Guerra da Ucrânia: perspectivas desanimadoras para Kiev a partir de 2025
Virgílio Caixeta Arraes

Resumo: Texto relativo à vitória do candidato republicano à Casa Branca, Donald Trump, e suas possíveis repercussões no tocante ao andamento da Guerra russo-ucraniana, próxima do terceiro ano. Trata-se de perspectiva negativa para Kiev diante do desejo de Washington de reduzir sua participação no conflito. Aguarda-se que o posicionamento dos integrantes da União Europeia siga o do parceiro do outro lado do Atlântico.
Pesquisas indicavam na última fase de campanha à Casa Branca indefinição quanto ao primeiro lugar, malgrado se apontasse nos estados pendulares leve inclinação a favor da candidatura de oposição. Dum dia para outro, em sendo abertas as urnas, a vitória da agremiação republicana ocorreria com facilidade no colégio eleitoral, onde figuram 538 nomes, embora com reduzida margem na consulta popular — cerca de dois pontos percentuais. Em 2016, Donald Trump havia-se sagrado entre os delegados, porém não no povo.
Expectativas de mudança alternam-se de acordo com as percepções de cada segmento da sociedade em determinado momento. Republicanos e democratas navegam no mesmo oceano em ritmo similar, conquanto estejam em locais diferentes, mas não tão distantes de forma geral. Destarte, isso expressaria posição distinta sobre itens específicos do cotidiano administrativo como na conturbada conjuntura internacional.
Assim, eis que se avista no horizonte ao futuro governo norte-americano o destino da guerra da Ucrânia, já a beirar o terceiro ano sem nenhum dos lados vislumbrar a possibilidade de êxito definitivo: a Kiev, sobrevém a esperança de expulsão da nação invasora, a Rússia, com o auxílio norte-atlântico, ao passo que, para Moscou, existe o desejo de consolidação da anexação dos territórios assaltados, equivalentes a um quinto da área total da vizinha.
Com a alternância no poder a datar de janeiro de 2025, especula-se para Mariyinsky tempo de trovoadas, uma vez que a Casa Branca não tem interesse maior na continuidade da confrontação no leste da Europa.
Com aguardado alívio, o Kremlin tem consciência de que a interrupção gradual do socorro a sua adversária figadal não virá de ato de generosidade, contudo condicionada ela à ocasional modificação do seu relacionamento com a China, quer bilateral, quer multilateralmente. Eventual transformação poderia afetar a convivência no acrônimo BRICS, agrupamento em torno do qual o Brasil se insere de modo secundário.
Sem a intervenção dos Estados Unidos no confronto euro-oriental, os integrantes da União Europeia devem dividir-se sobre a continuidade da manutenção do apoio econômico e militar à Ucrânia e sobre sua intensidade.
Sem Washington, a simpatia de Londres, Paris ou de Berlim a Kiev representará a Moscou antagonismo desnecessário. Portanto, o tempo desajuda o dirigente kievita no cenário político de curto prazo, com inevitáveis repercussões castrenses.
As forças armadas russas, por coincidência, tornaram intensas as investidas nos derradeiros dias em solo inimigo, a despeito de condições climáticas desfavoráveis. A movimentação de tropas dedica-se a recuperar áreas, por sua vez, retomadas pela contraparte ucraniana como em Kupyansk. Distintas do começo da invasão de fevereiro de 2022, as áreas sob risco de recuperação da opositora encontram-se com guarnecimento de minas e de inúmeras barreiras de dentes de dragão.
Com a substituição na Casa Branca em breve, a intenção do Kremlin é a de apossar-se o máximo de territórios de Mariyinsky, com o propósito de dispor de várias cartas na hipotética mesa de negociações a ser organizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) ou por conjunto de potências vinculadas à luta.
Nas indicações aos principais cargos divulgadas ao público, pouco há para a elite moscovita preocupar-se de fato com o desdobramento da disputa. Outrora parlamentar democrata do Havaí, por onde havia concorrido nas prévias de 2020 à presidência da República, e oficial veterana da Guerra do Iraque, Tulsi Gabbard, ao desfiliar-se em 2022 da agremiação, iria aproximar-se do bloco republicano, onde logo se tornaria membro do círculo imediato de Donald Trump.
Como recompensa à recente convergência de ideário, onde se alinham posições conservadoras também no setor comportamental, sugerir-se-ia, dada a necessidade de aprovação do Senado, o nome de Gabbard para a direção de Inteligência Nacional (DIN), organização com o qual a Casa Branca supervisiona as atividades rotineiras de unidades de destaque como a Agência Central de Inteligência (CIA), Departamento Federal de Investigação (FBI) e Agência de Segurança Nacional (NSA) (Kinnard e Klepper 2024).
Outro com o qual o Kremlin pode contar de maneira indireta é Vivek Ramaswamy, um dos aspirantes das prévias republicanas de 2024, futuro adjunto de Elon Musk, o controvertido empresário responsável pela Tesla e pelo antigo Twitter. Encarregado de estruturar a redução das despesas do orçamento federal até 2026, o ‘Projeto Manhattan’ da administração vindoura, ele se posiciona a favor de cortes da estimada ajuda à Ucrânia e Formosa, por exemplo (The New York Times 2024).
Com fanfarronice usual, o postulante republicano ao longo da campanha prometia encerrar a investida da Ucrânia pela Rússia em um dia tão só, embora sem pormenorizar o modo como cumpriria o alardeado. A medida, depois do envolvimento empolgado dos Estados Unidos desde o alvorecer da incursão, não será de fácil execução.
Como mencionado antes, Washington deseja sem hesitação o distanciamento de Moscou, ainda que de forma mínima de Pequim. Isso decorre da influência da tradição geopolítica do país, ao atuar para impedir a aproximação entre três grandes potências: Alemanha, Rússia e China. No final do século dezenove e na primeira metade do vinte, eram as duas sociedades europeias o motivo de inquietação; hoje, é a terceira o fator da angústia.
A suspensão do socorro da Casa Branca a Mariyinsky não poderia ser ab-rupto; destarte, ocorre a necessidade de gradação do fornecimento de armamentos e do auxílio financeiro, embora não seja possível estipular com segurança o calendário.
No entanto, Washington aguarda de Kiev concessões, conquanto de maior expressão do que as ocasionalmente endereçadas a Moscou. Renunciar, embora de maneira temporária, ao ingresso na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) seria a primeira recomendação ou melhor exigência, o que não seria difícil de atender, nem desagradaria a Bruxelas.
A segunda, especula-se, abarcaria a renúncia de parcela da soberania, ao ceder até um quinto da nação — seria a revivescência da tradicional doutrina do uti possidetis. Depois de quase três anos de embates vigorosos, com sacrifícios extenuantes à população, seria decepção incontornável ao governo de Volodymyr Zelensky.
Referências
Kinnard, Meg, e David Klepper. 2024. “5 Things to Know about Tulsi Gabbard, Trump’s Choice for Director of National Intelligence.” PBS News, Nov. 14, 2024. https://www.pbs.org/newshour/politics/5-things-to-know-about-tulsi-gabbard-trumps-choice-for-director-of-national-intelligence.
The New York Times. 2024. “Trump Empowers Musk and Ramaswamy to Overhaul Federal Government.” The New York Times, Nov. 12, 2024. https://www.nytimes.com/live/2024/11/12/us/trump-news-house-election.
Sobre o Autor
Virgílio Caixeta Arraes: Graduado em História pela Universidade de Brasília (1994), mestre em História pela Universidade de Brasília (1998), doutor em História pela Universidade de Brasília (2005) e pós-doutor em História pela Université de Montréal (2017). Professor Associado da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de História, com ênfase em Estados Unidos: História.

