O dia das Nações Unidas para a Cooperação Sul-Sul
José Alejandro Sebastian Barrios Díaz
Resumo: o dia das Nações Unidas para a Cooperação Sul-Sul celebra seu papel estratégico, promovendo solidariedade, desenvolvimento sustentável, paz e inclusão no Sul Global, enquanto enfrenta desafios de governança, recursos e coordenação em um mundo multipolar complexo.
No dia 12 de setembro comemora-se o dia das Nações Unidas para a cooperação Sul-Sul (CSS). Atualmente, a CSS é considerada não apenas uma alternativa, mas uma modalidade chave na arquitetura do desenvolvimento global, um instrumento único para empoderar países do Sul Global a moldar suas próprias trajetórias de desenvolvimento e contribuir significativamente para a governança global e o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030.
Nos encontramos em momento decisivo da história da cooperação para o desenvolvimento. Este ano marca os 60 anos da fundação do Grupo dos 77 (G-77), os 80 anos da Conferência Afro-Asiática de Bandung e os 80 anos da fundação da Organização das Nações Unidas, ao mesmo tempo e que vivemos transformações rápidas e profundas na ordem internacional.
O multilateralismo atravessa um período de mudanças complexas, marcado por tensões comerciais, geopolíticas, incertezas econômicas e desafios interligados que configuram uma verdadeira policrise global, ameaçando o avanço da agenda do desenvolvimento sustentável. Nesse contexto, as tradicionais estruturas da cooperação para o desenvolvimento enfrentam limites, como as decisões de países-chave, incluindo a retirada do governo dos Estados Unidos de acordos e instituições internacionais durante a segunda presidência de Donald Trump. Com isso, a credibilidade e efetividade das estruturas multilaterais foram questionadas, de maneira a exigir novas formas de engajamento, financiamento, solidariedade e governança para assegurar que a cooperação internacional permaneça como objetivo coletivo e viável para todos os países e regiões.
Trata-se também de é um tempo de oportunidades, sobretudo para o Sul Global, cuja ascensão está remodelando as dinâmicas de poder mundial, elevando a relevância e o potencial da Cooperação Sul-Sul. A Cooperação Sul-Sul se destaca como um caminho fundamental para enfrentar turbulências globais e promover alternativas de desenvolvimento. Baseada nos princípios de solidariedade, respeito à soberania nacional, benefício mútuo e aprendizado compartilhado, a Cooperação Sul-Sul tem demonstrado sua relevância concreta: países do Sul Global têm intercambiado conhecimento, tecnologia e recursos de maneiras que aceleraram progressos em áreas como redução da pobreza, saúde, educação, infraestrutura, transformação digital e ação climática.
Uma visão renovada da cooperação Sul-Sul exige uma compreensão mais profunda na promoção da paz e segurança internacional, indo além das trocas exclusivamente econômicas ou técnicas. Ao enfrentar as causas profundas de conflitos como pobreza, desigualdades, escassez de recursos e déficit de governança, a CSS pode contribuir de forma significativa para a construção de sociedades mais estáveis e justas. As interconexões entre segurança e desenvolvimento encontram expressão prática no marco da CSS que promove segurança humana em seu sentido mais amplo.
Observa-se que a CSS tem se expandido significativamente, não apenas em escopo e ações, passando desde assistência técnica para grandes projetos de infraestrutura, mas em escala e complexidade, envolvendo bilhões de dólares em recursos e múltiplos intercâmbio de saberes, tecnologias, políticas públicas, dentre outros. Essa evolução tem sido impulsionada pela entrada de novos parceiros do Sul Global, além dos BRICS, e pelo crescimento de mecanismos regionais e inter-regionais de cooperação, como os Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças, iniciativas lideradas pela ASEAN e também pelo engajamento cada vez maior de iniciativas de atores não-estatais, incluindo organizações da sociedade civil, empresas privadas investindo em projetos transfronteiriços e universidades desenvolvendo pesquisas conjuntas.
Cumpre ainda registrar, contudo, que apesar dos avanços a CSS enfrenta desafios significativos que limitam seu potencial. Os processos de coleta de dados e quantificação permanecem insuficientes, dificultando compreender a dimensão e o impacto das iniciativas mobilizadas em seu âmbito, o que torna mais complexo não apenas demonstrar seu valor e gerar aprendizado, mas defendê-la em tempo de cortes orçamentários. Falhas de coordenação e lacunas institucionais no nível nacional, regional e internacional resultam na sobreposição de esforços fragmentados. A mobilização de recursos continua restrita, tanto em termos financeiros quanto em termos de capital humano e tecnologias apropriadas. Ademais, a gestão das assimetrias de poder e a promoção da inclusão de países do Sul nas parcerias globais são essenciais para garantir que os princípios da CSS sejam respeitados. Enfrentar essas questões é essencial para consolidar a CSS como um instrumento estratégico e eficaz para o desenvolvimento.
O caminho para uma CSS mais impactante e transformadora não é livre de obstáculos, mas ao mesmo tempo está repleto de oportunidades. Em um momento em que parcerias internacionais sofrem pressões e questionamentos, a CSS renova o multilateralismo ao ampliar as vozes, experiências e perspectivas no sistema internacional. Além disso, é cada vez mais urgente compreender o lugar da Cooperação Sul-Sul em um mundo multipolar, no qual o equilíbrio de poder e a diversidade de atores exigem arranjos mais difíceis de negociar.
Nesse cenário, a cooperação Sul-Sul oferece caminhos para construir consensos, fortalecer redes de solidariedade e criar soluções coletivas frente a crises interconectadas, de forma a reforçar também sua relevância como ferramenta estratégica de política exterior.
José Alejandro Sebastian Barrios Díaz: Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.
