Guerra da Ucrânia: lembranças do perigo nuclear
Virgílio Caixeta Arraes
Em cerca de setenta e cinco anos, a Rússia adjetivou-se três vezes: monárquica até 1917; comunista até 1991; e democrática, ao menos de maneira formal, desde então. Em se considerando o século vinte, ela teve poucos dirigentes caso seja comparada ao número de mandatários de países como o Brasil, por exemplo, ou os Estados Unidos.
No vinte e um, a tendência mantém-se, haja vista a contínua permanência de Vladimir Putin no Kremlin, quer como presidente, quer como primeiro-ministro — já lá se percorre o período de quase duas décadas e meia, a ponto de se mencionar pouco e pouco a existência do putinismo como nos idos do comunismo se indicava a do leninismo ou a do stalinismo. Enfim, a personificação do poder não tem sido estranha à nação de maior extensão do planeta.
Outra regularidade do processo político moscovita nas últimas gerações, ainda que ela não destoe muito de potências de porte similar, tem sido o envolvimento em confrontações de variada intensidade ora no solo europeu, ora no asiático:
Na distante época da monarquia entre 1904 e 1905, a Rússia enfrentou sem sucesso o Japão por causa do controle de parte de terras da China — necessitariam ambos da mediação dos Estados Unidos para chegar a bom termo. A conciliação ocorrida em New Hampshire valeria ao presidente Ted Roosevelt o Nobel da Paz em 1906.
Na corrente fase, Moscou depara-se com Kiev em decorrência do seu desejo de incorporar em torno de um quinto da área da nação rival ou de transformá-la em uma zona tampão com duas diminutas repúblicas russófilas.
Às vésperas de completar seis meses de invasão, a investida russa aparenta infelizmente incorporar-se à rotina da Europa, uma vez que tratativas de cessar-fogo à mesa dos contendores não se desenvolvem a contento.
Além disso, o desfecho do confronto poderá influir, quando menos de modo incidental, no destino da antiga Iugoslávia, ao ter em vista a definição da soberania do Kôsovo, independente da Sérvia a datar de fevereiro de 2008, graças à duradoura presença dos efetivos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN);
Caso a Rússia logre êxito em arrebanhar terras de maneira indelével da Ucrânia sob justificativa de reunir comunidades de sua ascendência ou cultura, isso poderá estimular a Sérvia em futura arremetida sob invocação de guarnecer os seus também, ou seja, seria provável eventual revivescência do nacionalismo em região ao longo da história instável.
Por outro, evocar a ideologia do Estado-nação em pleno século vinte e um embasaria Bruxelas a expandir seu número de filiados otanianos, sob manto de proteger a soberania de países outrora da União Soviética (URSS) ou fronteiriços à Rússia. Assim, a aliança militar direciona-se à Suécia e Finlândia; amanhã, dirigir-se-á, talvez, à Geórgia.
Se no alvorecer da centúria passada a disposição de Washington havia sido a de modo adequado apaziguar a tensão entre Moscou e Tóquio, agora, é a de acirrar, ao providenciar auxílio bélico, não préstimos diplomáticos incisivos, fosse direta ou indiretamente, ao recorrer à própria Organização das Nações Unidas (ONU).
Nos últimos dias, a sobrecarga entre os adversários ultrapassa a arena castrense tradicional, ao envolver outrossim o controle de zonas nuclearizadas — a de Zaporíjia, segundo divulgação do noticiário global, estaria prestes a ter reatores avariados em decorrência de bombardeios sucessivos. Cada um dos combatentes invoca para o outro a responsabilidade da possível ocorrência de acidente atômico de largo alcance.
Observada como a maior do continente, ela é fonte fundamental de sustento energético da Ucrânia. Embora conquistado o seu entorno pelos contingentes russos em março, a usina em si continua administrada por técnicos locais.
A par dos constantes ataques a ela, malgrado a autoria, há um risco paralelo, de acordo com especialistas: a depender da forma como ela for desativada, seu sistema poderá danificar-se na iminência de gerar um cataclismo radioativo, cuja extensão abarcaria inclusive o território germânico.
Destarte, a inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) seria importante para proporcionar de maneira equidistante diagnóstico de maior precisão sobre a real condição de funcionamento com segurança de Zaporíjia.
A preocupação com a possibilidade de um acidente nuclear de porte remete à triste lembrança de Chernobyl em abril de 1986, momento no qual a Ucrânia integrava a Rússia, principal unidade da União Soviética — de início, o Kremlin tentou limitar ao mundo informações sobre o acontecimento. Mesmo inativa a contar daquele período, a usina foi objeto de conquista das tropas moscovitas já nos primeiros dias da guerra.
A memória da tragédia atômica permanece e estende-se fora do continente europeu como, por exemplo, com o Brasil. Recém-egresso da ditadura militar, o país havia implementado em fevereiro daquele ano rígido plano econômico — alcunhado de Cruzado, em alusão ao nome da moeda substituinte da antiga, o Cruzeiro. O propósito era o de reduzir de modo acelerado o persistente ritmo da inflação — o índice anual superava a faixa dos duzentos por cento desde 1983, ao contribuir para a agonia do regime — file:///C:/Users/Usuario/Downloads/19574–45509–1-SM.pdf .
Uma medida crucial do programa foi o amplo congelamento de preços. Em poucas semanas, no entanto, a população teria dificuldades de encontrar produtos em locais costumeiros de compra, indiferente do tamanho dos estabelecimentos — de pequenos açougues a supermercados — e das cidades. Com a finalidade de combater a escassez crescente, o Planalto propôs a importação de diversos itens como carne e leite em pó.
A preocupação com a eventual contaminação de produtos alimentícios estava no horizonte das autoridades nacionais, porém sem desestimular a iniciativa de comerciar com governos europeus. A despeito da fiscalização portuária, a imprensa paulista noticiaria a infecção radioativa de parte da carga do leite em pó, ainda que o lote fosse oriundo da Irlanda.
Após a publicação da reportagem, Brasília iria apurar a denúncia e identificaria de fato a viciação. Conquanto constatada a contaminação, seu consumo não seria desencorajado. Semanas depois, questão similar ocorreria com carne provinda também da Europa.
Naquela época, o mundo se dividia quanto à ideologia entre a Casa Branca e o Kremlin — o acidente em Chernobyl expôs a fragilidade soviética de forma dupla na disputa: na operação incorreta da usina e no ocultamento baldado do desastre; nos dias correntes, o globo se cinde entre Moscou e Kiev, contudo todos se unem no tocante à preocupação de um possível reviver dos horrores do descontrole atômico.
Virgílio Caixeta Arraes: graduado, mestre e doutor em história pela Universidade de Brasília e pós-doutor em história pela Université de Montréal (Canadá). Professor Associado da Universidade de Brasília.
