O POLOCENTRO e a geopolítica do desenvolvimento: integração internacional, dependência e impactos socioambientais no cerrado brasileiro
Alan Gabriel Camargo e Eduardo de Freitas Torres
Resumo: O POLOCENTRO, criado em 1975 com financiamento do Banco Mundial e cooperação técnica internacional (EUA e Japão), integrou o Cerrado ao mercado global de commodities. O programa reforçou a geopolítica alimentar, mas aprofundou a dependência brasileira de interesses externos e acentuou impactos socioambientais.
O Programa de Desenvolvimento dos Cerrados (POLOCENTRO), instituído em 1975 durante o regime militar brasileiro (1964–1985), exemplifica as estratégias geopolíticas adotadas pelo Estado no contexto da Guerra Fria. Alinhado à doutrina de “Segurança Nacional”, o governo buscava afirmar a soberania sobre regiões consideradas estratégicas, como o Cerrado, promovendo sua integração ao projeto desenvolvimentista nacional e buscando neutralizar vulnerabilidades geopolíticas frente a pressões externas. Esse movimento refletia o esforço do Brasil em adaptar sua política territorial a um cenário global marcado pela bipolaridade entre EUA e URSS.
Inserido na lógica de modernização conservadora promovida pelo regime, o POLOCENTRO articulava industrialização, expansão da fronteira agrícola e captação de capital estrangeiro. Tais elementos se intensificaram durante o “milagre econômico” (1968–1973), que contou com financiamentos internacionais. O Cerrado passou, então, a ser reinterpretado como um “espaço vazio”, com potencial para ser convertido em ativo econômico, capaz de impulsionar a balança comercial por meio de exportações agrícolas.
O programa contou com financiamento do Banco Mundial e assistência técnica da EMBRAPA, representando a colaboração entre agentes nacionais e organismos internacionais na reconfiguração territorial do país. Essa cooperação técnico-financeira viabilizou a transferência de pacotes tecnológicos, como os métodos de correção de solos, o que consolidou o Cerrado como zona estratégica para produção de commodities e sua inserção nas cadeias globais de abastecimento. No entanto, essa integração se deu sob fortes assimetrias, subordinando o desenvolvimento regional aos interesses de credores internacionais e à lógica do agroexportador.
Assim, o POLOCENTRO foi mais que um projeto de modernização agrícola doméstica: tratou-se de uma peça fundamental de uma estratégia geopolítica que articulava segurança nacional, inserção internacional e alinhamento às exigências do capitalismo global durante o século XX.
Financiamento Externo e Geopolítica Alimentar
A internacionalização do POLOCENTRO ocorreu, principalmente, por meio de duas vertentes: o financiamento externo e o papel geopolítico da produção alimentar.
Segundo Mariana Martins Santos e Cândido Alberto (2017), o programa contou com vultosos recursos do Banco Mundial, e embora os valores exatos não sejam especificados, Mauro Oliveira Pires (2000) indica que os investimentos totais atingiram cerca de US$ 860 milhões entre 1975 e 1980, aplicados em setores como crédito rural, logística e armazenamento. Na década de 1970, o Banco Mundial, sob a presidência de Robert McNamara (1968–1981), passou a incentivar o desenvolvimento agrícola nos países do Sul Global, com o objetivo declarado de combater a fome e aumentar a produtividade rural. Porém, na prática, essa política privilegiou a produção agroexportadora destinada aos países industrializados do Norte Global, perpetuando a dependência estrutural, pois utilizava tecnologias, empresas e modelos do Norte, além de priorizar monoculturas para exportação em vez do abastecimento interno.
Sob a ótica da teoria da dependência (Cardoso & Faletto, 1979), a atuação de organismos multilaterais como o Banco Mundial configurava-se como uma forma de desenvolvimento subordinado, atendendo prioritariamente aos interesses do Norte Global. O Brasil foi percebido como um laboratório ideal para a política de modernização agropecuária defendida por esses organismos, cujo objetivo era garantir o suprimento contínuo e barato de commodities.
Além disso, a decisão de investir no POLOCENTRO respondia à crise alimentar da década de 1970. Conforme aponta a FAO (1974), o aumento dos preços dos grãos incentivou os investimentos estrangeiros na agricultura brasileira. O contexto dos choques do petróleo e da instabilidade no comércio internacional de alimentos elevou os preços globais, estimulando a busca por novas fronteiras agrícolas. O Cerrado, com sua vasta extensão e potencial produtivo, foi identificado como alternativa estratégica para o atendimento da crescente demanda por commodities agrícolas.
Além do aporte financeiro do Banco Mundial, o POLOCENTRO recebeu significativa cooperação técnica internacional, notadamente dos Estados Unidos e do Japão. Durante os anos 1970 e 1980, instituições como a USAID e a JICA trabalharam conjuntamente com a Embrapa no desenvolvimento de técnicas que viabilizassem a exploração produtiva do Cerrado. Um dos principais marcos dessa colaboração foi a introdução de variedades de soja adaptadas ao bioma, inovação que consolidou o Cerrado como pilar da produção agrícola nacional.
No entanto, essa cooperação técnico-científica também pode ser lida como manifestação do imperialismo ecológico (Crosby, 1986), na medida em que os pacotes tecnológicos foram transferidos sem a devida consideração aos saberes locais, beneficiando majoritariamente empresas transnacionais fornecedoras de insumos.
A modernização agrícola impulsionada pelo POLOCENTRO produziu uma expressiva elevação da produtividade. Segundo dados da CONAB (2022), a produção de grãos no Cerrado cresceu a uma taxa de 6,4% ao ano entre 1975 e 1985. Enquanto em 1980 apenas 5% da produção nacional de soja era originária do Cerrado, esse percentual saltou para 52% em 2005 e 61% em 2021, conforme o IBGE (2022). Tendência semelhante foi observada na produção de milho e algodão, consolidando a região como a principal fronteira agrícola do país.
A transformação do Cerrado em polo agropecuário contribuiu para a inserção internacional do Brasil como um dos principais fornecedores de alimentos, reforçando sua influência nas dinâmicas do comércio global de commodities. Porém, tal processo também acentuou a dependência do país em relação ao modelo agroexportador, promovendo a especialização produtiva e subordinando a política agrícola nacional às demandas do mercado internacional.
Concentração Fundiária e Exclusão Social
Todavia, os benefícios do POLOCENTRO não foram distribuídos equitativamente. O acesso ao crédito subsidiado e aos incentivos fiscais foram predominantemente garantidos a médios e grandes produtores rurais, além de investidores urbanos, deixando à margem pequenos agricultores e comunidades tradicionais. Como resultado, o programa reforçou o padrão histórico de concentração fundiária.
Segundo o Censo Agropecuário de 1985, entre 1970 e 1985, a área ocupada por grandes propriedades (acima de 1.000 hectares) no Cerrado saltou de 22 milhões para 41 milhões de hectares. Por outro lado, pequenas propriedades foram marginalizadas e deslocadas para áreas de menor viabilidade produtiva (IBGE, 1985). Dados do INCRA (1985) revelam que, em algumas regiões do Cerrado, até 70% das terras adquiridas durante a vigência do POLOCENTRO foram apropriadas por latifundiários e grupos empresariais. Esse processo levou ao deslocamento de diversas famílias, pressionadas pela valorização fundiária e pelo avanço de grandes empreendimentos agrícolas sobre áreas anteriormente utilizadas para agricultura de subsistência e extrativismo.
Especulação Fundiária e Financeirização da Terra
A valorização abrupta das terras no Cerrado também impulsionou um ciclo de especulação fundiária. Segundo relatório do Banco Mundial (1991), entre 1975 e 1985, o preço médio da terra aumentou mais de 300%, favorecendo práticas especulativas. Tornou-se comum que grandes proprietários adquirissem extensas áreas apenas para revendê-las posteriormente, apostando na valorização sem desenvolver atividades produtivas.
Esse processo foi agravado nas décadas seguintes com a financeirização da terra. Relatórios do Observatório da Terra (2020) e da Chain Reaction Research (2023) indicam que 45% do desmatamento recente no Cerrado está vinculado à produção de commodities financiadas por bancos europeus. Fundos como o TIAA (EUA) e empresas como a COFCO (China) controlam milhões de hectares no Matopiba (Ruralistas, 2022), reproduzindo uma lógica de land grabbing similar à instaurada pelo POLOCENTRO. Esse modelo aprofundou o domínio de grandes conglomerados sobre o território, em detrimento da autonomia dos pequenos produtores.
Considerações Finais: Um Modelo Excludente e Ambientalmente Insustentável
A financeirização da terra transformou o acesso fundiário em ativo financeiro, priorizando o valor especulativo da terra sobre seu uso produtivo e sua função social. Essa lógica de acumulação acentuou a concentração fundiária, reforçou desigualdades e comprometeu o desenvolvimento sustentável da região.
Em síntese, embora o POLOCENTRO tenha sido fundamental para modernizar a agricultura e inserir o Brasil nas cadeias globais de commodities, seu legado revela um modelo de desenvolvimento excludente e ambientalmente insustentável. O programa, financiado por instituições como o Banco Mundial e apoiado por agências técnicas como USAID e JICA, consolidou uma lógica subordinada às exigências do Norte Global por commodities baratas, relegando a sustentabilidade e a justiça social ao segundo plano.
A financeirização das terras, intensificada a partir do POLOCENTRO, cristalizou um padrão de acumulação baseado no latifúndio corporativo. A apropriação de terras por conglomerados estrangeiros como ativos especulativos agravou a marginalização de comunidades locais e comprometeu a soberania territorial e alimentar.
A expansão das monoculturas no Cerrado ocorreu sem a devida contrapartida em políticas ambientais. A degradação do bioma e a exposição do Brasil às flutuações dos mercados internacionais resultaram num modelo vulnerável e dependente. Esse paradoxo está no centro dos debates contemporâneos: enquanto o país promove uma imagem de “agronegócio sustentável” em fóruns internacionais como a COP28, ignora a permanência dos conflitos fundiários no Cerrado e a ação predatória de atores transnacionais que controlam parcelas significativas do território (COP28, 2023; CPI-Cerrado, 2023).
Como propõe Jason W. Moore (2015), a ecologia-mundo capitalista ajuda a compreender como o Cerrado foi convertido em um nó periférico nas cadeias globais de acumulação. A transformação da região em fronteira agroexportadora fortaleceu a posição internacional do Brasil, mas à custa da reprodução de assimetrias históricas e da manutenção de um modelo que privilegia o capital estrangeiro, em detrimento da justiça socioambiental.
Referências
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Alan Gabriel Camargo: Internacionalista de formação com mestrado na mesma área, doutorando em Ciência Política e pós-graduado em Relações Institucionais e Governamentais. Dedica-se à área de Política Comparada, com ênfase nos processos de democratização, crises e golpes na América Latina. Assume membresia junto à Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e é servidor público federal junto ao Ministério da Educação (MEC), onde atua como assessor internacional junto à Assessoria para Assuntos Internacionais do Gabinete do Ministro de Estado da Educação.
Eduardo de Freitas Torres: Bacharel em Relações Internacionais e graduando em Engenharia Florestal. Dedica-se ao estudo da geopolítica ambiental, com ênfase em modelos de exploração de recursos naturais, relações de poder e cooperação na agenda ambiental internacional, compromissos climáticos globais e os desafios entre independência, desenvolvimento e sustentabilidade na política externa brasileira.
