Guerra da Ucrânia: desgaste da cobertura midiática
Virgílio Caixeta Arraes

O noticiamento do conflito ucraniano-russo deve ser mais velado nos dias vindouros em função da instalação do período invernal, estação natural de quase interrupção de manobras amplas pelos batalhões dos dois polos em disputa territorial — porém, isso não impediria investidas ocasionais direcionadas à infraestrutura como maneira de debilitar a resistência citadina e, destarte, enfraquecer o moral das tropas estacionadas nas frentes avançadas.
Já o é no momento, em decorrência da atenção dos meios de comunicação à recente confrontação no Oriente Médio, local no qual o impacto da cultura, como a religião, e da economia, como a extração do petróleo, é mais profundo ao Ocidente se comparado ao do leste da Europa.
No entanto, a envergadura da guerra em solo europeu é maior, ao envolver combates extenuantes entre forças armadas de peso, projetados, por sua vez, na conquista de áreas extensas nas quais a população divide-se de modo desproporcional entre pessoas de origem ou de constituição russa e os de ascendência ou influência ucraniana.
Informações dos dois países são imprecisas devido à forma de divulgação, ao se integrar às necessidades militares; portanto, o emprego de notícias pode ser incidentalmente manipulado, ao se buscar apoio de governos em tratativas diplomáticas e simpatia de sociedades na circulação de notícias. Conquanto com reservas, estimam-se as comunidades russófilas nas terras invadidas em torno de um quinto do total de habitantes.
Embora o reflexo da história remota na política atual seja pequeno, a elite moscovita lembra, uma vez que lhe é bem conveniente, a origem comum de russos, ucranianos e belarrussos: a Rússia de Kiev. Fundada na Idade Média por Olegue, príncipe escandinavo talvez pertencente à família de outro dignatário de maior importância naquela época: Rurik ou Rodrigo. O núcleo moscovita só substituiria o quievita a datar do século treze em face da devastação decorrida das investidas dos canatos próximos.
Contudo, os laços ucranianos não se resumiam aos russos, ao se relacionar sua aristocracia local com a polonesa, ainda no final da Idade Média, e depois com a lituana. A aliança seria materializada da conjugação do reino da Polônia com o grão-ducado da Lituânia — enfim, seria a República das Duas Nações ou União de Lublin.
Em meados do dezessete, dirigentes ucranianos iriam preferir a autoridade russa à polonesa, de sorte que se estabeleceria o alvorecer do entrelaçamento entre os dois aparentados povos sem sobressaltos de monta até a emergência da I Guerra Mundial. Derrotada no confronto pela Tríplice Aliança, a monarquia seria extinta com a vitória da revolução comunista em outubro de 1917.
Com a transformação, a corrosão maior do relacionamento ocorreria durante a administração de Josep Stálin no rígido processo de estatização das unidades rurais da União Soviética nas décadas de 1920 e de 1930: nenhuma das duas maneiras adotadas, colcoz e sovcoz, agradaria o proprietariado, categoria ampliada nos primeiros anos do século passado com o propósito de fortalecer a decadente dinastia Romanoff.
O reflexo da modificação se revelaria na larga crise de produção agrícola e, por conseguinte, na incapacidade do regime de prover a alimentação ao povo. Devido à conformação das estatísticas daquela fase, não se pode cravar com precisão a cifra do morticínio, fixada na memória geral ucraniana como Holodomor.
A tragédia do período soviético costuma ser relembrada no quarto sábado do mês de novembro — não teria sido coincidência de data o ataque maciço do Kremlin à capital com inúmeros drones de procedência iraniana, segundo Mariyinsky.
Com a recuperação da autodeterminação da Ucrânia na esteira da extinção da União Soviética em 1991, a Rússia perderia a entrada irrestrita à península da Crimeia e à Odessa, embora mantivesse o porto de Sebastopol por duas décadas por acordo bilateral.
Isso não obstaria, no entanto, a conquista em fevereiro de 2014 da Crimeia, território no qual a proporção populacional se inverte com relação ao restante de habitantes do país agredido: avalia-se ser a maioria dos residentes de nacionalidade russa, seguida da ucraniana e, por último, da tártara como as três principais entre as dezenas lá fixadas.
Com o intuito de assegurar para si a região, passaria a controlar o abastecimento de água, o fornecimento de energia e o acesso a linhas de comunicação. Semanas após a anexação, seria a vez da incorporação de Sebastopol à soberania moscovita por plebiscito coordenado pelo próprio Kremlin.
O planejamento da absorção definitiva teria derivado do conteúdo de cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em 2008 na Hungria, ao ter ela acenado em admitir Ucrânia e Geórgia à instituição.
O próximo passo da administração quievita rumo ao oeste do continente seria aproximar-se de Bruxelas por acordo de livre comércio em 2013. Malgrado a rejeição inicial dessa negociação comercial, haveria a substituição no Executivo no mesmo ano de Viktor Yanukovitch, dirigente inclinado à órbita da Rússia por Petro Poroshenko, mandatário simpático à União Europeia (UE).
Acender-se-ia, deste modo, a luz amarela ao presidente Vladimir Putin, decidido a partir dos acontecimentos citados a subscritar posicionamento belicista em ritmo crescente até a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022. O relativo desaparecimento do conflito nas últimas semanas nos meios noticiosos favorece sem hesitação Moscou e Washington.
Ao primeiro, reduz-se o alcance das denúncias ou de queixas ao público global das imoderadas ações castrenses como a do ataque em turbilhões de drones com consequências no cotidiano da sofrida sociedade vizinha ao danificar o funcionamento de linhas de transmissão de várias regiões, por exemplo;
Ao segundo, diminuem as cobranças internas de auxílio a Kiev, uma vez que não se vislumbra a expectativa de nem sequer estabelecer cessar-fogo, e aumentam-lhe as margens de atuação na confrontação médio-oriental, ao descortinar a possibilidade de interrupção dos enfrentamentos ou ao menos de diminuição de embates.
Washington tem tido dificuldades de manter o nível de verbas a Kiev diante de obstáculos da oposição no parlamento, já com os olhos na sucessão da presidência da república em 2024. Assim, ela diverge da postura subscrita no leste da Europa, ao não se entusiasmar com o ingresso de nações daquela parte do continente às fileiras otanianas e com o socorro estendido ao governo de Volodymyr Zelensky.
Em 2024, a trégua propiciada pela natureza à rivalidade ucraniano-russa será trocada pela tensão da crescente divergência entre republicanos e democratas, de cuja influência nenhum dos dois contendores poderá livrar-se, mesmo a milhares de quilômetros, em vista dos interesses planetários da Casa Branca.
Sobre o autor
Virgílio Caixeta Arraes: graduado, mestre e doutor em história pela Universidade de Brasília e pós-doutor em história pela Université de Montréal (Canadá). Professor Associado da Universidade de Brasília.
