Política nuclear em crise? Os desafios da ordem nuclear global
Luiza Elena Januário
Resumo: 2025 marca os 80 anos do uso de armas nucleares no Japão, representando um momento oportuno para discutir a importância desse armamento na política internacional contemporânea. Em um contexto de contestações e crises, propõem-se elementos para compreender os desafios relacionados à ordem nuclear global vigente.
Agosto de 2025 marcou os 80 anos dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki pelos Estados Unidos ao final da Segunda Guerra Mundial, incentivando reflexões sobre política nuclear global. O evento, única situação em que armas nucleares foram utilizadas em uma situação de conflito até os dias atuais, impactou significativamente a segurança internacional e o pensamento estratégico. As novas dinâmicas afetaram não apenas os países que se tornariam nuclearmente armados e seus aliados mais próximos, uma vez que ficou claro desde o início que a política nuclear é uma questão global.
De fato, os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki demonstraram o poder destrutivo das armas nucleares e sua relevância como um recurso de poder, sendo que também ganharam impulso os debates em termos das aplicações pacíficas da tecnologia em pauta. Diante dessa característica de uso dual — tecnologias e itens que têm aplicações tanto pacíficas como relacionadas ao emprego da força — e do interesse em diversas partes do mundo pelo nuclear, foram se estruturando as iniciativas internacionais para lidar com a temática. Progressivamente foi germinada a denominada ordem nuclear global, baseada na não proliferação e na dissuasão nuclear (Walker, 2000).
Tal ordenamento mantém-se vigente até os dias atuais, sustentado por uma série de interesses e estruturas que encontram expressão no denominado complexo da não proliferação (Craig; Ruzicka, 2013). Assim, é preservada a importância desse tipo de armamento e reafirmado que sua posse por um conjunto reduzido de Estados constitui um fator de estabilidade no cenário internacional. Ao se analisar os dados sobre o arsenal nuclear agregado mundial, pode-se constatar que atualmente o número de armas nucleares existentes no mundo é sensivelmente menor do que o pico experimentado na década de 1980, sendo estimado um total de 12.241 ogivas nucleares no mundo em janeiro de 2025 (Kristensen; Korda, 2025), em contraposição a mais de 70.000 nos anos 1980. Além disso, as estimativas dos últimos anos indicam que o arsenal agregado continua a declinar. Porém, tais dados não são motivo para otimismo.
Apesar de ser constatado um declínio em termos quantitativos, as armas nucleares são cada vez mais sofisticadas, recebendo altos investimentos e continuam centrais para as doutrinas militares dos países que as possuem, bem como para muitos de seus aliados sob um guarda-chuva nuclear. De fato, nos últimos anos, notoriamente após a invasão da Ucrânia pela Rússia, os países nuclearmente armados colocaram em marcha projetos de modernização e sofisticação de seus arsenais — ou anunciaram intenção de fazê-lo. Além disso, a atual redução do arsenal agregado mundial pode ser atribuída ao desmantelamento de ogivas que já estavam destinadas à ‘aposentadoria’ por Estados Unidos e Rússia, que juntos respondem por cerca de 90% das armas nucleares existentes no mundo (Kristensen; Korda, 2025).
A atual ênfase nos arsenais nucleares está entrelaçada a um cenário geopolítico marcado por crescente competição e acirramento de tensões e de conflitos em diferentes partes do mundo, com destaque para Oriente Médio e Europa. Torna-se difundido o discurso de crise da ordem nuclear global, o que se manifesta nos investimentos nos arsenais e na retórica nuclear, nos desafios para avançar com a agenda do desarmamento, na dificuldade em se encontrar soluções conjuntas nos principais fóruns internacionais que tratam do tema e nas contestações ao instrumento central da ordem vigente, que representa sua essência: o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP).
Apesar da dramaticidade do momento atual, a sensação de crise da ordem nuclear global não é algo novo ou recente, mas está imiscuída na sua própria criação. Isso porque a configuração do cerne do ordenamento traz um problema de justiça intrínseco ao reconhecer direitos e deveres distintos aos países (Müller, 2010; Tannenwald, 2013). As armas nucleares são legitimadas com um fator de estabilidade nas mãos de um conjunto reduzido de Estados, tidos como confiáveis e responsáveis. Ao mesmo tempo, está implícito que a maioria do mundo não é responsável o suficiente para ter esse recurso de poder e é sobre os países nuclearmente desarmados que recai grande parte do peso da necessidade de promover a segurança internacional, uma vez que a não proliferação é apresentada como um problema urgente.
Esse ponto está relacionado a uma intricada lógica de desarmamento e não proliferação em que o desarmamento é um ideal para um futuro, enquanto a proliferação é uma questão hodierna e premente que justifica a continuada existência e relevância dos arsenais nucleares (Januário, 2021). Os casos de países que abertamente proliferaram às margens do TNP são abordados como comprovação da pertinência de tal dinâmica. Para os países nuclearmente desarmados, ainda existe muitas vezes o receio de que o discurso de segurança encubra a imposição de dificuldades de acesso a tecnologias sensíveis para usos pacíficos, trazendo novamente a questão do uso dual. Com esse enquadramento, é possível compreender a busca de países como Argentina e Brasil por soluções para atingirem seus interesses, o que se desdobrou na criação da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC) em 1991. Também é possível considerar as interpretações de uma ordem nuclear fundada em categorias racializadas, genderizadas e patriarcais (Egeland, 2021).
De qualquer forma, mesmo sem considerar as implicações desse problema de justiça de instrumentos discriminatórios sobre os quais a ordem nuclear vigente repousa, a sensação de crise tem ganhado proeminência em diversos pontos ao longo das décadas, como no início dos anos 2000, quando foram discutidas as consequências de uma postura marcadamente unilateral por seu grande arquiteto, os Estados Unidos (Walker, 2007). Mas o momento atual tem seu caráter inegavelmente crítico. Não só as estruturas centrais da área nuclear enfrentam fortes contestações e travamento, mas outras iniciativas que ajudavam a viabilizá-la também estão em decadência, como é o caso das iniciativas bilaterais de controle de armamentos.
Tais arranjos envolvendo os dois países com os maiores arsenais do mundo, fundamentais durante a Guerra Fria, foram abandonados e não é visualizada a possibilidade de criar acordos em um curto prazo. O ceticismo sobre a possibilidade de reviver um acordo com o Irã parece apenas aumentar, representando outra faceta das dificuldades de negociação. Além disso, as práticas discursivas também apresentam uma deterioração, havendo maior difusão nos últimos anos de perspectivas já conhecidas sobre como ‘a proliferação compensa’ e uma banalização do possível emprego de armas nucleares táticas.
Assim, o diagnóstico da ordem nuclear global é de uma crise tripla: crise de suas instituições centrais, crise de iniciativas secundárias e crise discursiva. O elemento crítico que parece caracterizar o atual momento é a baixa disposição à cooperação. Mesmo em períodos de alta tensão na Guerra Fria, havia um reconhecimento sobre a necessidade de implementar iniciativas, multilaterais ou bilaterais, para se lidar com os desafios e riscos representados pelas armas nucleares. Em um contexto internacional em que crises e contestações se acumulam, incluindo notavelmente com relação ao multilateralismo, tais perspectivas perdem tração em nome de interpretações cruas e restritas sob o manto do infame interesse nacional.
Nesse sentido, podem ser entendidos os ajustes de ponteiros do relógio do juízo final nos últimos anos, que colocam a humanidade mais perto do apocalipse do que nunca em uma imagem criada para alertar um público amplo sobre os desafios enfrentados coletivamente e derivados da ação humana (Mecklin, 2025). O declínio da disposição à cooperação traz desafios não somente em termos de iniciativas pontuais, mas também por proporcionar oportunidade para que os dilemas intrínsecos da atual ordem nuclear global se tornem evidentes e agravem questionamentos sobre sua própria legitimidade a ponto de suscitar debates sobre seu esgotamento. Ironicamente, em um contexto em que é urgente a busca de novas soluções em termos de não proliferação e desarmamento, há um apego por parte de atores centrais da ordem nuclear a fórmulas já conhecidas. Assim, a oportunidade representada pelo Tratado de Proibição de Armas Nucleares (TPAN) para rediscutir a validade das armas nucleares fica em segundo plano.
Os 80 anos dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki em 2025 constituem um momento apropriado para um chamado a repensar essas questões e retomar o destaque para a questão humanitária, lembrando os efeitos catastróficos e cruéis associados a essa arma de destruição em massa. É significativo que o prêmio Nobel da Paz de 2024 tenha sido concedido a Nihon Hidankyo, considerada a mais representativa organização Hibakusha — termo que se refere aos sobreviventes da bomba atômica — no Japão. Na verdade, essa discussão precisa ser constante e considerar de fato o caráter global da questão, não sendo restrita aos interesses e às vozes de poucos Estados.
Afinal, na questão nuclear, o adjetivo dual não se refere apenas aos usos da tecnologia, mas também ao fato de civis e militares serem impactados pelo uso do armamento. No Japão, o critério de alvos duais — remetendo a áreas tanto com instalações militares como construções civis mais suscetíveis a danos — foi assumidamente utilizado na seleção de possíveis cidades a serem atacadas (Stimson, 1947). Mesmo sem tal caráter deliberado, é necessário recordar que as armas nucleares são um armamento indiscriminado e seu uso traria consequências para a sociedade em geral. O presente momento, em que se tornam mais evidentes e se exacerbam elementos de crise da ordem nuclear global que podem ser associados à sua própria constituição, convida a repensar o que está em jogo e que tipo de iniciativas se pretende construir para lidar com o tema.
Referências
CRAIG, Campbell; RUZICKA, Jan. The Nonproliferation Complex. Ethics & International Affairs, v. 27, n. 3, 2013.
EGELAND, Kjølv. The Ideology of Nuclear Order. New Political Science, 2021.
KRISTENSEN, Hans M.; KORDA, Matt. World nuclear forces. In: SIPRI (Ed.). SIPRI Yearbook 2025: Armaments, Disarmament and International Security. Oxford University Press, 2025. p. 177–213.
JANUÁRIO, Luiza E. Compassos e descompassos nucleares: as estratégias de Argentina e Brasil frente à ordem nuclear global e para o relacionamento bilateral (1985–1991). Tese (Doutorado em Relações Internacionais) — Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP-UNICAMP-PUC-SP), São Paulo, 2021.
MECKLIN, John. Closer than ever: It is now 89 seconds to Midnight. 2025 Doomsday Clock Statement. Bulletin of the Atomic Scientists, Jan. 28, 2025. Available at: <https://thebulletin.org/doomsday-clock/2025-statement/>. Last access: Aug. 19, 2025.
MÜLLER, Harald. Between Power and Justice: Current Problems and Perspectives of
the NPT Regime. Strategic Analysis, v. 34, n. 2, 2010.
STIMSON, Henry L. The Decision to Use The Atomic Bomb. Harper’s Magazine, v. 194, n. 1161, Feb. 1947.
TANNENWALD, Nina. Justice and Fairness in the Nuclear Nonproliferation Regime.
Ethics & International Affairs, n. 27, n. 3, 2013.
WALKER, Willian. Nuclear enlightenment and counter-enlightenment. International
Affairs, v. 83, n. 3, 2007.
WALKER, W. Nuclear Order and Disorder. International Affairs, v. 76, n. 4, 2000.
Luiza Elena Januário: Docente do curso de Relações Internacionais da Universidade Paulista (UNIP). Coordenadora auxiliar do curso de Relações Internacionais nas unidades Paraíso e Chácara Santo Antônio da mesma instituição. Doutora e mestra em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP). Bacharela em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Atualmente realiza pesquisa de pós-doutorado junto ao Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Unesp. Pesquisadora vinculada ao Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) e ao Grupo de Elaboração de Cenários e Estudos de Futuro (GECEF).
