Guerra da Ucrânia: prosternação e sofrimento
Virgílio Caixeta Arraes

Resumo: Este artigo explana sobre a guerra russo-ucraniana com ênfase no prolongamento do sofrimento das populações envolvidas em decorrência do prolongamento da invasão de Kiev por Moscou. Mais de dois anos e meio assinalam o impasse e por conseguinte o fracasso da ação russa diante do desejo ucraniano: o de ingressar na Organização do Tratado do Atlântico Norte.
Novidades do front russo-ucraniano não animam Washington, já angustiada em decorrência do processo de novembro próximo relativo à sucessão da Casa Branca, nem Bruxelas, ambas principais titulares do arco central do concerto norte-atlântico militar, ou seja, da Organização do Tratado do Atlântico Norte.
Embora vagaroso, o avançar dos contingentes moscovitas prossegue — de maneira eufemística, denominam-se os recuos dos efetivos kievitas de táticos. São dois anos e meio de combates intensos com o objetivo de ora absorver ou ora recuperar palmos de terra a um custo humano irrefragável.
O Kremlin aproveita-se em ponta de pés da desvantagem de Mariyinsky concernente à obtenção de armamentos de ponta — bastante dependente do auxílio euro-americano, o governo ucraniano espera ser temporário o hiato castrense perante seu inconciliável adversário.
O difícil no cotidiano, ao estar em petição de quase miséria material, é sustentar de modo contínuo o moral das tropas, uma vez que elas se encontram em estado de fadiga e por conseguinte de desânimo diante do descortino de conjuntura pouco abonadora no prazo imediato, a despeito do constante aceno do exterior.
O desejo de que a Ucrânia pudesse engrossar as fileiras otanianas remonta aos primórdios do século vinte e um. O caminhar da Europa Ocidental ao leste do continente ocorre com passos de ganso, isto é, com marcha regular, não com deslocamentos suaves. Assim, sem prioridade de programas de cooperação técnico-científica ou de empréstimos econômicos.
Destarte, não seria possível escapar da perspectiva de que parte relevante da elite washingtoniana ainda respira os ares do período bipolar, não os sopros da contemporaneidade onde o comunismo remanescente resume-se a número mínimo de países, desde que se considere a China como adepta do neomercantilismo.
Por conseguinte, a atração política é deveras reduzida, de sorte que a concentração no aspecto militar como preservação da soberania teria somenos importância — nem mesmo Cuba desperta a atenção como outrora.
Na visão tradicional ou romântica, o comunismo havia sido o rígido revestimento substituto do decadente monarquismo russo, de forma que a inimiga não seria a ideologia em si, mas a própria nação. Sob tal configuração, a Rússia não poderia recuperar-se ou até elevar-se no sistema internacional em vigor, a não ser que conjugada com os interesses mais relevantes dos Estados Unidos, isto é, os do capitalismo democrático.
Respeitadíssima potência atômica, ao deter ogivas em grande escala, ela não poderia ser autônoma de facto, ainda mais em função da possibilidade de ter ao seu redor variados aliados no decorrer de vasta faixa territorial, ao compreender de modo simultâneo parcelas generosas da Europa e da Ásia em seu delineio.
Logo, o Kremlin poderia constituir sua economia-mundo à moda de Fernand Braudel ou seu sistema-mundo ao modelo de Immanuel Wallerstein. Saliente-se que isso não significaria presumido retorno ao comunismo ou a regime similar, porém disposição apenas de maior desenvoltura dentro do sistema neoliberal. Nos dias atuais, a Rússia situa-se como vigorosa exportadora de produtos como petróleo, gás e trigo.
Aos olhos da casmurra elite moscovita, o progressivo deslocamento otaniano em direção ao leste assinalaria a vocação imperial da contraparte norte-americana, jamais democrática, a não ser de modo superficial, ao expressar-se de maneira retórica, ao idealizar a pregação de valores de matiz liberal ou iluminista.
No traçado antigo da desconfiança ou da cautela do Kremlin, os Estados Unidos seriam o sucedâneo, embora com características, reconheça-se, bem distintas, de duas potências agressoras da Europa: na primeira metade do século vinte, a Alemanha em duas fases autoritárias: sob a monarquia guilhermina e sob o nazifascismo. Em geração anterior a ela, a França, também monárquica, porém sob rubrica napoleônica.
Conquanto derrotada nas primeiras fases das confrontações mencionadas, a Rússia teria a paciência para aguardar a corrosão de seus acérrimos inimigos, quer na economia como na estrutura da logística, malgrado a duradoura lembrança do ‘marechal inverno’, quer na política como na substituição de regime.
Por outro, Moscou seria o bode expiatório costumeiro da presença de Washington em solo europeu ao longo da Guerra Fria. Sem a União Soviética e seus variados países satélites ou sem o espraiamento do comunismo na metade do continente como no passado recente, a razão para a continuidade de organismo militar norte-atlântico reduzir-se-ia, dado que ocasionais ameaças na região rareariam.
Destarte, a consolidada União Europeia poderia movimentar-se por suas próprias pernas, sem depender do socorro eventual do braço longo dos Estados Unidos, uma vez que França e Grã-Bretanha dispõem de arsenais atômicos consideráveis e todos os integrantes têm forças armadas bem adestradas em vista dos batalhões da Rússia.
Ao invés de abarcar as novas nações de origem soviética sob fascínio marcial, como as três de procedência báltica, Bruxelas poderia encantá-las, caso acreditasse ser conveniente, com o envolvimento econômico, sob chancela do desenvolvimento ou do consumo. Ao acenar para elas com a possibilidade de participar da maior unidade castrense da Europa, Bruxelas concedeu a Moscou justificativa, ainda que indevida, de reagir.
A maneira adequada de demonstrar em primeiro lugar queixa à postura dos vizinhos seria a diplomacia. Contudo, o caminho subscrito seria o militar e direcionado ao maior país de sua extinta esfera de influência.
Com o propósito de ter sucesso contra Bruxelas, ao invocar o legítimo direito de defesa, a movimentação de Moscou deveria ser rápida na defenestração do governo de Kiev e na anexação de áreas russófilas.
Hoje, há dois prostrados em cena: na arena bélica, Mariyinsky mantém-se de pé graças à ajuda externa ou antes norte-atlântica e na órbita política o Kremlin, depois de mais de dois anos e meio de ataques incessantes ao vizinho, não consegue assegurar nenhum dos dois — tácitos — objetivos idealizados: incorporar de maneira definitiva parcela considerável de território e alijar do poder o presidente empossado em maio de 2019.
Sobre o Autor
Virgílio Caixeta Arraes: Graduado em História pela Universidade de Brasília (1994), mestre em História pela Universidade de Brasília (1998), doutor em História pela Universidade de Brasília (2005) e pós-doutor em História pela Université de Montréal (2017). Professor Associado da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de História, com ênfase em Estados Unidos: História.

