Guerra da Ucrânia: o imprevisto recuo da Rússia
Virgílio Caixeta Arraes
Ao ingressar no nono mês de conflito, as forças armadas russas recolhem-se do solo ucraniano de maneira chamativa a ponto de haver desconfiança sobre a medida: se seria a retirada ocasionada pela ampliação das mortes e dos ferimentos dos combatentes e do aumento dos custos de logística ou por recurso tático, ao ter em vista o registro do deslocamento da burocracia moscovita de Kherson: no primeiro momento, civis e, nos últimos dias, milhares de efetivos.
Subjugada no começo da invasão sem dificuldades, a cidade simboliza na atualidade o inverso da expectativa do início da confrontação, isto é, o malogro da segunda fase da denominada operação especial: a manutenção das incorporações territoriais. Abastecidos por equipagem norte-americana, os ucranianos têm tido expressivo êxito na fustigação dos oponentes.
A localidade havia sido declarada russa há pouco tempo; era a única capital anexada do adversário. Apesar do recuo, Moscou não abdicou oficialmente das possessões na região, ao administrar cerca de três quintos da área.
Embora seja o cenário adverso ao Kremlin, isto não expressa reconquista segura do território, dada a prudência da movimentação de Mariyinsky, uma vez que existe a real possibilidade de que as tropas inimigas tenham instalado armadilhas como minas terrestres como retaliação pelos incessantes ataques.
Assim, a ocupação ocorrerá de forma gradativa, de sorte que se minimizem os problemas à população retornada, ainda que os reclamos oficiais exaltem a recuperação rápida. É crível nas próximas semanas restabelecer de modo mínimo a infraestrutura danificada em função dos combates ou das sabotagens recentes.
Mesmo sendo inegável o avanço militar de Kiev, Washington recomenda a negociação com Moscou, ao constatar que nenhuma das duas partes tem capacidade de ir adiante de maneira inexorável com a disputa.
Destarte, haveria o impasse entre os governos de Vladimir Putin e de Volodymyr Zelensky, importante fator de inquietação a vizinhos como Alemanha ou Polônia e ao distante aliado norte-atlântico, a Casa Branca, em decorrência da possibilidade de escassez energética para parte do continente europeu ou, mais grave, do ocasional emprego de armas atômicas, como mencionado pelo useiro e vezeiro Kremlin em ameaças de alto tom na presente guerra.
O círculo nuclear mundial conta com nove membros, sendo a Rússia um dos três integrantes da Europa ao lado da Grã-Bretanha (GB) e da França. Ela, em primeira colocação, e os Estados Unidos (EUA) detêm a maioria absoluta do estoque planetário — cerca de noventa por cento do estimado. Em terceiro lugar, a China segue bem abaixo deles, embora tenha competência de alargar seu arsenal no futuro.
Ademais, a União Europeia (UE) e os Estados Unidos inquietam-se com os efeitos indiretos advindos do conflito em suas economias como a elevação constante dos preços do petróleo e do gás com assustadora consequência: a persistente inflação na abatida classe média, ainda em processo de recuperação das severas adversidades da pandemia do vírus corona.
Com relação aos norte-americanos, a depender dos resultados da eleição do meio do mandato, o apoio dos democratas a Mariyinsky poderá fenecer caso os republicanos os suplantem na Câmara dos Deputados, mesmo sob estreita margem. Destarte, embaraços a iniciativas de Joe Biden voltadas a manter o auxílio bélico a Volodymyr Zelensky poderão apresentar-se.
Sem a obstinação corrente de Washington, Londres poderá também recuar na colaboração estreita com Kiev, como o treinamento de tropas, por exemplo. De toda sorte, a Grã-Bretanha tem de preocupar-se com problemas políticos internos, materializados na substituição em poucas semanas de dois primeiros-ministros de agremiação conservadora — Boris Johnson e Liz Truss. O terceiro assumiu há dias.
Demais países do continente já não ostentam a pertinácia de meses anteriores. Com a proximidade do inverno, governantes concentram-se em assegurar a suas populações o maior conforto e se possível a preços compatíveis com o rendimento médio da sociedade. O problema vincula-se com a forma como a intensa utilização de madeira em nações afluentes como a Suécia.
Sem dúvida, a Europa deseja assegurar seu bem-estar a custos módicos e sem intempéries militares em suas cercanias; a Ucrânia, sua independência de todo modo, ao passo que a Rússia, em presença dos reveses avolumados, a sobrevivência da fascinação perante a comunidade internacional de grande potência.
Em pouco tempo, a imagem de eficiência das forças armadas russas, recuperadas desde o envio de tropas à Chechênia há duas décadas até o despacho de unidades especiais à guerra civil da Síria, esboroa-se a passos rápidos e com ela também o prestígio político de Putin, desgastado outrossim por anos e anos à frente do poder.
Descartado de fato o uso de armas atômicas, apesar do tom de ameaça costumeiro do Kremlin, e mantido o ritmo de resistência do exército ucraniano, graças ao fornecimento de armas norte-americanas, a campanha pode manter-se por semanas sem ganhos significativos nos dois lados, haja vista a proximidade invernal.
Uma vez que Washington garante o compasso em alta rotação das tropas kievitas, poderia pressionar Mariyinsky a acatar uma proposta de cessar-fogo ou ela mesma trazer à mesa a proposta de modo direto ao Kremlin, de maneira que ele não se sinta com descrédito.
Se os estadunidenses acenassem com negociação multilateral, até por influência da crescente bancada republicana, os russos poderiam acolher sugestões e, assim, se preservarem em decorrência da desconfiança da opinião pública interna, ao dispor de várias alternativas com o fito de estabelecer uma trégua, ainda que de curta duração.
Caso acuados, a reação poderia ser desproporcional aos infortúnios em solo ucraniano, conquanto não se possa mensurar qual grau de retaliação seria endereçado ao país limítrofe, interessado, por outro, em recuperar seus territórios com o menor dano — se a cadência da progressão dos contingentes kievitas for sustentada por mais semanas, é possível que até a Crimeia passe a entrar nas considerações de recomposição fronteiriça, aspecto de provável prolongamento da guerra.
Forçados pelas condições climáticas futuras, Putin e Zelensky poderiam entabular o diálogo ao invés de apenas interromper ou retardar o deslocamento das suas tropas.
Em havendo a diminuição do compasso, há a expectativa de que a pressão dos dois eleitorados contribua para um entendimento bilateral, a despeito, por mal dos pecados, da existência de censura ou de formas outras de repressão. Fatigada, a sociedade moscovita encontra-se sem ânimo para prosseguir a lide contra sua vizinha.
Virgílio Caixeta Arraes: graduado, mestre e doutor em história pela Universidade de Brasília e pós-doutor em história pela Université de Montréal (Canadá). Professor Associado da Universidade de Brasília.
