O Conflito Geoeconômico do Século 21
Niels Soendergaard
A invasão russa da Ucrânia desencadeou uma profunda mudança na dimensão da segurança internacional, apresentando um panorama de rivalidade acentuada, em primeiro lugar entre a OTAN e a Rússia, e, em segundo lugar, entre a ordem Ocidental e a emergente ordem Euro-Asiática, Sino-Russa.
Para além das implicações políticas, os novos contornos que aparecem no horizonte próximo também parecem abranger uma forte dimensão econômica. No dia 4 de fevereiro, na esteira da invasão russa, o presidente Vladimir Putin e o seu par chinês, Xi Jinping, assinaram uma declaração conjunta na qual anunciaram uma “nova era” nas relações internacionais. A declaração continha um forte foco em cooperação econômica dentro de uma ampla gama de setores, abrangendo cadeias produtivas, tecnologia e investimento.
Para além das suas metas concretas, a maior importância da declaração reside no seu carácter de resposta à nova situação geopolítica. Desde a suposta Fim da História com a queda do bloco Soviético, o paradigma dominante na economia global tem sido a de liberalização e abertura. Em retrospecto, a fé de que isto levaria a um caminho irreversível no sentido de uma economia fortemente integrada pode parecer quase ilusória, especialmente lembrando que, com algumas possíveis exceções, o comércio internacional historicamente sempre correu ao longo das mesmas linhas como a divisão geopolítica do mundo.
Portanto, estamos de volta à uma situação “normal”, no qual o comércio administrado e as extensas barreiras dominarão o cenário comercial internacional? Não necessariamente. Durante a guerra fria, o comércio anual entre a URSS e os EUA equivalia ao valor das presentes trocas comerciais entre a China e os EUA durante somente um dia! Isto nos indica que, apesar das já declaradas animosidades e relações de forte desconfiança, a economia global chegou a um nível de integração inédito, e dificilmente reversível. A nova situação talvez seja que esta integração não necessariamente funciona de acordo com preceitos ideológicos liberais. Ao contrário, é meramente a consequência da lógica funcional da interconexão dos sistemas produtivos em volta do mundo.
Os custos advindos do corte destes laços comerciais são evidenciados pelo rápido colapso da economia russa em função dos históricos embargos impostos pelo Ocidente. Porém, mesmo que o completo isolamento comercial não seja mais uma opção para nenhum Estado no sistema internacional, nada impede que partes dos fluxos comerciais sejam sujeitas a considerações que vão além dos interesses puramente econômicos. De fato, estamos vendo isto cada vez mais ocorrendo como parte da rivalidade entre os EUA e a China, sobretudo em setores caracterizado pela alta sofisticação tecnológica e o uso dual civil/militar. Portanto, o desafio dos políticos das próximas décadas parece ser o de balancear uma interdependência comercial incontornável com os imperativos políticos e estratégicos.
Niels Soendergaard: Possui graduação em Global Studies — Roskilde Universitet (2011), graduação em Disciplinas de Ciências Políticas, intercâmbio — Universidad de Buenos Aires (2010), mestrado em Global Studies — Lund University (2014), e doutorado em relações internacionais da Universidade de Brasília. Possui pós-doutorado em relações internacionais do mesmo instituto. Atualmente é pesquisador pleno do Insper Agro Global.
