam manifestantes nacionalistas ou progressistas e se apossariam de forma temporária dos meios de comunicação, a fim de divulgar notícias auspiciosas ao soberano.
Após o êxito, dividir-se-ia a extração do petróleo em primeiro lugar entre empresas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha e em menor escala entre uma dos Países Baixos e uma da França. Com a partilha energética, o Ocidente, satisfeito, garantiria o auxílio ao Irã, malgrado a crescente impopularidade da monarquia.
A acomodação inadequada da Casa Branca com o anticomunismo fervoroso ao redor do planeta resultaria da dificuldade de enxergar a rejeição legítima de populações locais a governos arbitrários, corruptos ou incompetentes na América Latina ou no Oriente Médio e adjacências, por exemplo, como era o caso do Irã.
Nem sequer a súbita e contínua elevação do preço do petróleo a datar de 1973 estimularia a administração real a reverter ao menos parte da riqueza auferida no curto prazo em benefício da empobrecida sociedade.
A insensibilidade da monarquia ampliaria a insatisfação do povo, a ponto de a família imperial ter de afinal deixar o país em janeiro de 1979. Com a fuga desairosa, religiosos xiitas, não comunistas, assumiriam o poder, apesar da resistência norte-americana em reconhecer a pequena influência soviética em solo iraniano.
Ao tomar ciência da situação de fato, a possibilidade de revertê-la seria muito difícil à Casa Branca, em vista da consolidação da implementação da teocracia e do posicionamento antiamericano, derivado do relacionamento estreito por décadas desfavorável ao desenvolvimento nacional.
Ao tentar Washington contactar de forma aberta Teerã, a reação popular seria intensa, materializada aos olhos da opinião pública global na invasão da embaixada em novembro de 1979, acontecimento desastroso para ele, ao reagir com o fígado.
Destarte, a Casa Branca interromperia a aquisição de petróleo iraniano, congelaria as contas oficiais de Teerã no país e, por derradeiro, planejaria operação militar de libertação das dezenas de reféns em abril de 1980, a qual desaguaria em fracasso antes mesmo da execução do resgaste — oposição à ação castrense desde a concepção do plano, Cyrus Vance, titular do Departamento de Estado, solicitaria a exoneração do posto. Jimmy Carter perderia a eleição em novembro de 1980 para Ronald Reagan.
Até hoje, os dois choques do petróleo entre 1973 e 1979 remeteriam a lembranças desabonadoras à América do Norte, Europa Ocidental e Japão, ao ter tido em xeque a continuidade da prosperidade da maior parte da população, incluso o operariado — seria o começo do fim da era de ouro na disputa bipolar. Até a ocorrência dos reajustes desmedidos, afastar-se-ia a tentação do comunismo do cotidiano das massas trabalhadoras nos pleitos eleitorais.
Contudo, a derrocada de Washington em Teerã não animaria Moscou, preocupada em resguardar sua fronteira com Cabul, ao inquietar-se com a influência do ocasional espraiamento integrista até em seu território. Com o afastamento do Irã, os Estados Unidos reiterariam seus laços com o Paquistão e poderiam aliar-se ao instável Afeganistão. Assim, a União Soviética teria próxima de si anticomunismo de duas vertentes: o laico e o religioso.
O receio do Kremlin iria diminuir em função de dois conflitos: o seu com Cabul em dezembro de 1979 e o de Bagdá com Teerã em setembro de 1980. Ambos com duração em torno de um decênio e com a consequência inesperada de erodir o poderio interno do agressor: por coincidência, em 1991, o Iraque enfrentaria uma coligação internacional punitiva e a União Soviética extinguir-se-ia.
Na ordem pós-bipolar, o Irã iria aproximar-se diplomaticamente da Rússia e participaria de negociações em áreas outrora soviéticas como no persistente impasse entre Armênia e Azerbaijão pelo controle do Alto Carabaque (Nagorno-Karabakh) e na guerra civil nos anos noventa no montanhoso Tajiquistão.
Com o embate entre Israel, apoiado pelos Estados Unidos, e Irã, a Rússia deslocar-se-ia por enquanto das lentes dos meios de comunicação mundiais em torno de sua invasão da Ucrânia e acompanharia, ainda que com cautela, o desgaste de seu grande adversário, ao enfronhar-se no Oriente Médio sem o equilíbrio político necessário.
Virgílio Caixeta Arraes: Graduado em História pela Universidade de Brasília (1994), mestre em História pela Universidade de Brasília (1998), doutor em História pela Universidade de Brasília (2005) e pós-doutor em História pela Université de Montréal (2017). Professor Associado da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de História, com ênfase em Estados Unidos: História.
