Repensando o ‘Momento do Golfo’ após a Primavera Árabe
Letícia Cunha de Andrade
Resumo: Este artigo discute os impactos da Primavera Árabe para o ‘Momento do Golfo’, avaliando se e como esses eventos desafiaram a estabilidade das monarquias da região. A Primavera Árabe contribuiu para consolidar o ‘Momento do Golfo’ ao demonstrar a resistência das monarquias aos protestos populares.
Em 2010, a Fundação Internacional de Futebol Associado (FIFA) anunciou a escolha do Qatar para sede da Copa do Mundo em 2022. O anúncio foi recebido com júbilo pelas monarquias do Golfo Árabe, que consideraram o acontecimento apenas mais um exemplo de sua crescente importância na cena regional ao longo da primeira década do século XXI.
Nas últimas décadas, a crescente importância das monarquias do Golfo, detentoras de uma prosperidade econômica e de uma estabilidade política que as distinguiam dos demais países árabes, acabou ficando conhecida como ‘Momento do Golfo’ (ABDULLA, 2010). Essa expressão, que remonta a 2010, não denota apenas a trajetória dessas monarquias em direção à liderança regional, mas também seu reconhecimento internacional e, consequentemente, sua possibilidade de exercer maior influência no cenário internacional (ULRICHSEN, 2010).
O ‘Momento do Golfo’ acabou sendo desafiado pela Primavera Árabe em 2011. Os protestos populares, motivados por demandas sociais, trouxeram instabilidade política às Monarquias do Golfo, que viram sua liderança regional, bem como suas possibilidades de reconfigurar a ordem mundial a ser favor, profundamente prejudicada. O relativo êxito logrado na Tunísia e no Egito aumentaram os receios das Monarquias do Golfo (CARVALHO PINTO, 2012b).
Nesse sentido, o presente artigo se propõe a discutir os impactos da Primavera Árabe para o ‘Momento do Golfo’, avaliando se e como esses eventos desafiaram a estabilidade dessas monarquias.
O Golfo Árabe, também denominado Golfo Pérsico ou simplesmente Golfo, localiza-se no Oriente Médio, liga-se ao Mar da Arábia a leste pelo Estreito de Ormuz e pelo Golfo de Omã, possui 990 km de comprimento. Sete países são banhados por suas águas — Arábia Saudita, EAU, Qatar, Kuwait, Bahrein, Iraque e Irã e, embora não seja banhado pelas águas do Golfo, Omã também é considerado parte da região, de modo que as monarquias do Golfo Árabe são Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Qatar, Bahrein, Kuwait e Omã.
A expressão ‘Momento do Golfo’ foi pensada em 2010 para explicar um momento econômico e político propício para a ascensão das Monarquias do Golfo durante o primeiro decênio do século XXI (ABDULLA, 2010).
Esse momento propício era caracterizado por quatro fatores que distinguiam as Monarquias do Golfo dos demais países da região: a) prosperidade econômica, b) participação ativa na criação de organizações regionais, c) estabilidade política e d) envolvimento em questões globais. Além de oferecer a possibilidade de destaque político e econômico na região do Golfo, esse conjunto de fatores ofereceu a essas monarquias a oportunidade de promover uma ordem regional que lhes fosse mais favorável para o Golfo Árabe (ABDULLA, 2010; ULRICHSEN, 2010).
A prosperidade econômica da região era evidente nos anos que precederam a Primavera Árabe — enquanto as economias de todo o mundo cresceram em média 4,3% na última década do século XXI, as monarquias do Golfo cresceram em média 6%; em 2009, quando o PIB mundial sofreu retração de quase 1% em virtude dos reflexos da crise financeira iniciada no setor imobiliário dos Estados Unidos no ano anterior, o PIB das monarquias do Golfo cresceu cerca de 1,8%.
A integração a organizações regionais é encarada como outro indicador da prosperidade dessas monarquias. Lideradas pela Arábia Saudita, elas instituíram o Conselho de Cooperação do Golfo em 1981, criado para lidar com as instabilidades regionais dos anos 1980 — Revolução Iraniana (1979), Guerra Irã-Iraque (1980–1988) e intervenção soviética no Afeganistão (1979) — as quais ameaçavam a estabilidade das monarquias do Golfo, que viram na cooperação uma forma de conter ameaças e uma possível expansão xiita (PINFARI, 2009; FOLEY, 2010).
Todavia, a população xiita fora do território iraniano era escassa, geograficamente fragmentada e politicamente heterogênea, não representando, portanto, ameaça às monarquias do Golfo (YOUSEFI, 2009). Assim, o Conselho desviou sua atenção para questões como cooperação em economia, finanças, comércio, alfândega, educação, cultura, tecnologia, entre outros. Vale mencionar que, nas monarquias do Golfo, a vertente sunita é uma força muito potente, que as unifica politicamente, lhes garante estabilidade política e, ao mesmo tempo, as contrapõe ao Irã, o berço da maior população sunita do Oriente Médio (BILL, 1984; YOUSEFI, 2009).
Com o Conselho formado, o envolvimento nas questões globais tornou-se natural. A partir das iniciativas da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e do Qatar, o Conselho passou a participar ativamente das discussões globais sobre governança energética, mudança climática, reformas do sistema financeiro internacional e conflitos regionais, engajamento que acabou projetando autoconfiança socioeconômica e autoimagem positiva no cenário internacional (ULRICHSEN, 2010; MADDY-WEITZMAN, 2010; CARVALHO PINTO, 2012a).
Uma iniciativa de muita importância nesse sentido foi o Plano Abdullah, proposto em 2002 pela Arábia Saudita para colocar fim ao conflito entre árabes e israelenses. Israel viu a iniciativa com desconfiança e interpretou a proposta como uma estratégia para apagar a imagem negativa dos árabes no Ocidente e culpar Israel pela recusa de mais uma proposta de paz. É importante mencionar que, apesar de não ter saído do papel, o Plano Abdullah foi a primeira proposta de paz a alcançar o maior consenso entre os árabes (BAGHAT, 2006; MADDY-WEITZMAN, 2010).
Apesar de muito evidente, o ‘Momento do Golfo’ tinha seus desafios, pois as monarquias do Golfo, a despeito de sua ascensão, continuaram vulneráveis às tensões regionais e dependentes de proteção externa, sobretudo vinda dos Estados Unidos. Mas o maior desafio vinha de dentro e consistia nas crescentes demandas da classe média dessas monarquias por democratização. Os monarcas passaram a encarar a classe média como seu ‘Calcanhar de Aquiles’ (ABDULLA, 2010; CARVALHO PINTO, 2012a).
Em seu despertar, a Primavera Árabe reacendeu a rivalidade entre sunitas e xiitas, chegando inclusive a inspirar em alguns países da região o medo de que os protestos fossem um sinal da expansão xiita. Os fatos de que Hosni Mubarak, no Egito, fora substituído por Mohamed Morsi, integrante da Irmandade Muçulmana, e de que Ben Ali, na Tunísia, fora substituído por Moncefi Marzouki, islamita sunita, só piorava a percepção das monarquias do Golfo (KAMRAVA, 2011).
Não demorou para que a ameaça sunita fosse descartada, pois percebeu-se que tanto sunitas quanto xiitas iam às ruas para protestar e que suas reivindicações não eram motivadas por questões religiosas, e sim por questões sociais. Os protestantes exigiam dignidade e direitos políticos e sua insatisfação era explicada, em parte, pelos privilégios políticos, econômicos e sociais concedidos aos trabalhadores estrangeiros e pelos elevados índices de desemprego entre os nativos (CARVALHO PINTO, 2021b).
A maior parte da força de trabalho no Golfo Árabe é composta por estrangeiros desde fins dos anos 1960, quando as primeiras reservas petrolíferas foram descobertas. Esses trabalhadores foram convidados para suprir a escassez de mão-de-obra nativa qualificada para promover a exploração petrolífera, principal atividade econômica das monarquias do Golfo Árabe. Desde então, essa situação vinha gerado desconforto entre os nativos e culminou nos primeiros sinais da Primavera Árabe em 2011 (CARVALHO PINTO, 2012b).
Os protestos da Primavera Árabe foram os primeiros a lograr relativo êxito fora do Golfo Árabe, na Tunísia e no Egito, mas dentro do Golfo Árabe, poucos foram seus efeitos. A primeira medida dos monarcas árabes foi reprimir brutalmente os protestos — as repressões mais violentas aconteceram nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein, onde enviaram tropas para conter os revoltosos e apoiaram Hosni Mubarak no Egito até os últimos dias dele à frente do governo.
Mas após uma série de repressões violentas, algumas estratégias foram implementadas para conter os protestos:
Una de las repuestas oficiales ha sido la implementación ocasional de planes de nacionalización de la fuerza de trabajo, con políticas como la imposición de cuotas en determinados sectores para los nativos. Interesantemente, los países del Golfo sin excepción han divulgado algún plan de nacionalización en los últimos meses como respuesta a la ‘Primavera ‘Árabe’. Estas políticas públicas de incentivo al empleo de ciudadanos suelen ser conocidas por el nombre del país donde son aplicadas, como kuwaitinization; saudization; emiratization, y así sucesivamente. Otros beneficios han incluido el aumento de salarios, el aumento de la aposentadora y varios regalos en dinero para los nativos, como ha sido el caso en Kuwait (CARVALHO PINTO, 2012b, p. 9).
Portanto, estratégias como os planos de nacionalização da força de trabalho, os aumentos de salário e de aposentadoria e os “presentes” em dinheiro para os nativos, associados a repressões violentas, permitiram às monarquias do Golfo contornar os efeitos dos protestos populares, de modo que, na região, a Primavera Árabe não foi tão longe, tampouco conseguiu modificar a estrutura social e política dessas monarquias.
À guisa de conclusão, pode-se dizer que a Primavera Árabe não frustrou o ‘Momento do Golfo’, pelo contrário, fortaleceu-o ao revelar a resistência das monarquias do Golfo Árabe aos anseios da classe média.
Referências
ABDULLA, A. Contemporary Socio-Political Issues of the Arab Gulf Moment. London School of Economics: Kuwait Programme on Development, Governance and Globalization in the Gulf States, 2010.
BAGHAT, G. The Gulf Monarchies and Israel. In: GAGHAT, G. Israel and the Persian Gulf: Retrospect and Prospect. Florida: University Press of Florida, 2006, pp. 107–143.
BILL, J. The Persian Gulf: Resurgent Islam. Foreign Affairs, v. 63, n. 1, 1984, pp. 108–127.
CARVALHO PINTO, V. 2012a. From Follower to Role Model: Studying the Variations to the UAE’s Self-Image. Paper apresentado no Workshop Internacional Rethinking the Republic-Monarchy Gap, University of Marburg, 20 a 21 de setembro de 2012.
CARVALHO PINTO, V. La Ola de Movimientos Pro-Democracia en Medio Oriente: Análisis Preliminar de las Consecuencias Políticas para la Región del Golfo Pérsico. In: BALLESTÉ, E. & FÉREZ, M. Medio Oriente y Norte de África: ¿Reforma Revolución o Continuidad? Ciudad de Méjico: Senado de la República Mejicana, 2012b.
FOLEY, S. The Arab Gulf States: Beyond Oil and Islam. London: Lyynner Rienner, 2010.
KAMRAVA, M. The Arab Spring and the Saudi-Led Counterrevolution. Orbis, v. 56, n. 1, 2011, pp. 96–104.
MADDY-WEITZMAN, B. Arabs vs. the Abdullah Plan. Arab Studies Quarterly, Summer, 2010, pp. 3–18.
PINFARI, M. Nothing But Failure? The Arab League and the Gulf Cooperation Council as Mediators in Middle Eastern Conflict. London School of Economics: Crisis State Research Centre, 2009.
ULRICHSEN, K. The GCC States and the Shifting Balance of Global Power. Doha: Center for International and Regional Studies, 2010.
YOUSEFI, A. Whose Agenda Is Served by the Idea of a Shia Crescent? Turkish Journal of International Relations, v. 8, n. 1, 2009, pp. 114–135.
Letícia Cunha de Andrade é graduada (PUC-GO), mestre (UnB) e doutora (USP) em Relações Internacionais. Atualmente, atua como professora e coordenadora dos cursos de Relações Internacionais da Universidade Paulista e do Instituto Nacional de Pós-Graduação.
