Narcoterrorismo, hegemonia e guerra híbrida na América Latina
Vitor Stuart Gabriel de Pieri e Marcela do Nascimento Padilha
Resumo: O termo “narcoterrorismo” ultrapassa a mera descrição. Ele é uma manobra estratégica de securitização da criminalidade com profundas implicações territoriais, jurídicas e geopolíticas no Brasil e em toda a América Latina. Este artigo investiga as motivações por trás dessa narrativa e sua utilização nas realidades brasileira e latino-americana, analisando-o como um dispositivo de Guerra Híbrida nas semiperiferias globais. Argumenta-se que a confusão deliberada entre crime organizado e terrorismo atende a interesses que redefinem a violência urbana como uma ameaça à segurança (inter)nacional, fragilizando a soberania nacional e abrindo espaço para a intervenção externa.
Introdução: a securitização do crime e a crise da soberania
O léxico de “narcoterrorismo” ressurge com força no Brasil, impulsionado por declarações políticas e projetos legislativos que buscam reclassificar o crime organizado transnacional e a violência urbana intensa como ameaça terrorista. Este ressurgimento não é casual, sendo o ponto de partida para desvendar sua verdadeira natureza, uma descrição factual ou uma manobra política estratégica que reconfigura as noções de Poder, Ordem e Soberania na região.
A hipótese central é que o termo não é técnico-jurídico, mas uma forma de securitização (Buzan et al., 1998) que transforma a criminalidade de alta complexidade em uma ameaça existencial à segurança nacional. Essa manobra justifica implementação de dispositivos de exceção e o emprego de táticas militares na segurança pública e, crucialmente, cria uma lacuna legal e abertura diplomática para agendas de segurança internacional. O “narcoterrorismo” é, assim, uma tática de Guerra Híbrida, onde a operação de linguagem é usada para desestabilizar a soberania e projetar poder.
O artigo demonstrará a inadequação conceitual do termo, os interesses que ele serve e sua dimensão geopolítica como ferramenta hegemônica.
2. O desvio conceitual: narcoterrorismo e sua inadequação geográfica
A força do discurso reside na confusão intencional entre esferas distintas, a criminalidade e a subversão política.
2.1 O conflito terminológico: crime organizado vs. terrorismo
Há uma distinção fundamental ignorada pelo termo. As organizações criminosas na América Latina buscam primariamente o lucro, almejando a coexistência com o Estado para garantir o fluxo de mercados ilícitos.
A distinção crucial entre Crime Organizado e Terrorismo reside em suas motivações e objetivos. O Crime Organizado é fundamentalmente lucrativo, buscando vantagens financeiras através do controle da economia ilícita. Seu objetivo estratégico é a coexistência com o Estado ou a ocupação de seus vazios de poder, garantindo um ambiente operacional para seus negócios. Em contraste, o Terrorismo é de natureza ideológica ou política, agindo pela subversão para alcançar a destruição ou alteração radical da ordem estatal, usando a violência como meio de coerção política. Essa diferença se reflete no uso do território, onde para o Crime Organizado, o controle territorial é um meio logístico e econômico indispensável para garantir o lucro, já para o Terrorismo, o território e a violência servem primariamente para disseminar o medo e maximizar o impacto político e ideológico.
Embora a violência das facções cause terror, sua finalidade não é a derrubada ideológica do Estado, mas a maximização do lucro no vácuo de poder. Nesse sentido, o termo “narcoterrorismo” é considerado inaplicável à maioria da criminalidade organizada urbana (Schmid, 2004), arriscando a banalização do terrorismo e a subordinação da análise técnica a rótulos políticos.
2.2 A “guerra às drogas” como base para a guerra híbrida
O termo “narcoterrorismo” ganhou força na doutrina de segurança internacional dos EUA nos anos 80, durante a “Guerra às Drogas”, especialmente na Colômbia, para vincular guerrilhas (objetivo político) ao narcotráfico (objetivo criminal).
A estratégia atual aprofunda essa securitização, criando o “nexo crime-terror” ao fundir narcotráfico, migração e terrorismo (Maciel; Cheaito, 2023). O discurso é uma tática essencial na Guerra Híbrida nas semiperiferias globais. Atua como pretexto para importar a lógica do Ataque Preventivo (ampliado no Pós-11/09) para a esfera doméstica, operando no campo cognitivo para deslegitimar atores e preparar o terreno para a intervenção. Nesse sentido, nações semiperiféricas, ao adotarem esse léxico, importam uma guerra que serve primariamente aos interesses de poderes hegemônicos ocidentais.
3. Os interesses na narrativa: do caos local à agenda global
A adoção do discurso de “narcoterrorismo” é uma manobra calculada que atende a complexos interesses domésticos e internacionais.
3.1 O jogo político doméstico e a fabricação do caos
Em nível doméstico, o defesa da utilização do termo “narcoterrorismo” tem a função primordial de alterar o status quo e legitimar medidas de exceção. A justificação da exceção e militarização é alcançada ao se classificar o crime como “terrorismo”, deslocando-o para a esfera da segurança nacional. Essa manobra permite a adoção da lógica do ataque preventivo/eliminação, legitimando táticas militares em áreas urbanas, onde o “narcoterrorista” é transformado em um “inimigo” a ser abatido, um ato visto como “heroico e patriótico”. Esse processo resgata a ideia de Necropolítica (Mbembe,2018), justificando operações letais e espetaculares sob a licença do medo coletivo.
Paralelamente, a narrativa funciona como manobra eleitoral, especialmente para a extrema-direita, que fabrica e explora o caos na segurança como um ativo político para desestabilizar adversários e desviar a atenção da necessidade de políticas públicas estruturais, como reformas prisionais e investimento em inteligência.
Por fim, o termo promove o reforço do punitivismo, remodelando a ordem jurídica ao apresentar o terror e a punição como elementos indispensáveis para o suposto êxito das ações governamentais (Maciel; Cheaito, 2023).
3.2 Sustentando poderes: o discurso da guerra às drogas
O léxico do terrorismo é vital para a manutenção das estruturas de poder que se beneficiam da guerra às drogas, pois sustenta poderes locais e internacionais. Isso se concretiza ao assegurar um fluxo constante de recursos, como equipamentos e treinamento, para as forças de segurança, muitas vezes por meio de programas de cooperação militar internacional. Além disso, o discurso justifica a manutenção de uma arquitetura de segurança global que é guiada por atores hegemônicos, garantindo sua influência contínua sobre as políticas de fronteira e defesa dos países da América Latina.
3.3 O controle territorial urbano e o paralelo geopolítico
A estratégia conecta a esfera micro (controle das favelas) à macro (hegemonia global), estabelecendo um paralelo estrutural entre o controle territorial urbano e o controle geopolítico global.
O paralelo estrutural demonstra que as disputas por controle operam de maneira análoga em diferentes escalas. No Nível Micro (Urbano), que envolve Favelas e Comunidades, a lógica da disputa é baseada na desumanização, o “narcoterrorista” é definido o contrário à legislação, o que justifica a eliminação sumária sem o devido processo legal. No Nível Macro (Geopolítico), que abrange nações semiperiféricas, o mecanismo é similar, o “Estado-narco/terrorista” é classificado como uma ameaça global, justificando sanções externas e a imposição de uma “cooperação forçada”. Nos dois casos, a rotulação é usada para legitimar a perdas de garantias e a intervenção.
Ao adotar o termo, o Estado-nação projeta o medo global do terrorismo para suas comunidades, transformando-as em “territorialidades inimigas” e condicionando a política de segurança local a ser moldada por agendas externas.
4. O narcoterrorismo e a dimensão geopolítica
O discurso de “narcoterrorismo” é um catalisador para a redefinição dos limites da soberania nacional e a legitimação de agendas de segurança externas.
4.1 A ameaça à soberania
A violência do crime organizado é um desafio à soberania interna do Estado, representando uma falha na soberania substantiva, capaz de prover segurança e bem-estar. Contudo, o uso do termo “narcoterrorismo” visa fragilizar a soberania formal, transformando uma crise de segurança pública em uma ameaça internacional passível de intervenção externa. O discurso é o que transforma a ameaça urbana em uma justificativa para a intervenção. Ao importar o léxico de guerra, o Estado sinaliza que a ameaça ultrapassou sua capacidade ordinária. Isso empurra a nação para uma posição de “Suzerania” (subordinada) no sistema internacional, como definido por Krasner (1999).
4.2 Instrumento de hegemonia global e a doutrina monroe reciclada
O termo “narcoterrorismo” é uma poderosa ferramenta de projeção hegemônica, permitindo que potências como os EUA classifiquem a criminalidade regional como ameaça global e justifiquem vigilância e influência contínua. É a essência do “regresso da Doutrina Monroe”, reciclada sob o disfarce da “cooperação antiterrorismo”.
A estratégia opera por meio de pressão diplomática e financeira, através do estabelecimento do “nexo crime-terror” (Maciel; Cheaito, 2023), abrindo caminho para sanções e imposição de modelos de segurança; e pela presença militar e inteligência, como justificativa para o aumento das ações estrangeiras, operações conjuntas e alinhamento do “ator subalterno” à agenda hegemônica.
5. Conclusão: o discurso como ação política e as lições da guerra urbana
O “narcoterrorismo” é essencialmente uma ação política de securitização desprovida de rigor conceitual, operando como uma tática eficaz de Guerra Híbrida com dupla funcionalidade. No plano Doméstico, justifica a militarização e a Necropolítica, ao criar um “inimigo interno” e desviar o foco de reformas estruturais urgentes. No plano Geopolítico, serve como um instrumento de hegemonia global que, ao fragilizar a soberania nacional, facilita o “regresso de uma espécie de Doutrina Monroe” sob uma nova fachada.
O paralelo estrutural entre o controle territorial urbano e o controle geopolítico global é o principal objetivo, mostrando o uso do medo e da narrativa de ameaça existencial para justificar a suspensão de garantias e a intervenção em ambos os níveis.
A megaoperação policial no Rio de Janeiro ocorrida no dia 28/10/2025, surge como uma trágica ilustração, classificar os mortos como “narcoterroristas” é adotar a lógica da guerra, substituindo o direito pela licença para matar. Essa violência, quando rotulada, ganha ressonância com a agenda de segurança dos EUA, sinalizando alinhamento e facilitando o argumento para a “cooperação antiterrorismo” e potencial ingerência.
O principal risco é a banalização do terrorismo e a subordinação da política de segurança a um modelo militarizado e ineficaz. Para a salvaguarda da soberania, é fundamental que o Brasil e os parceiros latino-americanos rejeitem a importação acrítica de léxicos de guerra (como o “narcoterrorismo”) e reafirmem que a criminalidade é um problema de segurança pública e justiça criminal. O foco deve ser em um projeto de Estado que promova o controle efetivo do território e o combate ao crime organizado através da inteligência, descapitalização e reforma prisional, condicionando a cooperação internacional ao estrito respeito à soberania e aos direitos fundamentais.
Referências
BUZAN, Barry; WAEVER, Ole; de WILDE, Jaap. Security: A New Framework for Analysis. Boulder: Lynne Rienner Publishers, 1998.
KRASNER, Stephen D. Sovereignty: Organized Hypocrisy. Princeton: Princeton University Press, 1999.
MACIEL, Tadeu Morato; CHEAITO, Karime Ahmad Borraschi. O “nexo crime-terror” na América do Sul e a securitização do Hezbollah na Colômbia: o Projeto Cassandra (2008–2016). Conjuntura Global, Curitiba, v. 12, n. 2, p. 282–302, 2023. DOI: 10.5380/cg.v12i2.90776.
MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. Tradução de Renata Santini. São Paulo: N-1 edições, 2018.
SCHMID, Alex P. The Links between Transnational Organised Crime and Terrorist Crimes. In: Transnational Organised Crime in Europe: A review of the literature and empirical research on the infiltration of legal business in Europe. [S.l.]: European Commission, 2004.
Sobre os Autores
Vitor Stuart Gabriel de Pieri: Doutor em Geografia pela Unicamp, Professor do PPGEO e do PROFGEO/UERJ.
Marcela do Nascimento Padilha: Doutora em Geografia pela UFF, Professora do PROFGEO/UERJ.
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