Guerra da Ucrânia: aos três anos, a oscilação à Rússia
Virgílio Caixeta Arraes
Resumo: Texto relativo aos três anos da Guerra da Ucrânia, ao relacioná-la, ainda que de modo breve, também com a efeméride dos oitenta anos do encerramento da Segunda Guerra Mundial. No balanço provisório da confrontação entre os países irmãos, o pêndulo inclina-se favorável a Moscou, dado que Washington tende a abandonar Kiev e por conseguinte ser seguido por Bruxelas. É possível que o ciclo de governos pró-ocidentais no leste da Europa caminhe ao fim.
2025 traz consigo a efeméride do encerramento da Segunda Guerra Mundial há oitenta anos em duas etapas: em maio com a capitulação da Alemanha nazista e em setembro com a rendição do Japão, em seguida ao inédito ataque dos Estados Unidos com artefato nuclear a duas de suas cidades, Hiroshima e Nagasáqui, com dezenas de milhares de mortes e incontáveis feridos.
O incomum poderio de devastação das novas armas intimidaria a única potência rival daquele momento: a comunista União Soviética, cuja extinção decênios depois não ocorreria nos campos de batalha, porém nos de negociação, ao desfrutar de modo insuficiente do apoio do Ocidente para a tentativa de revigoramento político e econômico do regime.
No transcorrer de sua extinção, haveria a fragmentação acelerada do território outrora soviético em mais de uma dezena de países, entre os quais a Ucrânia, avaliada por uns como parte indissolúvel da Rússia histórica, ao se registrar a fundação (mítica) da nação ao cabo do século nono.
A partir da perspectiva de que a dissolução implementada nos anos noventa teria sido inadequada pela administração de Boris Yeltsin, Moscou, a datar da chegada ao Kremlin de Vladimir Putin na virada de 1999 para 2000, egresso do quadro do oficialato da antiga KGB, preparar-se-ia no decênio seguinte para recuperar aos poucos áreas da vizinha.
É necessário recordar que a Rússia da década de noventa em troca do agigantado e acelerado processo de privatização teria o reconhecimento do arco norte-atlântico. Ao invés de ser país considerado autoritário, teria por suposto legitimidade de democracia à moda ocidental, com o aceite de suas eleições como livres e passíveis de verificação por observadores internacionais.
Fiador da transição atabalhoada do comunismo para o capitalismo, Yeltsin asseguraria a reeleição em 1996, porém sem o entusiasmo de antes dos aliados capitalistas. Nem a desestatização atrairia de maneira positiva a atenção, por ser restrita a pequeno grupo — no futuro, alcunhados de modo negativo de oligarcas. O desprestígio seria ascendente e restar-lhe-ia ceder parte do poder.
As consequências do ataque terrorista do 11 de setembro de 2001 a localidades norte-americanas beneficiariam o círculo de Putin, em decorrência também de sua origem no serviço público: a da espionagem.
Ao alterar a legislação, via Lei Patriota de outubro daquele ano, a Casa Branca estabeleceria tratativas, mesmo informais, com as maiores potências, entre as quais o Kremlin, em busca da identificação e da contenção de lideranças extremistas por aprisionamento, ainda que em cárceres reservados como o de Guantánamo, ou até por assassínios.
Com a proximidade, a repressão à oposição ou à dissidência em muitas nações ampliar-se-ia em função da transformação parcial do antagonismo político em possível transgressão criminal, ao associá-la a eventuais redes de terrorismo.
Com isso, governos teriam maior liberdade de ação, inclusos os movimentos exteriores. No caso da Ucrânia, o afastamento junto à Rússia e Belarus havia ocorrido entre o final de 2004 e o começo de 2005, com a chamada Revolução Laranja, comandada por Viktor Yushchenko.
Destarte, em março de 2014, implementar-se-ia a absorção da Crimeia com o pasmo da sociedade internacional devido à forma da atuação e da velocidade e em fevereiro de 2022 executar-se-ia a invasão de parcela relativa a um quinto da jurisdição de Mariyinsky com assombro de novo da comunidade, embora sem a eficiência da investida anterior.
Com três anos de combates incansáveis, as duas sociedades encontram-se exauridas, a despeito da exaltação de cada governante sobre seu êxito na confrontação. Sem o auxílio frequente da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, a Ucrânia teria mais dificuldades de defender-se da Rússia.
Dada a persistência de Moscou na arena militar, Bruxelas e Washington dedicaram-se a refletir sobre a conveniência de manter a ajuda de alto custo à valiosa parceira, estimada como fundamental para integrar as fileiras da Organização do Tratado do Atlântico Norte quando cotejada com as repúblicas bálticas ou polonesa.
Um objetivo do eixo norte-atlântico já teria sido alcançado, no entanto: o desgaste político e econômico da longeva gestão de Vladimir Putin. Como desdobramento, mesmo com a anexação de províncias ao seu domínio, os gastos com a recuperação dos territórios serão bastante significativos e causarão sem hesitação dificuldades durante muito tempo com a consequência da ampliação da impopularidade.
Outrossim, não se definiu por consenso entre os envolvidos o status da população de ascendência ucraniana diante da alteração de soberania. Apresentam-se à mesa possibilidades como a de emigrar com segurança, porém sem garantir a preservação justa do patrimônio ou do relacionamento com familiares; a do direito de escolha da nacionalidade ou a da mais desfavorável a ela, isto é, a da eventual imposição de aceitar-se como russa.
À proporção que os dias passam, afunilam-se as alternativas de Kiev, posta a indisposição de Washington de socorrê-la sem contrapartida imediata, haja vista o desejo de explorar terras raras de onde se poderiam extrair, por exemplo, lítio e titânio como indenização aos armamentos encaminhados no decorrer do confronto.
Sem os norte-americanos, a tendência dos europeus é a de distanciar-se também, malgrado a recente declaração do primeiro-ministro espanhol de solidariedade. O estado de espírito é o de desânimo, porque o destino de Volodymyr Zelensky encontra-se atrelado ao grau de perda territorial na disputa. A expectativa de mudança de supetão a seu favor no andamento dos extenuantes enfrentamentos é mínima (The Presidential Office of Ukraine 2025).
Assim, a humilhação pública por sua maior associada, a Casa Branca, coroa o declínio do dirigente, respaldado de maneira interna por medida frágil, por ter ele suspendido as eleições do país ainda em fevereiro de 2022, quando da invocação da lei marcial (Ducourtieux e Ricard 2025). Como desdobramento, não haveria em outubro de 2023 o pleito para o parlamento e em março de 2024 para o da presidência da República.
Isto posto, a pressão para a substituição do mandatário irá intensificar-se nas próximas semanas, uma vez que a chance de expulsão da nação agressora diminui. Um anunciado concorrente ao posto é Peter Poroshenko, ex-presidente entre 2014 e 2019, cuja coligação identifica-se com o ideário da União Europeia, de sorte que a tolerância com sua permanência em Mariyinsky sem prazo firmado deve encolher.
Referências
Ducourtieux, Cécile, e Philippe Ricard. 2025. “Europe, Shocked by Explosive Trump-Zelensky White House Row, Prepares for a Decisive Summit.” Le Monde, Mar. 1, 2025. https://www.lemonde.fr/en/international/article/2025/03/01/europe-shocked-by-explosive-trump-zelensky-white-house-row-prepares-for-a-decisive-summit_6738706_4.html.
The Presidential Office of Ukraine. 2025. “President Zelenskyy Had a Phone Call with the Prime Minister of Spain.” The Presidential Office of Ukraine, Fev. 13, 2025. https://www.president.gov.ua/en/news/prezident-proviv-telefonnu-rozmovu-z-premyer-ministrom-ispan-96033.
Virgílio Caixeta Arraes: Graduado em História pela Universidade de Brasília (1994), mestre em História pela Universidade de Brasília (1998), doutor em História pela Universidade de Brasília (2005) e pós-doutor em História pela Université de Montréal (2017). Professor Associado da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de História, com ênfase em Estados Unidos: História.
