Guerra da Ucrânia: soberania formal, desde que com fronteiras flexíveis
Virgílio Caixeta Arraes

Resumo: Uma vez que a Polônia, outrora russa, assegurou, ao ingressar na Organização do Tratado do Atlântico Norte, o respeito máximo às suas fronteiras, a Ucrânia pode ter decidido seguir o mesmo caminho, o que provocou a indevida invasão russa. Com a reeleição de Vladimir Putin, dificilmente o Kremlin mudará de postura na política externa.
O pleito presidencial na Rússia, no meio de março, não trouxe surpresa quanto ao seu desfecho: em seu ponto, a vitória de Vladimir Putin para período de seis anos, uma vez que não havia adversários à altura com disponibilidade de participar e de resistir à pressão oriunda do Kremlin ou do seu círculo político.
Destarte, sem espanto o alto índice obtido por sua candidatura, ao beirar os noventa por cento dos votos válidos, enquanto o segundo colocado, Nikolay Kharitonov, do Partido Comunista, mal se aproximou dos cinco por cento. Mais à direita no campo ideológico, os dois últimos postulantes situaram-se abaixo dos quatro por cento.
Portanto, o dirigente assegura para si o quinto mandato e se inscreve na história local como um dos mais longevos governantes — supera-o, ainda na era republicana, apenas Josep Stalin. Ultrapassada, sem dificuldade, a fase da concorrência ao posto máximo, assoma-se, no horizonte do neotsar, a necessidade do encerramento da disputa com a Ucrânia, em vista da imensidão da perda de vidas e da devastação material.
Depois de dois anos de combates, a confrontação russo-ucraniana aparenta incorporar-se ao cotidiano das duas sociedades, ao obriga-las a viver sob o invólucro de maior carestia e de incerteza diária quanto à sobrevivência em decorrência dos ataques, até com a vulgarização do emprego de drones, em face do custo baixo de fabricação.
Aos olhos da Rússia, a interrupção da desinteligência viria quando ela recuperasse territórios considerados seus ou protegesse seus nacionais e descendentes e aos da Ucrânia quando expulsasse de maneira definitiva os contingentes do inimigo agora figadal e recuperasse as áreas usurpadas, ao incluir até a Crimeia.
No panorama da longa duração, visualiza-se o quadro da vida das populações por muitas gerações, de modo que seria possível vislumbrar no Kremlin o descortinar de que Mariyinsky não poderia seguir o caminho trilhado e reconhecido da Polônia, isto é, ser uma nação cuja independência, ou mesmo conformação das fronteiras, já não pudesse ser questionada.
Ela dispõe de território com pouco mais de trezentos mil quilômetros quadrados; enfim, equipara-se quase à metade do da Ucrânia. Próximos do enfrentamento bilateral, os três países bálticos, russos em parte de sua história recente, somam em torno de cento e setenta mil quilômetros quadrados — o menor, a Estônia, não perfaz sequer cinquenta mil, de maneira que a hipotética absorção pela Rússia não seria difícil da perspectiva militar.
Meia década depois do ingresso sem maior sobressalto de Varsóvia na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Talim, Riga e Vilnius iriam aderir a ela em março de 2004, com o propósito de resguardo de eventual variação de temperamento da poderosa vizinha moscovita.
No século vinte, ela havia recuperado sua soberania em duas conjunturas pós disputas planetárias: o primeiro fora em 1918, graças ao conteúdo do Tratado de Versalhes, de julho de 1919, após mais de cem anos da última repartição (1795) de suas terras entre Rússia, Áustria e Alemanha, todas potências imperiais e desejosas de expansão de suas fronteiras em meio aos ventos tempestuosos da França revolucionária.
Não seria fácil para ela manter sua autonomia sem desassombro, uma vez que Varsóvia ingressaria em conflito acerbo com Moscou por mais de dois anos, ao tentar aproveitar-se da instabilidade originada pelo final da I Guerra Mundial seguida pela do andamento da revolução.
Entre setembro e outubro de 1939, ela seria fracionada de novo, ao entregar-se em primeiro lugar uma parcela à ditadura nazifascista e o restante à comunista. As duas, malgrado a divergência ideológica, estavam de prévio acordo sobre a extinção.
Com a conclusão da II Guerra Mundial, a Polônia renasceria, porém se converteria ao comunismo, dada a divisão da Europa entre os quatro maiores vencedores, e passaria a girar, por conseguinte, em torno da órbita da União Soviética, ainda sob rígida mão de Josep Stalin.
Apesar disso, o país acreditaria desfrutar da inviolabilidade do território acordado, embora sem significar desenvoltura política como ela pôde observar na invasão da Hungria em 1956 e na da Checoslováquia em 1968 e, por derradeiro, na ascensão do sindicato Solidariedade, encabeçado por Lech Walesa, entre as décadas de setenta e oitenta — nem a concessão do Prêmio Nobel da Paz em 1983 à liderança trabalhista conteria o anseio de intromissão do Kremlin.
Com o desaparecimento da rivalidade amero-soviética, Varsóvia recuperaria, enfim, sua autonomia e para o pasmo de Moscou iria juntar-se às fileiras da Organização do Tratado do Atlântico Norte como acima mencionado — com a adesão, calcificar-se-iam seus marcos lindeiros. Já lá se vão quase três quartos de século sem que Alemanha e Rússia reivindiquem de forma assertiva áreas suas sob justificativa histórica.
A independência da Ucrânia chegaria, conquanto tardia — apenas em agosto de 1991 na esteira da dissolução do agigantado, embora enfermiço, Estado soviético. Seria a oportunidade de afloramento de nacionalidades submersas havia incontáveis gerações, de sorte que rol de nações poderia recompor-se ou firmar-se pela primeira vez.
De destino diferente de Varsóvia, entrementes, a preservação territorial sob administração de Kiev não duraria sequer um quadrante, visto que em março de 2014 Moscou anexaria a península da Crimeia, ao alegar ter sido ela sua até Nikita Khrushchev, ele mesmo ucraniano, ter decidido brindar sua pátria em fevereiro de 1954.
Com a indevida investida na Ucrânia, a Rússia admoesta de modo indireto países como a Belarus, antiga Bielo-Rússia, hoje próxima politicamente como outrora havia sido a vizinha agredida. Na prática, ela endereça às nações no passado soviéticas mensagem de que a atual soberania formal não seria autonomia de fato.
Assim, caso houvesse o distanciamento de diretrizes moscovitas, como aproximar-se de maneira estreita da União Europeia ou em especial da Organização do Tratado do Atlântico Norte, o Kremlin poderia castigar um governo ao seu redor manu militari. Em agosto, Putin completará quarto de centenário à testa do poder. Se bem sucedido até lá na presente confrontação, ele terá a coroa de louros como neotsar contemporâneo.
Sobre o autor
Virgílio Caixeta Arraes: Graduado em História pela Universidade de Brasília (1994), mestre em História pela Universidade de Brasília (1998), doutor em História pela Universidade de Brasília (2005) e pós-doutor em História pela Université de Montréal (2017). Professor Associado da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de História, com ênfase em Estados Unidos: História

