Resumo: Mais do que fenômenos eleitorais isolados, Milei e Bolsonaro expressam uma crise mais ampla de legitimidade do liberalismo. A partir de dados do LAPOP, o artigo examina como frustração econômica, desgaste institucional e polarização ajudam a compreender a ascensão das novas direitas na América Latina.
Uma promessa que deixou de ser crível
Para Immanuel Wallerstein (1994, 2011), todo sistema social histórico não se sustenta apenas por suas estruturas econômica e política, mas também por uma geocultura, isto é, um conjunto historicamente constituído de ideias, valores e normas que confere legitimidade às instituições e às práticas que organizam seu funcionamento. No sistema-mundo moderno, essa função passou a ser desempenhada, sobretudo após 1848, pelo liberalismo centrista, que se consolidou como ideologia dominante na geocultura moderna ao articular a normalidade do progresso à defesa de uma transformação gradual e racionalmente administrada da ordem social. O liberalismo operou, assim, simultaneamente como linguagem de transformação e como mecanismo de contenção, visto que prometia inclusão futura justamente para adiar a pressão por inclusão presente.
Essa promessa, contudo, depende de condições materiais para permanecer viável. Com base na leitura de Arrighi (2008), a hipótese de uma crise hegemônica, marcada pelo declínio relativo dos Estados Unidos e pela emergência de novos polos de poder, aponta para o enfraquecimento das formas históricas de legitimação da ordem liberal. Mobilidade social, estabilidade econômica e progresso contínuo tornam-se metas progressivamente menos sustentáveis, sobretudo nas zonas semiperiféricas do sistema (Arrighi e Drangel 1997), onde momentos de dinamismo alternam-se com vulnerabilidade externa e limitação da capacidade estatal.
Já no plano político interno das sociedades nacionais, esse esgotamento encontra um terreno que já era frágil. Dahl ([1972] 2012) advertia que a democracia realmente existente não coincide com o ideal democrático, configurando-se antes como um conjunto de arranjos imperfeitos, as poliarquias, que garantem níveis variáveis de inclusão e contestação. Na América Latina, onde desconfiança institucional, heranças autoritárias e desigualdade profunda se acumulam (Rojas 2016), essa distância entre ideal e real configura um traço estrutural em que o regime democrático é legitimado no plano normativo, mas contestado na prática.
A retomada conservadora em diversos países latino-americanos, aqui examinada a partir dos casos da Argentina e do Brasil, situa-se no período analisado, entre 2006 e 2023. Não se trata de uma rejeição explícita à democracia, mas da exploração política de sua fratura interna, e é essa ambiguidade que caracteriza o repertório híbrido da nova direita radical, capaz de combinar liberalismo econômico, moralismo religioso e antagonismo cultural sob uma retórica anti-establishment (Rovira Kaltwasser 2023). Resta verificar se as percepções dos cidadãos, ao longo de quase duas décadas, acompanham essa leitura.
O que dizem os dados
Visando identificar esse movimento, foram levadas em consideração pesquisas de opinião pública do Latin American Public Opinion Project (LAPOP, s.d.) realizadas na Argentina (2008-2023) e no Brasil (2006-2023), com amostras probabilísticas de representatividade nacional. O tratamento descritivo dos dados, resumidos no Quadro 1, buscou identificar padrões de associação entre percepções socioeconômicas, legitimidade institucional e reconfiguração ideológica.
Como primeira tendência identificada, a agenda pública migrou para a economia. Perguntados sobre o problema mais grave do país, os argentinos dividiam-se, entre 2008 e 2014, entre segurança e ordem pública (mediana de 34,1%) e economia (29,8%). A partir de 2017, a economia passou a dominar de forma quase absoluta, com mediana de 56,9% e picos próximos a 70% em 2023, enquanto a pauta da segurança recuou para 11,3%. No Brasil, o quadro se mostrou mais fragmentado: até 2014 predominavam segurança (30,0%) e cidadania (22,4%), rubrica que reúne saúde, educação e habitação; entre 2017 e 2023, a economia assumiu a centralidade (31,2%), mas dividiu espaço com política e instituições (15,3%). Desagregando, o desemprego liderou as menções brasileiras (15,9%), seguido de economia (12,6%) e corrupção (11,3%). Assim, no contexto da guinada à direita, na Argentina, a inflação funcionou como símbolo unificador da incapacidade estatal; no Brasil, salientou-se uma sobreposição de insatisfações materiais e morais.
Os dados também revelam um paradoxo democrático. A adesão à democracia como regime preferível permaneceu majoritária nos dois países, ainda que com desgaste após 2017, mas essa preferência conviveu com a crítica ao modo como o regime funciona e, no limite, com a admissão de sua suspensão. Mais de três quartos dos brasileiros declararam-se insatisfeitos com o funcionamento da democracia em 2017, e a Argentina manteve níveis elevados de insatisfação a partir de 2014. O dado mais inquietante veio da pergunta sobre a aceitabilidade de um golpe militar diante de muita corrupção: entre 20% e pouco mais de 30% dos argentinos consideraram a hipótese aceitável ao longo do período e, no Brasil, o percentual chegou a 47,6% em 2014, recuando para 27,9% em 2023. O paradoxo é, portanto, duplo, uma vez que a mesma população que afirmou preferir a democracia declarou-se insatisfeita com sua prática e, em parcela expressiva, admitiria interrompê-la quando ela falhasse em conter a corrupção.
O campo ideológico em ambos os países também mostrou indícios de reconfiguração, com esvaziamento do centro e crescimento das posições extremas, ainda que de modo distinto em cada país. Na Argentina, a polarização resultou justamente da retração do centro, com as identificações com a direita mantendo-se estáveis. No Brasil, a direita tornou-se em 2023 a posição mais mencionada, resultado que persiste mesmo após a derrota eleitoral de Bolsonaro, indicando que a reconfiguração do ciclo 2014–2022 não se dissipou com a alternância de poder, mas se sedimentou como novo eixo de disputa política. Esse deslocamento articula-se à expansão do segmento evangélico, que oscilou entre 17% e 22% da população brasileira ao longo do período, com pico em 2017-2019, apoiado em uma capilaridade organizativa, com igrejas, emissoras e bancadas parlamentares, que funciona como infraestrutura material de difusão dos ideais conservadores (Luna 2023). Na Argentina, a religiosidade organizada é bem menor, mas a convergência entre setores católicos e evangélicos contra a lei do aborto e as políticas de identidade, por exemplo, mobilizou repertórios equivalentes (Stefanoni 2025).
Quadro 1 – Síntese comparativa das principais tendências observadas na Argentina e no Brasil (2006–2023)

O que a evidência permite afirmar
De fato, o que esses indicadores desenham não é uma sociedade que abandonou a democracia, mas uma sociedade que deixou de acreditar que a democracia realmente existente cumpre o que promete. A adesão normativa ao regime permanece enquanto o que se deteriora é a confiança em sua capacidade de responder a demandas materiais e simbólicas. Trata-se menos de rejeição do que de ceticismo ativo, e é precisamente essa fratura entre princípio e prática que os discursos conservadores contemporâneos exploram, oferecendo narrativas de correção e restauração que preservam a fachada democrática enquanto tensionam seus fundamentos.
As duas trajetórias analisadas, porém, não são idênticas. Na Argentina, a supremacia da pauta econômica e a baixa religiosidade organizada desenharam um conservadorismo de traços predominantemente libertários e monetários, no qual o elemento cultural opera como reação pontual a agendas progressistas. Desse modo, a proposta de dolarização e a política da motosserra respondem, em termos performativos, a uma demanda social explicitamente econômica (Adamovsky 2024; Semán 2023). No Brasil, a fragmentação das preocupações somada à alta religiosidade evangélica e ao peso do antipetismo produziu um conservadorismo sincrético, em que agenda pró-mercado, retórica anticorrupção, apelo securitário e moralismo cristão operam em conjunto para articular bases sociais heterogêneas.
Nos dois casos, o apoio às denominadas “novas direitas” aparece menos como adesão plena a uma agenda cultural conservadora e mais como demanda por ruptura diante de crises que atravessam a vida cotidiana (Semán e Welschinger 2023).
Uma crise do sistema, não um ciclo eleitoral
Tanto Milei quanto Bolsonaro parecem personificar a erosão simultânea das bases materiais e simbólicas que sustentavam a promessa liberal. Nesse contexto, à medida que a geocultura que organizava o horizonte político perde credibilidade, abre-se espaço para projetos que prometem ordem, moralização e reestruturação.
A condição semiperiférica da Argentina e do Brasil oferece um ângulo privilegiado para observar esse processo. É na semiperiferia que os efeitos de crises estruturais se manifestam com maior nitidez, porque nela os constrangimentos histórico-mundiais se combinam com instituições frágeis (Wallerstein 1994, 2011; Arrighi 2008). O que se observa, portanto, não decorre apenas de uma singularidade latino-americana. Ambos os casos compõem formas específicas de manifestação da crise que acompanha a desestabilização do liberalismo como ideologia estruturante da geocultura do moderno sistema-mundo.
Se a força das novas direitas está relacionada, ao menos em parte, ao descompasso entre o que o liberalismo promete e aquilo que suas instituições conseguem efetivamente entregar, disputar a democracia exige mais do que vencer eleições. Exige reconstruir, na prática, a capacidade dessas instituições de produzir resultados compatíveis com as expectativas que sustentam sua legitimidade, algo que dificilmente pode ser realizado no interior de um único ciclo eleitoral. A pergunta que fica para os próximos anos é se as democracias da região conseguirão reconstruir essa credibilidade antes que a fratura entre princípio e prática se torne permanente.
Referências
Adamovsky, Ezequiel. 2024. Del antiperonismo al individualismo autoritario: ensayos e intervenciones (2015–2023). San Martín: Unsam Edita.
Arrighi, Giovanni. 2008. Adam Smith em Pequim. São Paulo: Boitempo.
Arrighi, Giovanni, e Jessica Drangel. 1997. “A estratificação da economia mundial: considerações sobre a zona semiperiférica.” Em A ilusão do desenvolvimento, de Giovanni Arrighi. Petrópolis: Vozes.
Dahl, Robert A. (1972) 2012. Poliarquia: participação e oposição. Traduzido por Celso Mauro Paciornik. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.
LAPOP (Latin American Public Opinion Project). s.d. AmericasBarometer. Nashville: Center for Global Democracy, Vanderbilt University. http://datasets.americasbarometer.org/database/index.php.
Luna, Naara. 2023. “Conservadorismo na política no governo Bolsonaro: novas articulações, valores religiosos e pauta de costumes.” Cultura y Religión 17: 1–22. https://doi.org/10.4067/s0718-47272023000100206.
Rojas, Mauricio. 2016. “The Fragility of Democracy in Latin America.” Trabalho apresentado no Estoril Political Forum 2016 – Democracy and Its Enemies: New Threats, New Possibilities, Estoril. https://iep.lisboa.ucp.pt/asset/4716/file.
Rovira Kaltwasser, Cristóbal. 2023. La ultraderecha en América Latina: definiciones y explicaciones. Santiago: Friedrich Ebert Stiftung. https://library.fes.de/pdf-files/bueros/chile/20670.pdf.
Semán, Pablo. 2023. Está entre nosotros: ¿de dónde sale y hasta dónde puede llegar la extrema derecha que no vimos venir? Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores.
Semán, Pablo, e Nicolás Welschinger. 2023. “Juventudes mejoristas y el mileísmo de masas: por qué el libertarismo las convoca y ellas responden.” Em Está entre nosotros: ¿de dónde sale y hasta dónde puede llegar la extrema derecha que no vimos venir?, coordenado por Pablo Semán. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores.
Stefanoni, Pablo. 2025. “¿Una contrarrevolución cultural en América Latina?” El País, 22 de julho. https://elpais.com/america/iberoamerica-democracia/2025-07-22/una-contrarrevolucion-cultural-en-america-latina.html.
Wallerstein, Immanuel. 1994. “As agonias do liberalismo.” Lua Nova: Revista de Cultura e Política, no. 34, 117–34. https://doi.org/10.1590/S0102-64451994000300008.
Wallerstein, Immanuel. 2011. Centrist Liberalism Triumphant, 1789–1914 (The Modern World-System, Vol. IV). Berkeley: University of California Press.
Sobre os autores
Fábio Pádua dos Santos: Doutor em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp e Professor do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da UFSC.
E-mail: fpadua@gmail.com.
Valentina Gallio Muraro: Internacionalista pela UFSC.
E-mail: valengalliomuraro@gmail.com.

