Guerra da Ucrânia: sem justificativa da Rússia para perseverar
Virgílio Caixeta Arraes
Resumo: o quadro de confrontação entre Rússia e Ucrânia e a inexistência de motivos bem fundamentados por Moscou para perseverar em atacar Kiev. Com a posse de um quinto do território e com a contenção da extrema direita ucraniana, o Kremlin deveria sentar-se à mesa para negociar cessar-fogo ou trégua com Mariynsky e com demais atores interessados como a Casa Branca, por exemplo. Já é, ao governo de Putin, uma vitória de Pirro. Insistir na continuidade do conflito é corroer ainda mais a gestão.
No século vinte e um, os Estados Unidos tiveram, a par do desgaste moral, dois dissabores militares relevantes no continente asiático: no Afeganistão, ainda que secundados por parcela da Organização do Tratado do Atlântico Norte, não conseguiram eliminar de maneira definitiva a agremiação extremista, o Talibã, da estrutura de poder do devastado país; ao contrário, ela retornaria ao governo e até negociaria a saída das tropas estrangeiras;
No Iraque, embora obtida a defenestração de duradoura ditadura secular, a do Partido Baath, a invasão sem aval multilateral estimulou de modo indireto a conformação da resistência principal com base integrista, não nacionalista, na empobrecida nação. Ao fim e ao cabo, a retirada dos contingentes externos assemelhou-se à do território afegão.
Em nenhum dos dois dramáticos casos houve o firmamento da democracia neoliberal, segundo delineado por ideólogos norte-americanos na virada dos anos oitenta para os noventa, convergentes na aspiração, a despeito da agremiação partidária à qual se filiassem ou com a qual se identificassem no cotidiano.
A expectativa de Washington e a de sua órbita principal, quer estatal, quer privada, havia sido a de que o desmoronamento no poder daqueles grupos encastelados naquelas localidades desaguaria no desenvolvimento do liberalismo em sua vertente política e econômica, mesmo sem ritmo acelerado.
Aos olhos do mundo, a avaliação da movimentação da hiperpotência — expressão do chanceler Hubert Védrine (1997–2002) — naquela região teria sido assaz negativa, uma vez que ela, apesar da diferença de poderio bélico diante de seus adversários, como tecnologia de ponta e batalhões bem treinados, não teve desempenho de acordo com o aguardado pela Casa Branca antes das duas investidas.
Com os malogros evidentes, a Casa Branca parece ter descartado de fresca data invasão com o fito de defenestrar regime discordante e opta por trocar governante com o propósito de cooptar substituto ocasional, suscetível a rever de pronto o relacionamento diplomático. Venezuela foi o primeiro exemplo, ao passo que Irã ou Cuba poderiam ser o segundo.
A diminuição da escala de operação militar decorre dos mencionados fracassos em terras médio-orientais e do acompanhamento meticuloso do fiasco castrense de sua rival, a Rússia, na tentativa de absorção de parte considerável da vizinha Ucrânia.
Com quatro anos de intensa confrontação, Moscou, malgrado o controle de um quinto do território de Kiev, não consegue calcificar a conquista, a despeito da perda de inúmeras vidas e dos altíssimos custos materiais.
Com a chegada ao poder de Donald Trump em janeiro de 2025, a expectativa de Vladmir Putin tem sido a do afastamento gradativo dos Estados Unidos do conflito russo-ucraniano, de sorte que levaria a União Europeia também a adotar posicionamento semelhante, ainda que em compasso lento por ser mais afetada do ponto de vista geopolítico.
A última independência da Ucrânia havia sido assegurada em dezembro de 1991, ao aceitar a retirada progressiva do arsenal atômico de seu solo pela Rússia, sucedânea reconhecida da União Soviética, detentora a partir de então da responsabilidade do armazenamento e da manutenção de milhares de ogivas. Não apenas ela renunciaria ao poderoso estoque atômico, mas também todos os integrantes do Estado soviético, como o Cazaquistão. Negociações se estenderiam durante os anos noventa.
A base do entendimento havia sido a de que tal tipo de armamento deveria permanecer sob guarda centralizada de único país da extinta federação comunista e, desta forma, reduzir a incerteza do restante do mundo sobre a supervisão adequada. Seria de maior dificuldade a concordância sobre a repartição apropriada dos equipamentos convencionais como tanques, navios e aviões, por exemplo.
Assim, o Kremlin seria a referência imediata. Afinal, havia sido o líder do Pacto de Varsóvia, agrupamento antagonista à altura da Organização do Atlântico Norte na rivalidade bipolar, e continuaria como representante do restrito P-5 do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.
Naquela ocasião, Kiev não desejou compartilhar a soberania em novo arranjo diplomático, onde figuraria de novo à sombra moscovita, e decidiu prosseguir sem entrelaçamento, tal quais outras pátrias como Estônia, Letónia, Lituânia, entre outras.
Cada uma teria o condão de escolher seu regime político e econômico, mesmo sem obstar o convívio na Comunidade de Estados Independentes, embora a Ucrânia se retirasse em maio de 2018, ou no âmbito bilateral, como o acordo de cooperação de junho de 1992.
Indefinido na mixórdia da proliferação acelerada de países na esfera euroasiática, o tratamento a ser dispensado a minorias, em especial à russa, nem sempre observada de modo solidário, dada sua prevalência de decênios na União Soviética, algo por vezes não considerado justo pelo restante dos demais povos.
Na fragmentação territorial, a adesão ao capitalismo, às vezes, formalmente democrático da maioria dos ex-componentes soviéticos. Diante da tumultuada conjuntura daquele período, o centro se deslocaria de Moscou para Washington, em torno do qual ocorreria a órbita do ascendente neoliberalismo.
Se outrora os inimigos figadais eram os países capitalistas mais desenvolvidos, como os próprios Estados Unidos, a datar daquela fase seriam os remanescentes do comunismo como Coreia do Norte e Cuba ou questionadores do sistema como Irã, Iraque ou Afeganistão.
Eis o mote para despertar a participação em agremiações castrenses tradicionais. Nos primeiros anos do século vinte e um, a Casa Branca teria a aspiração de atrair membros para elas, ao acenar com a possibilidade de instalar armamentos de última geração como mísseis e de encaminhar assessoria técnica para treinamento de efetivos.
O descontentamento moscovita seria visível, ao manifestar oposição à ampliação das fileiras da Organização do Tratado Atlântico Norte, por exemplo, à custa da entrada de ex integrantes do Pacto de Varsóvia como Geórgia e, claro, Ucrânia.
Anos depois, a perspectiva de ser potência otaniana não consta na pauta prioritária de Kiev. A extrema direita ucraniana teria sido contida após a invasão de Moscou. A parcela da sua área russófila ou fronteiriça encontra-se sob controle da rival e dificilmente será restaurada na totalidade.
Logo, a fundamentação do Kremlin para a agressão contra Mariyinsky teria sido satisfeita, embora sem se amparar no direito internacional. Portanto, cessar-fogo duradouro já deveria ter sido posto na mesa de negociação pela Rússia.
A vitória do governo de Vladimir Putin, mesmo se admitida pela administração de Zelensky, Trump ou von der Leyen, é de Pirro. O prazo de recuperação será bem extenso e não desfrutará do socorro da maior parte da vizinhança, a não ser o da China.
Outrossim, aliados costumeiros da Rússia tombaram como Síria ou Venezuela ou se situam sob ameaça iminente dos Estados Unidos como Cuba ou Irã. Por conseguinte, o tempo desdobra-se em evidente desfavor do Kremlin, ao corroer em meros quatro anos o prestígio militar de décadas.
Sobre o Autor
Virgílio Caixeta Arraes: Graduado em História pela Universidade de Brasília (1994), mestre em História pela Universidade de Brasília (1998), doutor em História pela Universidade de Brasília (2005) e pós-doutor em História pela Université de Montréal (2017). Professor Associado da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de História, com ênfase em Estados Unidos: História.
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