Guerra da Ucrânia: ecos da burocracia soviética
Virgílio Caixeta Arraes

A confrontação encontra-se prestes a inteirar o segundo ano sem que haja perspectiva de solução a contento para ambos no horizonte. O inverno auxilia a acomodar as duas forças armadas, ao proporcionar a elas duração mínima de descanso, de recuperação ou de treinamento dos contingentes e de recomposição das equipagens, caso ainda tenha a administração moscovita ou a quievita condições financeiras no curto prazo.
No lado de Kiev, o auxílio econômico provém de maneira maciça do eixo euro-americano, malgrado o descontentamento político das respetivas oposições, em função dos valores dispendidos e dos resultados militares aquém dos aguardados. Apesar disso, Bruxelas mesma assegurou há poucos dias a Kiev cinquenta bilhões de euros, ao programar o encaminhamento da primeira parcela até março.
No de Moscou, não existe apoio externo similar, ainda que não se possa desconsiderar o socorro indireto providenciado por exemplo da China, ao adquirir em grande proporção barris de petróleo, a ponto de tornar a Rússia a maior fornecedora — cerca de um quinto das importações correntes — ao superar até a Arábia Saudita.
Em um polo, ocorre a convergência da defesa da democracia formal pela vasta coligação norte-atlântica, materializada na proteção da Ucrânia; em outro, a aproximação do autoritarismo ásio-europeu, independente do regime oficial subscrito ou reconhecido pelo sistema internacional — capitalismo ou comunismo.
Na transição atabalhoada da União Soviética para Rússia nos anos noventa, duas instituições essenciais da gestão nacional ou melhor federada desintumesceram a olhos vistos de modo simultâneo, embora em ritmo distinto: o Partido Comunista, considerado pela população como responsável pelo fracasso da administração, e as forças armadas, avaliadas como decepcionantes por causa do insucesso na Guerra do Afeganistão.
A derrota da tentativa de renovação política e econômica de Mikhail Gorbachev, o último secretário-geral do PC, desembocaria na erosão da poderosa agremiação comunista e na instituição improvisada do multipartidarismo onde se destacaria o neoliberalismo a ser encabeçado por Boris Yeltsin, egresso da burocracia.
O revés militar em solo afegão, após um decênio de presença, com o propósito de patrocinar a implementação do comunismo e, ao mesmo tempo, de barrar a ascensão do fundamentalismo e o desmantelamento gradativo do Pacto de Varsóvia com o retorno dos batalhões para a federação em fragmentação desaguaria na expectativa de ampliação da entidade adversária, a Organização do Tratado do Atlântico Norte.
Como mencionado, Yeltsin sucederia Gorbachev no posto máximo. Com a substituição, a sisudez ou a antipatia tradicional dos dirigentes russos desapareceria no cotidiano da opinião pública local e planetária. Malgrado a esperança inicial, a passagem de um tipo de governo para outro ocorreria de forma desastrada.
Respeitado ou temido durante o período soviético, a depender do ponto de vista, observar-se-ia o Kremlin a partir da ascensão de Yeltsin como algo caricatural. A transformação socioeconômica traria consigo custo alto ao povo, ao beneficiar de maneira célere reduzida parcela da sociedade. Assim, a Rússia não aparentaria ingressar no primeiro, mas no terceiro mundo.
Nos meios de comunicação de todo o planeta, representar-se-ia a opulência restrita da Rússia capitalista nos denominados oligarcas, executivos enriquecidos de setores conectados com o processo de privatização. Parte dos novos bilionários havia tido estreita vinculação pessoal ou trabalhista com o regime fracassado.
Modificar-se-ia aos poucos a visão burlesca da classe governante recém-instalada, quando da chegada ao cargo de primeiro-ministro de Vladimir Putin. Com ele, a circunspeção retornaria e o tom por que não enigmático também! Ele se originava do segmento mais atemorizador do funcionalismo: a KGB, órgão responsável pela segurança política do Estado.
O funcionamento do influente organismo equiparava-se ao dos demais entes das grandes potências no tocante à confidencialidade parcial de dados concernentes a orçamento, quantitativo de integrantes e distribuição de atividades, conquanto no Ocidente comissões parlamentares permanentes tivessem acesso a eles, embora de modo reservado. À guisa de lembrança, registre-se no Senado dos Estados Unidos a Comissão sobre Segurança Interior e Assuntos Governamentais.
A atuação da atemorizadora agência soviética abarcava o país e o exterior, ao utilizar de forma intensa tecnologia de ponta e servidores bem selecionados e treinados em diversas funções como costuma acontecer com as burocracias das principais potências.
Destarte, a KGB patrulhava as fronteiras continentais, supervisionava ou antes vigiava dissidentes em solo nacional ou externo, espionava governos adversários e até aliados, ao infiltrar agentes ou cooptar cidadãos locais, protegia a nação da investida de serviços secretos afamados como CIA, NSA, DGSE e MI-6, por exemplo, disseminava (contra)informações, secundava a diplomacia e as forças armadas no dia a dia etc.
Com patente mediana na organização, a de tenente-coronel após dezessete anos de carreira, o próprio Putin era lotado na extinta Alemanha Oriental, ao tempo do encerramento da rivalidade bipolar, até retornar ao país e ingressar na política municipal.
Em suma, propunha-se o prestigioso serviço secreto a resguardar a todo custo a União Soviética de eventuais tentativas de lesa-pátria ou de ‘lesa-revolução’ derivadas de insatisfações, traições, maquinações, boicotagens etc, quer de dissidentes da sociedade, quer de inimigos como os dos países anticomunistas.
Com a extinção do comunismo, haveria a reconfiguração administrativa do órgão, com o propósito de adaptá-lo à nova ordem global. O acrônimo seria até trocado — de KGB para FSB — conquanto seu alcance, não.
Com um de seus ex-funcionários no poder há tantos anos, é improvável que ela não tenha mantido prerrogativas similares às do passado e, por conseguinte, suas tradições como a de eliminar de modo inaudito contestadores do governo.
Sobre o autor
Virgílio Caixeta Arraes: graduado, mestre e doutor em história pela Universidade de Brasília e pós-doutor em história pela Université de Montréal (Canadá). Professor Associado da Universidade de Brasília.

