Guerra da Ucrânia: o perigo de isolamento maior do Kremlin
Virgílio Caixeta Arraes

Nos últimos dias, a atenção do planeta desviou-se do embate ucraniano-russo a fim de dirigir-se ao conflito desencadeado no Oriente Médio no dia 7 de outubro. Diferente do leste da Europa, a confrontação em andamento pode envolver países da região de maneira individual, não de modo coletivo como é o caso do engajamento corrente da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), e acelerada em face de tensões fronteiriças oriundas da Guerra Fria como em 1967 e 1973, por exemplo.
Dada a reconhecida importância do território médio-oriental, independente do aspecto considerado, os Estados Unidos terão de compartilhar seu tempo com dois parceiros, Kiev e Tel-Aviv, importantes em seus respectivos continentes: um confronta-se com uma superpotência nuclear ao passo que o segundo, com um ente semi-estatal.
Já em dificuldade diplomática com a primeira disputa, a Organização das Nações Unidas (ONU) deparar-se-á com mais entraves ao buscar assegurar a civis da segunda peleja condições adequadas de segurança.
A duração da recente guerra terá impacto na condução da primeira, haja vista a dependência do governo ucraniano de recursos financeiros e bélicos dos integrantes otanianos, em especial os anglo-americanos, também voltados a cogitar a partir de hoje auxílio variado a seu aliado levantino em nome da repulsa ao terrorismo.
Mariyinski preocupa-se com isso mais que o Kremlin, uma vez que o isolamento da Rússia proposto pela faixa norte-atlântica quando do começo (fevereiro de 2022) do confronto não desencadeou o efeito almejado, ou seja, cessar-fogo, mesmo temporário. O fracasso da medida inicial influenciaria a adoção de posicionamento inverso com a Ucrânia: a aproximação.
Os formuladores atuais de Washington e de Bruxelas concedem à história de Moscou relevância menor, ao ignorar ser o afastamento sinal constante da política do país: com o fito de não enfadar, basta relembrar o século passado, momento no qual o Kremlin encarou obstáculos sem o apoio do Ocidente como a guerra contra o ascendente Japão entre 1904 e 1905 ou contra ele como a aliança anticomunista formada em 1917, tópico de um dos futuros 14 pontos do presidente Woodrow Wilson, ou a invasão de seu território em 1941 pelo arco de extrema-direita.
A datar de 1917, o menoscabo à Rússia seria sem dúvida marcante, ao ser materializado na ausência do reconhecimento diplomático da inédita administração bolchevique em substituição à decadente monarquia Romanov e da omissão deliberada de convite para ela juntar-se à recém-estruturada Sociedade das Nações.
Na década seguinte, a crise de outubro de 1929, desembocada nos Estados Unidos, época na qual a resposta da Rússia ao esfacelamento do globo seria o estabelecimento de planos quinquenais com execução de maneira inexorável com duplo efeito:
O primeiro ocasionado quando o governo conteve a oposição econômica como no setor agrícola, ao estatizar pequenas propriedades, e o segundo ao barrar a insatisfação política da Ucrânia na nova federação e outrossim o entendimento de não agressão com a Alemanha extremista;
A partir de 1947, malgrado a inexcedível contribuição do país para a eliminação do nazifascismo, ao ter sido ela agredida pelo Eixo em 1941, o mundo seria dividido de forma rígida em duas extremidades, capitalismo e comunismo, de sorte que Moscou ficaria afastada de novo das demais grandes potências sob a rubrica da Guerra Fria.
Embora mantido a distância, o regime bolchevique ultrapassaria sete décadas e conseguiria ombrear com os rivais ocidentais em diversos segmentos tecnológicos como o aeronáutico ou o nuclear e teria sua ideologia adotada em diferentes áreas do planeta como em Cuba, Etiópia ou China ou admirada por diferentes agremiações — no Brasil mesmo, seriam várias derivadas do Partido Comunista do Brasil de 1922, apesar da votação pouco expressiva na fase posterior à da ditadura militar (1964–1985).
Com a extinção da administração soviética, efetuada sem combates bélicos diretos com os Estados Unidos, a nascente Rússia postar-se-ia disposta a abrir-se diante do globo, ao aderir sem restrições ao posicionamento político-econômico advogado pelos principais vencedores desde os anos oitenta: o neoliberalismo.
Nem assim, o Ocidente estender-lhe-ia as mãos, ao legá-la de modo geral à vontade incontornável das corporações multinacionais conjugada com a inexperiência, se bem que ávida por poder, da oligarquia interna, sucessora na prática do Politburo, não à orientação comedida dos organismos internacionais.
Enfim, ao ser desbaratada no rígido campo ideológico da era bipolar, a penitência da derrotada seria adotar as prescrições do triunfador como uma forma de remissão humilhante dos equívocos do período da rivalidade amero-soviética. A despeito da boa vontade da sociedade derrotada, não haveria, no entanto, o avizinhamento.
Destarte, a Rússia continuaria aos olhos das maiores potências otanianas a suscitar sim inquietações, não como as de suspeita do peso do histórico comunista, encoberto de modo definitivo, apesar da retórica isolada de grupos esparsos, porém nos considerados erros da contemporaneidade capitalista, isto é, na incapacidade de lograr êxito sob as vestes da doutrina recomendada pelas nações ganhadoras.
No emergir do desentendimento entre a Casa Branca e o Kremlin, Alemanha e Japão, severamente punidos pela responsabilidade direta da Segunda Guerra Mundial, seriam atraídos ao polo capitalista pelo líder do sistema, desde que se mantivessem no campo democrático; outra derrotada, a Itália, também gravitaria em torno das diretrizes dos Estados Unidos.
Cerca de trinta anos depois da substituição do comunismo pelo capitalismo ou do autoritarismo por democracia, o leste da Europa tem embaraços de firmar nova identidade política e, por conseguinte, social conforme aguardado naquela época.
Era fase de grandes expectativas ao se conjugarem apreensão e, ao mesmo tempo, muitas esperanças, diferente do pessimismo de hoje em dia em função da postura da própria Rússia, Hungria, Bulgária, Polônia ou Eslovênia.
Enquanto o mundo for mundo, como uns costumavam afirmar em eras pretéritas, o posicionamento de isolar países sob condução de governos periclitantes ou imprudentes enseja maus auspícios, desaguados em tensão constante nas organizações internacionais e nas tratativas bilaterais e de quando em quando materializados em conflitos como o do entrevero quievita-moscovita.
Portanto, sem jamais descuidar do andamento do trágico embate médio-oriental, a diplomacia multilateral deve manter os esforços para não se afastar ainda mais da Rússia, ciosa ela da oportunidade a seu favor caso isso ocorra.
Sobre o autor
Virgílio Caixeta Arraes: graduado, mestre e doutor em história pela Universidade de Brasília e pós-doutor em história pela Université de Montréal (Canadá). Professor Associado da Universidade de Brasília.
