Guerra da Ucrânia: influenciar ou anexar — dilema de Moscou
Virgílio Caixeta Arraes

O leste da Europa assombra do ponto de vista castrense o continente: a Primeira Guerra Mundial havia-se originado em decorrência da disputa entre Áustria-Hungria e Rússia pela ascendência sobre os Balcãs e a Segunda Guerra derivou-se da indevida repartição da Polônia, recém-nascida, entre Alemanha e União Soviética (URSS).
Durante a fase bipolar, conflitos chamativos teriam menor alcance geográfico, longa duração e envolvimento nem sempre direto das duas superpotências nucleares. O desdobramento da maioria deles ocorreria solo asiático:
Desta maneira, o planeta assistiria ao emergir de confrontações a datar da década de cinquenta na Coreia, Vietnã, Afeganistão, Irã e Iraque. Por último, registre-se também a elevada tensão no Oriente Médio materializada em um torno de quarto de século (1948 a 1973) em várias contendas militares entre os países da região.
Com o encerramento da rivalidade bipolar na viragem dos anos oitenta para os noventa, apesar da expectativa de paz global e de progresso material em larga escala, a Europa vislumbraria preocupação em solo balcânico de novo, ao deparar-se com o irromper de hostilidades incisivas entre governos da multinacional Iugoslávia, hoje extinta.
Seria um período de anos de combates severos entre sérvios, croatas, cosovares, macedônios, bósnios, eslovenos entre outros; a interrupção das lutas seria possível graças ao concurso da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) sob patrocínio dos Estados Unidos (EUA), após hesitação dos demais membros, em 1999.
Malgrado ser o desfecho provisório, uma vez que divisões otanianas continuam lá, o maior receio não ocorreu: a deflagração de confronto local com célere espraiamento de grandes proporções como em 1914.
Com o desencadeamento da Guerra da Ucrânia em fevereiro do ano passado, o temor retornaria, ainda mais depois do relacionamento crescente de potências norte-atlânticas ao lado do país invadido. A espera de reversão de avanço territorial do agressor se frusta à medida que o tempo decorre.
Com armamentos sofisticados oriundo do Ocidente, Kiev esperava expulsar contingentes de Moscou nas últimas semanas de suas áreas ocupadas desde o alvorecer do conflito. No entanto, tropas ucranianas mal conseguiram ultrapassar a linha inicial de defesa russa, de sorte que o impasse se estabelece.
Nos dois grandes combates globais da primeira metade do século vinte, o elemento de desempate nos campos de batalha na Europa foi a presença maciça dos batalhões dos Estados Unidos. Exauridas as duas coligações, a vinda dos efetivos norte-americanos desequilibraria em desfavor da Alemanha — ora monarquista, ora nazista. Situação similar já não se poderia repetir nos dias atuais, dado o grau do poderio de destruição das armas.
Pulsante, a política externa moscovita acostumou-se, indiferente do regime subscrito, a expandir-se há incontáveis gerações em todas as direções possíveis. Enquanto França e Grã-Bretanha, por exemplo, ampliavam suas possessões de forma ultramar, a Rússia constituía seu império de modo contíguo, à exceção até 1867 do Alasca, situado na América do Norte;
Parecido com o processo de expansão de Moscou, vem à mente o de Washington, o comprador das terras alasquianas, depois do desinteresse de Londres. Todavia, a duração da dilatação seria menor, ao limitar-se basicamente ao século dezenove.
Com a troca de dirigentes às vésperas da passagem de milênio (agosto a dezembro de 1999), amparada em transição incomum aos olhos das demais potências, o Kremlin buscaria assegurar ao menos esferas de influência ao valer-se de alianças com nações recém-constituídas como Belarus, antiga Bielo-Rússia, e Ucrânia na Europa ou Armênia, Geórgia, Uzbequistão, Turcomenistão ou Cazaquistão na Ásia, por exemplo.
Seriam nações com as quais se identificavam em seu cotidiano variados elementos russos, fosse pela larga e antiga presença de descendentes, fosse pela ascendência da cultura como religião ortodoxa ou mesmo idioma.
Por um lado, tal tradição no despontar das elites de novas nações não seria bem acolhida porque prejudicaria a consolidação de suas soberanias. Assim, o nacionalismo, em descenso no restante do continente, seria recuperado para necessidade imediata.
Por outro, como conciliar o emergente posicionamento local com o das comunidades russas, ainda mais quando maioria ela em determinadas circunscrições das nações recém-originadas. Desavenças seriam difíceis de evitar.
Tratativas diplomáticas seriam o primeiro passo para ela se configurar de maneira ordenada na nova ordem planetária, após o desastre da política externa de Boris Yeltsin, ainda que considerado o mandatário de modo distinto no Ocidente.
Não se vislumbrava, contudo, a reconquista no horizonte próximo, em vista dos altos custos econômicos para um país debilitado e da imensa perspectiva de corrosão política perante as demais grandes potências.
Talvez em decorrência do extremo desapego territorial da administração de Yeltsin, a estrutura de Estado tratou de alinhar o entorno da nação de forma especial, por conseguinte cautelosa, ao conceituá-lo como externo/ estrangeiro próximo.
A importância do realce da delimitação fronteiriça próxima ou adjacente ocasionaria a aceitação pelo Kremlin da possibilidade de futura reintegração, ou seja, de reconquista, ao invocar como mote primordial a integridade das comunidades russas espraiadas há gerações.
Em assim sendo, até a absorção de áreas reconhecidamente antirrussas como as dos bálticos se justificaria também, a despeito do desrespeito da soberania local ou da rejeição da medida de organismos multilaterais como União Europeia ou Organização das Nações Unidas.
Indo além, o panorama do Kremlin se fundamenta em outro aspecto, conquanto sem amparo na legislação internacional: a possível desestabilidade regional, caso Moscou deixasse de ser a principal referência eurasiana.
Sem ela, gerar-se-iam mais e mais condições para uma disputa entre Washington e Pequim a fim de ampliar o respectivo raio de influência e, portanto, de ocasionar choques com desdobramentos desfavoráveis à vasta região em face do desejo de acesso a fontes energéticas ou a reservas agrícolas. Destarte, seria imperativo para o governo russo movimentar-se rumo a anexar ou a negociar.
Sobre o autor
Virgílio Caixeta Arraes: graduado, mestre e doutor em história pela Universidade de Brasília e pós-doutor em história pela Université de Montréal (Canadá). Professor Associado da Universidade de Brasília.
