O debate acerca do papel dos BRICS na configuração da Nova Ordem Mundial
Guilherme Jonas Costa da Silva e Richard Rodrigues de Souza Silva

Resumo: Este artigo observa como a expansão dos BRICS em 2024 ocasionou o surgimento de narrativas que caracterizaram o grupo como uma ameaça à segurança internacional. Verifica-se a disseminação desse discurso em correlato com o aumento da percepção de insegurança no âmbito global.
O debate recente em torno da relevância dos BRICS e a aferição da capacidade do bloco em atuar conjuntamente no cenário internacional — somado a deflagração da Guerra da Ucrânia e a expansão do grupo em 2024 — começou a aventar a possibilidade de que o seu processo de inserção internacional não mais estaria vinculado aos seus princípios fundacionais. Nesse sentido, o grupo estaria expandindo a sua atuação no âmbito internacional em função de interesses escusos de alguns membros, tornando-se progressivamente mais enfático em seu posicionamento em relação ao Ocidente.
Do exposto, observa-se uma alteração dos preceitos utilizados para a interpretação dos BRICS, que acabaram por levar a uma crescente perspectiva de que o bloco possui capacidades militares conjuntas que, em última instância, podem ser colocadas à disposição de Moscou ou de Pequim em um conflito internacional. Neste sentido, passa-se a aventar a possibilidade de uma transformação dos BRICS em uma aliança que vai além da dimensão econômica.
Essa narrativa tem ganhado força e paulatinamente começa solapar a interpretação tradicional do papel dos BRICS, promovendo um acirramento do debate entre analistas e acadêmicos do sul e do norte global. A partir desse panorama, há uma crescente clivagem de interpretação sobre o bloco, com os países desenvolvidos vislumbrando o bloco como um potencial ator disruptor e beligerante no cenário internacional (Boyer, 2024; NATO, 2024). Em contraste, o sul global postula os BRICS como um grupo que se limita apenas à reestruturação pacífica do sistema internacional sem que haja a adoção de meios militares ou coercitivos para tal (Hurrel, 2009; Stuenkel, 2017). Esses elementos, apesar de controversos, expandem os vieses de interpretação desse grupo no espectro das Relações Internacionais e dos Estudos Estratégicos.
Com o crescimento da importância do bloco no cenário internacional, coloca-se em xeque a neutralidade do grupo no âmbito global, como evidenciado no debate entorno do artigo de Roger Boyer — intitulado “BRICS expansion should worry NATO” — relativo ao posicionamento dos BRICS no tocante à segurança internacional contemporânea. De acordo com Boyer (2024), “Os BRICS, na sua nova forma [BRICS+], têm uma caraterística que deveria alarmar seriamente o Ocidente. O clube já tem potencial para criar um cartel de metais estratégicos necessários para a guerra […]”. Seguindo essa linha de raciocínio, o autor também pontua posteriormente no seu artigo alguns elementos que demonstram sua perspectiva sobre os BRICS caracterizar-se como uma aliança, inclusive militar, sob a primazia de Pequim e Moscou:
[…] O cartel dos metais raros não se limita a fixar o preço de uma revolução energética. Ele também define as perspectivas de modernização das armas. A Arábia Saudita investiu numa empresa brasileira que produz esponja de titânio, um material importante para os submarinos russos que procuram mergulhar mais fundo, para os motores dos aviões e para a colocação de satélites no espaço. Quanto às ligas de platina, que fazem parte dos motores de aviões e foguetões e são muito utilizadas no revestimento magnético dos discos rígidos dos computadores, estão firmemente nas mãos da Rússia (12,8% da produção mundial) e da África do Sul (66,7%). Mesmo que não se chegue ao pesadelo de ficção científica de um exército conjunto russo-chinês, os países BRICS+ estão a preparar o caminho para uma superioridade militar decisiva (Boyer, 2024).
Essa visão pontuada por Roger Boyer, por mais caricata e simplista que possa ser, representa uma vertente de pensamento acerca dos BRICS que começa a ganhar uma relevância expressiva, principalmente na Europa e nos Estados Unidos. Essa interpretação tem ganhado espaço no debate internacional, passando a ditar a tônica de atuação de vários países ocidentais no âmbito internacional.
Nesse sentido, antes mesmo da publicação do referido artigo, torna-se marcante o pronunciamento do presidente da Finlândia, Alexander Stubb, em um evento conjunto com Jens Stoltenberg (Secretário geral da OTAN) — que seguindo a mesma linha retórica adotada por Roger Boyer — postulou a atuação internacional dos BRICS nos seguintes termos:
[…] Eu diria agora que fomos além disso é que estamos naquilo a que se poderia chamar um mundo multi-alinhado, onde temos parcerias estratégicas em todos os continentes. Algumas delas são alianças profanas como os BRICS, não há nada que mantenha esta combinação de letras unida, que tenha a ver com valores, é puro interesse e o interesse é minar o Ocidente e as instituições internacionais e a ordem atual […] (NATO, 2024).
Em suma, a partir de perspectivas convergentes em conteúdo, embora distintas na forma de expressão de diversos atores internacionais, a interpretação de que os BRICS representam ou podem se tornar uma aliança militar de escopo global se disseminou rapidamente, principalmente, por serem uma aliança geopolítica-econômica estabelecida, com capacidade de gerar um impacto profundo na ordem mundial. Por mais que essa perspectiva pareça ideológica ou infundada, devido a fragilidade estrutural e institucional dos BRICS no âmbito militar, não se pode desmerecer o debate em torno da configuração de uma nova arquitetura internacional, ou seja, de uma mudança significativa nas relações internacionais e na estrutura de poder global liderada pelo bloco.
Se o BRICS, após sua expansão em 2024, passou a possuir aproximadamente 30% do PIB global, 43% da produção internacional de petróleo e 45% da população global, isso por si só não é responsável para explicar inteiramente o aumento da percepção negativa do grupo nos países desenvolvidos (Banco Mundial, 2024; U.S Energy Information Administration, 2024). Assim, deve-se ponderar que essa alteração do entendimento internacional quanto a natureza do grupo delonga-se além da sua própria acumulação de capacidades, abarcando também a crescente sensação de insegurança dos Estados no cenário internacional (SIPRI, 2024). Com a disseminação de conflitos no âmbito global — vistos principalmente na Guerra da Ucrânia e a Guerra da Palestina — e a retomada da securitização internacional no mundo do pós Guerra Fria, cada vez mais os BRICS poderão ser caracterizados sob essa perspectiva militar pelos países desenvolvidos (SIPRI, 2024).
É notável também que essas novas interpretações sobre um “BRICS militarizado”, correlacionam diretamente com o temor de que haja — no futuro — disputas concernentes ao reordenamento do poder global (transição hegemônica) que possam a vir ocorrer entre Estados Unidos e a República Popular da China. Diante desse panorama, os BRICS passam a ser observados como um ator de fundamental importância nos eventos vindouros do cenário internacional e que caso, de facto, tenha suas capacidades militares devidamente capitalizadas por China e Rússia poderiam representar uma ameaça a hegemonia américa em espectros anteriormente não vislumbrados ao Ocidente, como no âmbito militar.
Referências
BOYES, Roger. Expanding Brics alliance should worry Nato. The Times, 2024. Disponível em: https://www.thetimes.com/comment/columnists/article/expanding-brics-alliance-should-worry-nato-pvgtd7hf6. Acesso em: 12 out. 2024.
HURREL, Andrew. Hegemonia, liberalismo e ordem global: qual é o espaço para potências emergentes?. In: HURREL, Andrew et al. Os BRICS e a ordem global. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009. p. 9–42.
SIPRI. Role of nuclear weapons grows as geopolitical relations deteriorate — new SIPRI Yearbook out now. SIPRI, 2024. Disponível em: https://www.sipri.org/media/press-release/2024/role-nuclear-weapons-grows-geopolitical-relations-deteriorate-new-sipri-yearbook-out-now. Acesso em: 14 out. 2024.
STUENKEL, Oliver. BRICS e o futuro da ordem global. Editora Paz e Terra, 2017.
THE WORLD BANK. Worldwide Governance Indicators. The World Bank, 2024. Disponível em: https://www.worldbank.org/en/publication/worldwide-governance-indicators/interactive-data-access. Acesso em: 12 out. 2024.
U.S ENERGY INFORMATION ADMINISTRATION. Petroleum and other liquids. EIA, 2024. Disponível em: https://www.eia.gov/international/data/world/petroleum-and-other-liquids/annual-petroleum-and-other-liquids-production?pd=5&p=0000000000000000000000000000000000o&u=0&f=A&v=heatmap&a=-&i=none&vo=value&vb=170&t=C&g=none&l=249-0g0002020000110000000a00000000000000000500000000002&s=1577836800000&e=1704067200000&ev=false. Acesso em: 16 out. 2024.
Sobre os Autores
Guilherme Jonas Costa da Silva: Professor Associado da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e Pesquisador de Pós-Doutorado em Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Richard Rodrigues de Souza Silva: Graduando em Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

