O “Golfo da América”: como Trump reviveu o imperialismo do XIX
José Alejandro Sebastian Barrios Díaz
Resumo: Trump revive o imperialismo do século XIX com propostas como renomear o Golfo do México para “Golfo da América” e pressionar por mudanças territoriais, refletindo práticas expansionistas e de dominação. Suas ações evocam uma continuidade do imperialismo e desafia a soberania de outros países.
Com uma campanha voltada para temas-chave como terminar guerras, fazer a paz e colocar a América em primeiro lugar, Trump reviveu o imperialismo expansionista do século XIX em uma única conferência de imprensa ao sugerir renomear o Golfo do México para “Golfo da América”. Essa proposta, sua mais recente tentativa de redesenhar o mapa do Hemisfério Ocidental, reflete uma abordagem simbólica e material de dominação territorial. Trump referiu-se repetidamente ao Canadá como o “51º Estado”, pressionou a Dinamarca a ceder a Groenlândia e insistiu que o Panamá devolvesse o controle do Canal do Panamá (Reuters, 2025).
Desde sua primeira corrida à Casa Branca em 2016, Trump entrou em conflito constante com o México sobre questões como segurança na fronteira e tarifas sobre produtos importados. Uma de suas promessas mais polêmicas foi a construção de um muro ao longo da fronteira EUA-México, com a alegação de que o México arcaria com os custos. No total, cerca de 450 milhas de muro foram construídas ou reformadas durante seu primeiro mandato, evidenciando sua visão de controle sobre o espaço fronteiriço (Department of Homeland Security, 2021).
Cumpre registrar que tais atos de imposição e reivindicação territorial reacendem os temores do neocolonialismo norte-americano na América Latina e em outras regiões, evocando as dinâmicas de controle indireto e exploração econômica que marcaram o período pós-colonial. Ao exigir concessões territoriais ou econômicas — como no caso do Canal do Panamá ou da Groenlândia — e ao propor mudanças simbólicas destinadas a reafirmar sua hegemonia cultural, os Estados Unidos perpetuam uma lógica de dominação que, embora moldada por narrativas contemporâneas, mantém os fundamentos do imperialismo clássico do século XIX. Portanto, essas ações não apenas desafiam a soberania das nações envolvidas, mas também revelam a continuidade de práticas que instrumentalizam o poder econômico e político para consolidar hierarquias globais, adaptadas às condições do sistema internacional atual.
É forçoso observar que as ações e declarações de Trump, ainda que ancoradas em um contexto contemporâneo, evocam a lógica imperialista que marcou o século XIX, especialmente no que tange à reconfiguração de fronteiras e à imposição de autoridade sobre outros territórios. A tentativa de renomear o Golfo do México, a referência ao Canadá como um “51º Estado” e as pressões sobre o México e a Dinamarca ecoam a concepção de império como exercício de poder e dominação sobre espaços geográficos e culturais, legitimados por um discurso de superioridade. Esse comportamento revela a persistência das estruturas imperialistas na política internacional, na qual estruturas de desigualdade e subordinação são não apenas preservadas, mas também ajustadas às novas dinâmicas globais, corroborando as análises clássicas que veem o imperialismo como um instrumento fundamental na organização e reconfiguração das relações internacionais.
Cabe referir que, no contexto europeu do século XIX, o conceito de império era amplamente associado a ideias positivas. Na Inglaterra, por exemplo, predominava a visão de que o imperialismo promovia integração econômica e interdependência global, sendo considerado um elemento essencial para a manutenção da ordem internacional. Essa concepção estava vinculada a noções de poder, progresso e à missão civilizadora, alicerçada na crença de uma superioridade cultural e moral atribuída aos europeus em relação aos outros povos (Barrios Díaz, 2024).
O clássico de Hobson (2012) descreve o imperialismo como uma das forças mais transformadoras da política ocidental, sendo amplamente adotado por diversos Estados europeus. Exemplos emblemáticos, como o Reino Unido e a França, evidenciam uma clara distinção — tanto geográfica quanto simbólica — entre as metrópoles e suas colônias, sobre as quais exerciam dominação. A própria etimologia do termo “império”, derivado do latim imperium, remete à ideia de “autoridade legítima” ou “dominação”.
Desde uma perspectiva africana, Nkrumah (1966) desenvolveu o conceito de “neocolonialismo” para descrever a continuidade das relações de exploração colonial mesmo após as independências. Para ele, as potências imperialistas continuaram a depender das matérias-primas e da mão de obra barata das antigas colônias para sustentar suas indústrias capitalistas. O neocolonialismo foi especialmente relevante a partir das primeiras independências africanas para entender como o fim das administrações coloniais/imperiais não encerram as relações de poder entre centros/metrópoles e suas periferias/colônias.
Pagden (1995), por sua vez, identifica três interpretações principais para o conceito de império ao longo dos últimos dois milênios. A primeira está relacionada à autoridade soberana, com raízes no Império Romano. O segundo significado refere-se ao exercício de um poder não subordinado dentro de uma comunidade, exemplificado pelo Japão da era Meiji, onde o monarca se autodenominou imperador para igualar-se simbolicamente às potências europeias. A terceira acepção, mais contemporânea, associa-se à expansão territorial e à incorporação de múltiplas colônias em uma unidade política centralizada.
Ao analisarmos as ações de Trump sob a ótica do imperialismo, é evidente que essas estratégias não são fenômenos isolados, mas ressonâncias de práticas de poder que remontam ao século XIX e à própria formação dos impérios globais. Apesar das diferenças contextuais, a lógica subjacente permanece: a busca por hegemonia, controle territorial e exploração econômica. O imperialismo, seja em sua forma clássica ou em suas manifestações contemporâneas, continua sendo um elemento estruturante das relações internacionais, refletindo as assimetrias de poder e os desafios de soberania enfrentados por nações periféricas. Nesse sentido, as políticas de Trump não apenas revivem narrativas imperiais, mas também reforçam a necessidade de análises críticas que revelem as continuidades e rupturas na história da dominação global.
Ao concluir a conferência de imprensa, Trump sugeriu eliminar a fronteira que separa os Estados Unidos do Canadá, descrevendo-a como uma “linha artificial”. Essa declaração ressoa, de maneira inquietante, com as perspectivas de outros líderes autoritários, como Vladimir Putin, que desconsidera a soberania da Ucrânia, ou Xi Jinping, que rejeita a independência de Taiwan. Em todos os casos, a retórica de redefinição de fronteiras reforça a lógica expansionista do imperialismo do XIX.
Referências
Barrios Díaz, José Alejandro. 2024. “Vestígios do Império: o internacional e o colonial no mundo westfaliano.” Revista de Relações Internacionais 83: 107–123.
Department of Homeland Security. 2021. “Statement from Acting Secretary Wolf on Completion of 450 Miles of Border New Wall System.” 5 de janeiro. Acesso em 14 de janeiro de 2025. https://www.dhs.gov/archive/news/2021/01/05/statement-acting-secretary-wolf-completion-450-miles-border-new-wall-system.
Hobson, John M. 2012. The Eurocentric Conception of World Politics. Cambridge: Cambridge University Press.
Nkrumah, Kwame. 1966. Neo-Colonialism: The Last Stage of Imperialism. Nova Iorque: International Publishers.
Pagden, Anthony. 1995. Lords of All the World: Ideologies of Empire in Spain, Britain and France, 1500–1800. New Haven: Yale University Press.
Reuters. 2025. “What Trump Said About Canada, Mexico, NATO and Gaza Hostages at News Conference.” Acesso em 14 de janeiro de 2025. https://www.reuters.com/world/us/what-trump-said-about-canada-mexico-nato-gaza-hostages-news-conference-2025-01-07/.
José Alejandro Sebastian Barrios Díaz: Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.
