Guerra da Ucrânia: adequar-se à fadiga da confrontação
Virgílio Caixeta Arraes

A fragmentação em turbilhões da União Soviética (URSS) não acarretou o firmamento de democracias à moda norte-atlântica nas inúmeras comunidades germinadas a datar da década de noventa. A mais extensa, a Rússia, não costuma ir muito acima do revestimento do necessário regime, ao proporcionar eleições de maneira periódica com o propósito de ratificar o nome de Vladimir Putin para o cargo máximo da República.
As de menor extensão, como Letônia, Lituânia e Estônia, aparentam aproximar-se das tradicionais diretrizes euro-ocidentais, ao passo que o restante varia na configuração democrática como Ucrânia, Moldávia ou Armênia ou na impositiva como Turcomenistão, Belarus/Bielo-Rússia, Azerbaijão ou Cazaquistão, à guisa de citação.
A extinção da federação comunista ocorreu devido à convergência da elite russa, bielo-russa e ucraniana, ao ser materializada a dissolução em entendimento firmado há trinta e dois anos e conhecido como Acordo de Belaveja. Naquela época, a preocupação primaz não era o molde político das nascentes nações, porém a conformação militar, em decorrência do abrigo do arsenal nuclear soviético.
Com a tratativa diplomática, compôs-se nova associação e, destarte, supunha-se que Moscou não vislumbraria ambições territoriais em suas fronteiras, mesmo em locais onde a população fosse na maioria russófila ou de ascendência russa.
Embora bem duradoura, a união, nem sempre voluntária, de sociedades como a moldava, as bálticas, a bielo-russa e a ucraniana à russa, ora monárquica, ora comunista, jamais desembocou na consideração de identidades nacionais em extinção, malgrado enfraquecidas.
Diante disso, havia o esforço de conservar a cultura ao preservar o idioma e a duras penas a religião, a despeito de repressão mais recente como a do ciclo soviético quando o deslocamento forçado de lideranças nacionalistas, religiosas ou anticomunistas a campos de ‘reeducação’, isto é, a unidades prisionais era useira e vezeira — os afamados gulagues, imortalizados nas obras de Alexander Soljenitsin, Nobel de Literatura de 1970.
De modo paralelo, a tradição comunitária chocava-se com a implementação do sistema de russificação, processo sociocultural desenvolvido desde o czarismo do período dos Romanovs, por que se colonizavam regiões incorporadas com famílias ou com vigilância ou supervisão do serviço público civil e militar, encarregada de propagar os valores do Kremlin e de zelar por eles.
Na monarquia, acrescente-se ainda que o governo imperial dispunha da estreita parceria da Igreja Ortodoxa vinculada ao Patriarcado de Moscou com o estabelecimento de seminários. O próprio Josep Stálin em sua juventude na Geórgia havia sido alfabetizado no idioma oficial, não materno, em um deles. Na Ucrânia, recorde-se, a maioria da população era uniata, ou seja, ortodoxa, mas submetida à autoridade de Roma.
No comunismo, com a distribuição do operariado ao longo do território nacional à medida que a produção industrial se ampliava e se espraiava, o Politburo acreditava desfrutar de elementos para transformar o país de acordo com a perspectiva revolucionária original;
Se nos Estados Unidos a disputa costumeira na política acontecia no delineio dos distritos eleitorais, na União Soviética era no contorno das áreas econômicas, de sorte que ocasionais insatisfações nacionalistas pudessem ser rebatidas.
Posto que a fundação da União Soviética tenha ocorrido em essência com o auxílio de estadistas russos, bielo-russos e ucranianos, a formação sucedânea da monarquia não teria funcionado como associação trabalhista de fato, porém com a centralização do poderio cotidiano nas mãos da burocracia filomoscovita.
De forma geral, localidades como a ucraniana, belarus ou bálticas situavam-se entre as de melhor qualidade de vida durante a fase comunista, conquanto o sério percalço no caso kievita em função da tragédia atômica da usina de Chernobyl, motivo persistente de preocupação mundial por causa do conflito ucraniano-russo.
Portanto, não havia a vontade de fundir-se de maneira definitiva ao poder central, isto é, de aderir ao pan-eslavismo ou ao sovietismo sob autoridade moscovita, com a consequência de que se compusesse novel unidade política.
A inspiração de tais nações direcionava-se ao decurso da independência da Finlândia em 1917 e da Polônia em 1919. Ambas haviam sido russas por mais de um século e isso não as havia impedido de manter suas características nacionais.
Na dissolução da administração destrambelhada de Mikhail Gorbachev, a recuperação da autodeterminação de inúmeros povos finalmente viria, apesar do desgosto dos últimos partidários férreos do regime soviético.
Naquela altura, a inquietação principal de Moscou era com o revigoramento da economia por caminho alternativo ao planejamento de médio prazo, isto é, a trilha do capitalismo, de sorte que a busca de autonomia das antigas repúblicas seguiria de maneira inexorável e aparentaria ao planeta ser exequível e por que não pacífica.
Assim, em virtude da esperança de revitalizar o país, o Kremlin, com o apoio explícito do arco euro-americano, subscreveria de modo frenético neoliberalismo com desburocratização acelerada e privatizações apressadas.
Sob ascendência tumultuada e agitada de Boris Yeltsin, sucessor de Gorbachev, a gestão iria aos trancos e barrancos até o final dos anos noventa — naquele período, haveria a reeleição do dirigente em 1996, a grave crise econômica de 1998 e ao cabo a assunção de Vladimir Putin ao cargo de primeiro-ministro em 1999.
Na virada de 2023 para 2024, a exaustão abarca os dois polos combatentes. O cerrado inverno garante aos governos tempo mínimo para avaliar a situação e preparação com o fito de traçar os próximos movimentos.
Na época da invasão, seria possível que em fevereiro de 2022 Vladimir Putin pretendesse em escala menor emular o ingresso triunfal de Alexandre I em Paris em 1814, após derrotar os contingentes quase adolescentes de Napoleão Bonaparte.
O condutor russo chegaria a Kiev onde negociaria os termos da rendição com o então impopular Volodymyr Zelensky e asseguraria a substituição por mandatário, mesmo temporário, conectado com os desígnios de Moscou, a recuperação em sua visão de parte de área outrora nacional e a desistência da Ucrânia de admissão junto à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Hoje, o Kremlin ainda ambiciona em torcicolos a duas das três aspirações do alvorecer da disputa, ao resignar-se a acatar a permanência de Zelensky, caso ratificado eleitoralmente pela população. É viável conjecturar que a Casa Branca também, em face da sucessão presidencial no horizonte washingtoniano.
Sobre o autor
Virgílio Caixeta Arraes: graduado, mestre e doutor em história pela Universidade de Brasília e pós-doutor em história pela Université de Montréal (Canadá). Professor Associado da Universidade de Brasília.
