Guerra da Ucrânia: o impacto da transformação da Síria
Virgílio Caixeta Arraes
Resumo: texto relativo ao impacto da crise de substituição de governo na Síria na política exterior da Rússia, ao abranger também o período da rivalidade bipolar, momento no qual Moscou adquiriu permissão para edificação de base naval militar, após desentendimento com o Egito.
Aos olhos da opinião pública em geral, a situação da Síria aparentava até dias atrás estabilidade, em face do socorro contínuo da Rússia, oficial a partir de setembro de 2015, com o despacho de unidades de elite e talvez de mercenários, e do Irã, com a movimentação desimpedida do Hezbolá. Graças ao desproporcional volume de informações propagadas nas redes digitais, uma e outra notícia, por não chamar muito a atenção na época da veiculação, podem escapar à lembrança no presente.
Apesar disso, ao cabo de 2015, após a intervenção russa na confrontação, admitiu-se a incapacidade de Bashar al-Assad manter-se no poder e destarte ter de buscar acolhimento em solo (provavelmente) moscovita, devido à avaliação da espionagem de que a estrutura do governo local seria bem instável. À medida que o tempo se desdobrava, a visão inicial desfavorável pareceu reverter-se até o ocaso de dezembro último (Sharkov 2016).
Na sua segunda geração desde 2000, a ditadura, ainda que sem estar de vento em popa, havia ultrapassado meio século de existência em 2021 e parecia sustentar-se em função do variado auxílio externo e da repressão interna constante, revelada a público de maneira dramática logo em seguida à queda de al-Assad. Em consideração preliminar, ganham com a derrocada norte-americanos, turcos e israelenses em detrimento de russos e de iranianos.
Antes do envolvimento estreito com Damasco, Moscou encarava turbulências no relacionamento com Washington e também com Kiev, em decorrência da recente aproximação castrense das duas ou melhor da cooptação da nação europeia pela estadunidense, com vistas ao ingresso na Organização do Tratado do Atlântico Norte.
Consequência seria a eclosão da confrontação russo-ucraniana em fevereiro de 2022. Decorridos quase três anos, a possibilidade de encerramento da disputa parece estar muito distante, malgrado o emprego de armamentos sofisticados pelo Kremlin, ao ter por resultado a lamentável destruição do território ucraniano.
Ter próximo de suas vastas fronteiras, ainda que de modo indireto, efetivos norte-americanos estacionados ou seus estoques de armas à disposição de filiados otanianos é grave afronta ao círculo de Vladimir Putin.
Conquanto se considere potência mundial, a Rússia não consegue de fato equiparar-se a Estados Unidos ou China ao redor do planeta. Na América Latina e Caribe, por exemplo, o Kremlin relaciona-se de forma próxima com Cuba, antiga aliada, Nicarágua, alinhada à União Soviética na fase final da Guerra Fria, e Venezuela, a maior decepção política do continente. Não se identifica nenhum dos três governos com democracia regular, não obstante a retórica dos mandatários.
No Oriente Médio e cercanias, depois do fracasso da União Soviética no longo conflito do Afeganistão até 1988, Moscou conteve sua vontade de mover-se, à exceção das andanças na Síria, onde seus passos firmes registram-se desde o período bipolar, quando da ascensão da administração do Partido Baath de Hafez al-Assad.
Lá, ela desfrutaria de base naval com acesso ao Mediterrâneo, preocupação tradicional da política exterior originada ao tempo da monarquia Romanov, quando a marinha tinha de atravessar os estreitos turcos — Bósforo e Dardanelos — e era dependente de incessante entendimento diplomático.
Em troca da aquisição militar durante a época bipolar, o Kremlin passaria a zelar por Damasco junto ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, ao exercer, se necessário, o poder de veto. O Oriente Médio é território estratégico, por ser generoso produtor de petróleo e de gás a preços módicos se comparado aos de outras áreas do globo.
Na Guerra Fria, parcela de seus países, independentes de forma gradativa da Grã-Bretanha e da França, pendia mais ao Ocidente; por isso, a tentativa da União Soviética de fincar os pés caso houvesse desinteligência entre uma elite local e Washington, Londres e Paris. Seria o marco de Damasco.
Sem a rivalidade amero-soviética no século vinte e um, o Kremlin expandiria sua atuação naquele país, ao obter autorização para implementar uma base aérea na década passada. Como resposta ao aprofundamento dos laços com a Síria, a Rússia iria proteger o governo na guerra civil, como acima mencionado, a datar de 2015.
Contudo, o ideário de unidades ultramar não se resumia àquela parte do mundo, ao aspirar a fixar-se no Atlântico, de modo que pudesse reagir à altura diante de eventual tentativa de agressão da Casa Branca.
A oportunidade viria com a modificação de regime em Cuba, quando da substituição da ditadura de Fulgêncio Batista pela revolução em princípio nacionalista, encabeçada por Fidel Castro, Che Guevara, Juan Almeida etc.
Naquela altura, Cuba teria maior importância que Síria derivado de aspecto pouco lembrado. À proporção que a armada soviética se expandia, os norte-americanos desenvolviam o Polaris, míssil balístico de submarino. Com ele, poder-se-ia anular a vantagem do crescimento da frota russa.
De volta à faixa levantina, seria ela a substituta em certa medida do Egito como parceira confiável, em face de dois contatos frustrados: após a crise do canal de Suez nos anos 1950 e Guerra dos Sete Dias no decênio seguinte. O pacto se estendeu durante a ‘dinastia’ al-Assad e no momento aguarda o direcionamento da coligação liderada pelo Hay’at Tahrir al-Sham (HTS).
Na extensão médio-oriental, aspirações e desejos políticos e econômicos de grandes potências cruzam-se a toda hora, uma vez que o destrinçar de múltiplas alianças não é possível às vezes e os choques assim são inevitáveis.
Caso sejam interesses otanianos, é possível a convergência norte-americana e turca, mas se individuados a divergência poderia fluir com relação à questão curda. Se for do lado estadunidense, levar-se-ia em conta a percepção, mesmo segmentada, de sauditas, israelenses e egípcios; se do russo, a ênfase recairia na expectativa de sírios.
Com a prioridade contra a Ucrânia, a Rússia abala seu próprio projeto de inserção global: apesar de assegurar um quinto do país vizinho até agora, corre o risco de aumento de despesas de segurança para conservá-lo e torná-lo fardo, isto é, sem recompensas e sem glórias.
Outrossim, após mais de meio século em terras médio-orientais, sujeita-se a retirar-se de maneira pouco auspiciosa, se prevalecer no poder o atual grupo dirigente, de feitio extremista. Portanto, 2024 não foi bom ano para a política externa moscovita.
Referências
Sharkov, Damien. 2016. “Putin Asked Assad to Step Down as Syrian President.” Newsweek, Jan. 22, 2016.
Virgílio Caixeta Arraes: Graduado em História pela Universidade de Brasília (1994), mestre em História pela Universidade de Brasília (1998), doutor em História pela Universidade de Brasília (2005) e pós-doutor em História pela Université de Montréal (2017). Professor Associado da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de História, com ênfase em Estados Unidos: História.
