Guerra da Ucrânia: o aproveitamento dos Estados Unidos e da China
Virgílio Caixeta Arraes
Resumo: texto relativo ao desdobramento inesperado para Moscou de quatro anos da Guerra Russo-Ucraniana: o aumento da desenvoltura dos Estados Unidos junto a aliados da Rússia, como Venezuela, ao expelir de maneira incomum do poder o presidente do país, e Irã, ao estimular a insatisfação política da população depois de quase meio século de teocracia. Obrigado a centrar-se na confrontação com a vizinha, Moscou assiste a Washington e Pequim beneficiarem-se sem custos materiais elevados. O desgaste russo desemboca no entusiasmo de seu maior rival, o norte-americano, a ponto de este desejar redesenhar até o mapa da Europa Ocidental, malgrado a existência da Organização do Tratado Atlântico Norte.
Russos e ucranianos engalfinham-se sem temor há quase quatro anos de modo ininterrupto: o primeiro com a ambição injustificada de alargada expansão territorial, ao alegar de início o combate à extrema direita do vizinho, ao passo que o segundo com o desejo de manutenção da soberania recuperada há pouco mais de três décadas, depois de tentativas infrutíferas ao longo do século vinte de independência ou de autonomia ao menos.
Incorporada ao cotidiano da União Europeia e dos Estados Unidos, a confrontação já não provoca sobressaltos de monta na elite política de Bruxelas, nem preocupação excessiva na de Washington, haja vista a crescente atenção dispensada a Caracas, ao defenestrar de pancada o titular da presidência e conduzi-lo a Nova York para julgamento por crimes comuns, a Copenhague, ao ameaçar absorver a Groelândia em detrimento da Dinamarca, e nos derradeiros dias a Teerã, ao torcer pela derrocada do longevo regime teocrático, desgastado pela repressão severa de milhares de manifestantes nas ruas.
No período do rigoroso inverno na região da contenda entre Moscou e Kiev, os combates costumam diminuir, dada a dificuldade de movimentação das tropas motorizadas; todavia, as duas potências têm optado pelos ataques aéreos, ao empregar drones cada vez mais poderosos e menos dispendiosos, com o objetivo de erodir a infraestrutura como a do segmento energético, de sorte que o moral da população arrefeça, em face do instantâneo impacto na rotina já sobremodo desfavorável.
Imagine-se o drama da sobrevivência da sociedade na capital, por exemplo, com temperatura diária abaixo dos dez graus e sem posição de guarnecer-se de forma apropriada. Sem consideração mínima da Rússia pelo destino de civis, registra a Ucrânia investidas incessantes da adversária contra os mesmos alvos, de jeito que os habitantes tenham de deslocar-se de maneira precária na cidade em busca de abrigo (Stepanenko 2026).
Do final de 2022 até agora, o Kremlin não tem obtido avanços territoriais significativos, a despeito do incremento dos ataques contra Mariyinsky. Se comparada sua presença atual com a das primeiras semanas de confronto, registra-se recuo considerável, visto que as forças armadas haviam ocupado áreas em toda a fronteira comum — em seu ápice, malgrado efêmero, os efetivos invasores abarcaram um quarto da nação ucraniana.
No Ocidente, costuma-se considerar Ucrânia, ao longo da trinca báltica, independente por breve momento após o encerramento da I Guerra Mundial, Belarus (outrora Bielo-Rússia), Moldávia e Polônia, soberana depois de 1918, embora também tênue, como país por muito tempo russificado, jamais russo em si, de sorte que a incorporação à liderança inconteste de Moscou não seria definitiva a nenhuma dessas distintas nacionalidades.
Nem sequer o advento da Guerra Fria eliminaria a vontade de separação do centro moscovita, malgrado ter tido governantes naquela fase de ascendência ucraniana como Leonid Brejnev e Mikhail Gorbatchev.
Contudo, a visão de mundo acima à análise de impérios não se corrobora, uma vez que o princípio do nacionalismo se submeteria a um maior, dependente do período circunstancial, isto é, do imediato, ou do conjuntural: segurança, comércio ou ideologia como ocorrido na fase soviética. Divulgava-se a perspectiva de que a fraternidade de classe seria superior à geográfica e conformado, destarte, novo molde de convivência.
Ainda assim, pode-se argumentar não ter existido uma nação soviética, apenas a primazia da russa sobre as outras, a despeito da razão mencionada — uma delas teria decorrido da brevidade da existência da superpotência comunista, com a consequência de que o firmamento de valores comuns àquela enorme população não pôde ter desfrutado de condições adequadas com o propósito de firmamento dos laços de coexistência cotidiana.
Ao fim e ao cabo, nenhum governo de importância aceitaria a fragmentação de sua composição territorial de bom grado e sem contestação diplomática ou militar. No próprio continente europeu, existe o exemplo da Alemanha, dividida de modo inicial em quatro áreas com o desfecho da II Guerra Mundial pelos países vencedores e, em seguida, em duas, em função da rivalidade amero-soviética, por décadas até conseguir unificar-se em 1989, na esteira da dissolução acelerada do poderio do Kremlin e na insatisfação demonstrada do povo germânico sob administração comunista.
Nos dias correntes a Catalunha, organizada em quatro estados, já demonstrou na última década intenção de separar-se do domínio monárquico de Madri — decênios anteriores, era forte a aspiração do País Basco, assentado em três províncias, reprimida de jeito inclemente pela ditadura anticomunista do general Francisco Franco. Ia este movimento na contramão do regime autoritário, ao propor república socialista.
Às vezes, a demanda por desconectar-se de determinado centro não nasce de maneira voluntária na área em si, porém é estimulada de forma externa como é o caso da injustificada solicitação dos Estados Unidos à Dinamarca, ao cobiçar a anexação sem restrição da Groelândia e sem consultar os residentes locais se aspirariam a ser independentes ou a se juntarem a uma sociedade ultramarina como mero estado.
Se acontecesse a incorporação por Washington, Nuque se tornaria, em tese, o quinquagésimo primeiro com população ínfima (dezenas de milhares), apesar da extensão do território, rico em recursos naturais, resguardados de ocasional cobiça de Moscou e de Pequim, segundo alardeio dos noticiários norte-americanos.
Não procederia a justificativa pública de ambição de demais potências (nucleares) até em vista da autoridade da Organização do Tratado do Atlântico Norte, capaz de rechaçar iniciativas descabidas à soberania de seus integrantes como a da abalada Dinamarca. Não seria ela habilitada, no entanto, de defender-se se houver erosão interna como sinaliza o incomum posicionamento do mandatário estadunidense.
A relativa debilidade bélica do Kremlin, ao despender maior tempo com os ucranianos nos campos de batalha do que com os alemães na época da II Guerra, desemboca de maneira involuntária na circulação desenvolta recente da Casa Branca, ao defenestrar do poder sem esforço o dirigente-mor venezuelano, cuja escora externa fundamentava-se no estreitamento com a diplomacia moscovita e pequinesa, não brasiliense ou mercosulina.
O abatimento, embora provisório, do poderio russo pode estimular a Casa Branca a insuflar mais a oposição iraniana. Mesmo sem êxito quanto à continuidade do estímulo, o desgaste do Kremlin se ampliaria, ao ter de concentrar-se na disputa com Mariyinsky. Com as escaramuças indiretas entre as duas tradicionais rivais em busca da ampliação das esferas de influência, a beneficiária imediata, malgrado momentânea, seria Zhongnan Hai.
Referências
Stepanenko, Vasilisa. 2026. “Ukrainians Endure Freezing Temperatures at Home as Crews Rush to Restore Power”. AP News, janeiro 15. https://apnews.com/article/russia-ukraine-war-power-blackouts-13e814e9c51eb7f2048a1f662c7433ce.
Sobre o Autor
Virgílio Caixeta Arraes: Graduado em História pela Universidade de Brasília (1994), mestre em História pela Universidade de Brasília (1998), doutor em História pela Universidade de Brasília (2005) e pós-doutor em História pela Université de Montréal (2017). Professor Associado da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de História, com ênfase em Estados Unidos: História.
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