O Governo Trump e o futuro da Groenlândia
Niels Soendergaard
Resumo: As recentes afirmações do Presidente Donald Trump sobre a sua intenção de adquirir a Groenlândia têm gerado fricção na relação com o seu aliado histórico, Dinamarca. Este conflito, não obstante, se insere em uma série de profundas transformações mundiais que abalam a ordem global.
Antes mesmo de iniciar seu segundo mandato, o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, agitou as águas ao reivindicar de forma direta a Ilha da Groenlândia. Em uma coletiva de imprensa em seu resort na Flórida, Mar-a-Lago, no dia 7 de janeiro, ameaçou a Dinamarca, da qual a Groenlândia faz parte, com tarifas e potencialmente o uso de força militar.
Não é a primeira vez que o presidente Trump demonstra interesse pela maior ilha do mundo. Em 2019, sugeriu a ideia de comprar a Groenlândia, mas esta foi rapidamente rejeitada como “absurdo” pela primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen. Trump não levou essa resposta de forma leve e, nos meses seguintes, diplomatas dinamarqueses tiveram que trabalhar horas extras para reparar as relações bilaterais.
A insistência atual do presidente Trump deixa pouca dúvida de que ele fala sério sobre esse projeto expansionista. A mensagem também não passou despercebida na Dinamarca. A retórica escalatória da Casa Branca produziu a maior crise de política externa dinamarquesa em muitos anos. Além disso, embora a ideia remonte ao início de 2024, a mudança no brasão real dinamarquês para destacar claramente o urso polar groenlandês feita pelo rei Frederik foi amplamente interpretada como uma forma de ressaltar a conexão histórica entre Dinamarca e Groenlândia (Sunnqvist, 2025).
Os contatos entre a Dinamarca e a Groenlândia remontam há mais de 1000 anos. No século X, os vikings se estabeleceram na ilha, onde assentamentos escandinavos permaneceram até o século XV. A presença nórdica foi retomada no início do século XVIII e, desde então, a colonização dinamarquesa ganhou força ao longo dos séculos XIX e XX.
Ao longo desse período, Washington muitas vezes voltou seus olhos para a Groenlândia. Várias propostas para comprar a Groenlândia da Dinamarca foram feitas durante os séculos XIX e XX. Após a ocupação alemã da Dinamarca em 1940, o então embaixador dinamarquês nos EUA, Henrik Kauffmann, rompeu com seu governo e conseguiu persuadir os EUA de que, de acordo com a Doutrina Monroe, a posição geográfica da Groenlândia como parte do continente norte-americano deveria obrigá-los a assumir sua defesa para evitar a interferência alemã. As grandes reservas de criolita, um componente crítico na produção de alumínio, no leste da Groenlândia também pesaram na decisão dos EUA de prosseguir com a ocupação temporária até 1945.
Embora não tenha sido tão brutal quanto a colonização europeia em outras partes do mundo, o domínio dinamarquês deixou cicatrizes profundas na Groenlândia. Ainda que a colonização formal tenha terminado em 1953 e maior autonomia e autogoverno tenham sido concedidos respectivamente em 1979 e 2009, sentimentos de paternalismo e discriminação permanecem generalizados na Groenlândia. Esses sentimentos foram acentuados pela revelação de escândalos de décadas atrás. Um experimento social conduzido pelas autoridades dinamarquesas na década de 1950 levou ao sequestro de crianças groenlandesas, retirando-as de suas famílias, para que fossem adotadas na Dinamarca. Outro escândalo, desta vez com o objetivo de reduzir o crescimento populacional na ilha, envolveu a inserção forçada de dispositivos intrauterinos em jovens mulheres groenlandesas nas décadas de 1960 e 1970.
Hoje, muitos dinamarqueses ainda sentem um profundo apego histórico e emocional pela Groenlândia — embora poucos tenham realmente pisado na ilha. As declarações bombásticas de Donald Trump, portanto, atingiram um ponto sensível na psique coletiva dinamarquesa, no qual a Groenlândia é tão dinamarquesa quanto a floresta amazônica é brasileira.
No entanto, muitos dinamarqueses também se sentem traídos pelo fato de que a ameaça mais substancial à sua integridade territorial tenha vindo dos EUA. Isso se deve ao caráter profundamente enraizado do atlantismo na orientação da política externa dinamarquesa. A Dinamarca tem estado lado a lado com os EUA, participando até mesmo de aventuras militares equivocadas no Afeganistão, Iraque e Líbia. Proporcionalmente ao número de habitantes, a Dinamarca foi o único país que sofreu perdas maiores do que os EUA no Afeganistão. Apesar de seu pequeno tamanho, a Dinamarca está entre os maiores doadores de ajuda e equipamentos para a Ucrânia em termos absolutos, somando mais de US$ 8 bilhões. Portanto, a visão de mundo que, desde 1945, sustentou a orientação da política externa dinamarquesa foi abalada no curso de algumas semanas no início de 2025.
No contexto global atual, a importância estratégica da Groenlândia cresceu substancialmente, o que se deve aos grandes depósitos de minerais críticos e petróleo na ilha, já que o Oceano Ártico se torna livre de gelo no verão (Rosa et al. 2023). No entanto, por trás da declaração de Donald Trump também há um desejo anacrônico de expansão territorial, com referência explícita ao presidente dos EUA do final do século XIX, William McKinley. O fato de os Estados Unidos já terem uma base aérea no Thule, no norte da Groenlândia, e de o governo dinamarquês estar aberto a novos projetos tanto no campo militar e de infraestrutura quanto no de minerais críticos não importa tanto nesse contexto. A cor no mapa é o que conta para o presidente Trump.
Isso criou uma situação impossível para o governo dinamarquês: por um lado, ele é obrigado a afirmar sua soberania sobre todo o território, mas, por outro, hesita em antagonizar com os EUA, em razão de sua profunda dependência de segurança. Essa dependência se tornou ainda mais acentuada com a guerra na Ucrânia. Consequentemente, as respostas iniciais da primeira-ministra Frederiksen foram marcadas pela evasão a um confronto direto com Trump. No entanto, à medida que a importância do problema cresceu e Washington se tornou cada vez mais vocal, “ficar abaixo do radar” não é mais uma opção para Copenhague.
O mesmo dilema existe para os aliados europeus da Dinamarca. Por um lado, eles não querem piorar uma relação já difícil com o governo Trump, mas, por outro, seu compromisso retórico com a chamada “ordem baseada em regras” os obriga a reagir. O presidente francês Macron e o chanceler alemão Scholtz fizeram sinais de apoio, enquanto o primeiro-ministro britânico Starmer e a presidente da Comissão Europeia, Von der Leyen, e sua chefe de política externa, Kallas, permaneceram mudos — uma postura que contrasta com seu apoio vocal à soberania ucraniana.
O caso também agitou as emoções na Groenlândia, onde existe um forte movimento de independência. Até agora, as perspectivas de a Dinamarca cortar seus subsídios anuais de cerca de US$ 500 milhões têm impedido a independência. A grande riqueza de petróleo e minerais da ilha poderia mudar esse quadro, mas também existem fortes preocupações ambientais. Isso ficou evidente nas eleições de 2021 na Groenlândia: o partido de esquerda Inuit Ataqatigiit garantiu 37% dos votos ao se opor a um grande projeto de mineração no sudoeste da Groenlândia, o Kvanefjeld.
Uma pesquisa recente mostra que 85% da população groenlandesa rejeita se tornar parte dos Estados Unidos (Tidemann & Fallentin, 2025). Além disso, é difícil imaginar uma renúncia ao acesso gratuito e universal a um sistema de saúde e educação de classe mundial como parte da Dinamarca em favor de qualquer alternativa oferecida pelos EUA. Vozes paternalistas tanto nos Estados Unidos quanto na Dinamarca também apontam para casos de corrupção ao rejeitar a hipótese de que a Groenlândia poderia realisticamente gerenciar sua vasta riqueza mineral por conta própria. No entanto, os groenlandeses precisam apenas olhar para a Noruega para encontrar uma solução de como os lucros excedentes podem ser responsavelmente gerenciados dentro de um fundo soberano estatal.
À medida que uma ordem mundial cada vez mais multipolar emerge e o gelo polar se derrete, as “antigas nações atlânticas” terão que considerar as aspirações e demandas dos groenlandeses sob uma nova luz. A forma como os inuit navegam pelas novas oportunidades diante das restrições impostas pelas rivalidades geopolíticas no início do século XXI será crucial para determinar o futuro da ilha.
Referências
Rosa, D., Kalvig, P.,Stendal, H.,Keiding, J.K. (2023) Review of the critical raw material resource potential in Greenland. MiMa rapport/GEUS. Review of critical raw material resource potential in Greenland. MiMa Rapport 2023/1
Sunnqvist, M. (2025) Danmarks nye kongevåben markerer afslutningen på en 400 år lang svensk-dansk konflikt. 30/1, 2025. Danmarks nye kongevåben markerer afslutningen på en 400 år lang svensk-dansk konflikt
Tidemann, D. & Fallentin, M.G. (2025) New poll shows overwhelming majority of Greenlanders reject Trump. Berlingske, 28/1, 2025. https://www.berlingske.dk/politik/new-poll-shows-overwhelming-majority-of-greenlanders-reject-trump
Niels Soendergaard: professor adjunto do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília.
