Guerra da Ucrânia: com a fadiga bélica, a necessidade iminente do cessar-fogo
Virgílio Caixeta Arraes

Resumo: texto relativo à necessidade de cessar-fogo entre os dois contendores no leste europeu, à medida que a ação militar russa fracassou com o objetivo de fundir parte do território ucraniano ao seu. Ela havia sido considerada como a única restante pelo governo de Vladimir Putin, dado o malogro da atuação diplomática, inclusa a europeia, de corte econômico, e a norte-atlântica, de matiz castrense. Após quatro anos e meio, a fadiga é visível.
No século passado, a Rússia envolveu-se em conflitos de largas proporções, sendo o maior a II Guerra Mundial, na qual ela foi a mais devastada, ao perder acima de vinte milhões de habitantes, e o mais longo a Guerra Fria, na qual ela teve de ficar de prontidão por quatro décadas diante da acirrada animosidade recíproca com os Estados Unidos, haja vista a possibilidade do emprego de armamento nuclear — com o propósito de contrapor-se à Organização do Tratado do Atlântico Norte, fundada em abril de 1949, ela instituiria em maio de 1955 o Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua, conhecido nos meios de difusão como Pacto de Varsóvia.
Entre parcela dos anos de vinte e dos de oitenta, o país conseguiu preservar seu imenso território, apesar das confrontações tormentosas, ainda que com redistribuição interna de áreas como havia sido o caso da Crimeia, transferida para a Ucrânia da Rússia, no primeiro semestre de 1954, em aproveitamento da efeméride do tricentenário do Tratado de Pereslávia.
O acordo fora considerado como o fundamento basilar da união dos dois povos, acérrimos inimigos desde fevereiro de 2022. Seu multissecular teor tem sido renegado por segmentos quievitas, ao enxergarem nele não instrumento viável de convergência política ou cultural, porém de pública convivência imposta.
A discordância da coexistência foi manifestada em momento de extrema tensão interna, como em junho de 1941, quando do ataque das forças armadas germânicas, secundadas por contingentes de potências menores do eixo de extrema direita. A despeito da turbulência, a movimentação nacionalista ucraniana seria contida.
Em seguida, em dezembro de 1979, a União Soviética invadiria o Afeganistão com inúmeros batalhões, não com o objetivo de alargar-se geograficamente, mas com o fito imediato de apoiar o movimento comunista local. A manobra teria êxito temporário, visto que a permanência castrense, malgrado estender-se por um decênio, revelar-se-ia infrutífera, dado que aquele regime não se consolidaria diante da oposição secular e principalmente da religiosa, auxiliada de maneira incessante pelos Estados Unidos.
Sem meta a satisfazer, restaria a Moscou retirar-se de maneira desairosa do vizinho, em face do declínio dos dois regimes de esquerda: o seu próprio, incapaz de renovar-se a partir do binômio econômico-político Perestroika (reestruturação) e Glasnost (transparência), e o afegão, inabilitado de prover a aceitação do ideário marxista em curto prazo à população.
Já na época do inadequado ingresso em terras afegãs, preocupavam-se os soviéticos com o crescimento do extremismo religioso lá, aspecto também identificado pelos estadunidenses. Como contraponto ao laicismo advogado pelo Kremlin, o financiamento da Casa Branca ao integrismo, do qual se distanciaria de modo gradativo depois da saída dos contingentes invasores a datar do primeiro bimestre de 1989 e da queda em abril de 1992 do governo comunista local.
Sem longa espera, a maior congregação fundamentalista, o Talibã, chegaria ao poder máximo em setembro de 1996. Com o atentado terrorista de setembro de 2001 a cidades norte-americanas, ela se transformaria em inimigo figadal dos Estados Unidos, que retaliariam em seguida à investida aérea com a invasão do Afeganistão no mesmo ano sob força multilateral.
De volta ao período da Guerra Fria, a decadência soviética resultou na virada da década de oitenta para a de noventa não em fulgurante renascimento russo, com manutenção das fronteiras tradicionais, por exemplo, porém em fragmentação da vastíssima área, composta ao longo de séculos em disputas constantes contra impérios nos dois continentes, em dezena e meia de países, entre os quais, na parte europeia, estavam Ucrânia, Belarus, Letônia, Lituânia e Estônia.
Sem conseguir frear os movimentos nacionalistas de caráter emancipador, a expectativa mínima do Kremlin seria a de conservar as nascentes nações sob sua esfera de influência, através da cooperação técnico-científica, da proximidade diplomática e da proteção militar, uma vez que auxílio financeiro seria de difícil implementação, ao aderir sem restrição à prescrição ortodoxa de organismos internacionais econômicos e de acadêmicos norte-americanos.
Outro aspecto dificultaria a preservação da ascendência imediata por Moscou em transição acentuada de ideário, a terapia de choque, ao oscilar em diminuto tempo do comunismo cediço para o temerário capitalismo: os interesses do arco norte-atlântico, desdobrados, embora interligados, em duas firmes materializações:
A político-econômica por meio da ascendente União Europeia, ao agregar até 1995 quinze países, e a castrense através da robustecida Organização do Tratado do Atlântico Norte, ao abranger na mesma fase temporal dezesseis integrantes. Valer-se-iam as duas de Bruxelas como base operacional.
Do primeiro arranjo, a propagação de diretrizes neoliberais, avaliadas como definitivas para a prosperidade material coletiva e estabilidade institucional duradoura, posto o poderio de seus três principais patrocinadores, Estados Unidos, Alemanha e Grã-Bretanha, ao passo que do segundo enlace a segurança contra ocasional recaída de desmedidas ambições russas de recomposição de suas fronteiras costumeiras, ao ter, a datar de 1999, a incorporação de Hungria, Polônia e Chéquia (em essência, a Boêmia da época austro-húngara).
Na União Europeia, ingressariam Estônia, Letônia e Lituânia. Fora do extinto círculo soviético, outras sete nações da antiga Cortina de Ferro obteriam a admissão. Na Organização do Tratado do Atlântico Norte, de novo a composição do trio báltico. No entanto, o número de participantes do leste da Europa chegaria a onze. Com isso, o desconcerto ou no mínimo a inquietação do governo russo com o progressivo alargamento dos limites otanianos.
Nas duas instituições irmanadas, a aspiração de maior peso seria a entrada da Ucrânia, quer pela vastidão territorial, quer pelo potencial de renda e de riqueza. Outrossim, existiria mais um motivo indeclarável ou inadmissível à opinião pública: fronteirar com a Rússia de modo permanente, sem que ela pudesse objetar, à primeira vista, a não ser da forma oficial: a diplomática em foros de repercussão multilateral, mas sem efeito prático.
Diante do quadro conjuntural desfavorável, a opção de levante do Kremlin foi a de guerrear com a expectativa de obtenção de vitória rápida e acachapante junto a Mariyinsky. Quatro anos e meio de combates assinalam o distanciamento da pretensão inicial.
Conquanto tenha assegurado para si até o momento três das quatro províncias almejadas da Ucrânia antes da invasão, a Rússia mantém-se a duras penas nos campos de batalha, dada a resistência persistente da nação agredida. Destarte, o cessar-fogo ofertado por Kiev repercute bem a Moscou, apesar de aparentar reticência quanto a ocasional aceite, ao questionar a legitimidade administrativa do presidente Volodymir Zelensky para sentar-se à mesa com Vladimir Putin.
Com o fracasso militar em Teerã, Washington poderia recuperar-se caso auxiliasse diplomaticamente as duas potências a firmar uma trégua. Não asseguraria prêmio Nobel da Paz a seu mercurial e boquirroto mandatário, mas iria providenciar ao menos período de serenidade à Europa para recobrar os ânimos e entabular negociações com o fito de suspender de forma definitiva o conflito.
Sobre o Autor
Virgílio Caixeta Arraes: Graduado em História pela Universidade de Brasília (1994), mestre em História pela Universidade de Brasília (1998), doutor em História pela Universidade de Brasília (2005) e pós-doutor em História pela Université de Montréal (2017). Professor Associado da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de História, com ênfase em Estados Unidos: História.
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