Guerra da Ucrânia: a preservação da órbita política e militar da Rússia
Virgílio Caixeta Arraes

Na alvorada da década de noventa, a União Soviética (URSS) genuflectiu diante da aliança norte-atlântica, em decorrência da incontestável debilidade econômica e da descredibilidade política, apesar dos esforços de renovação na mesma hora — perestroika e glasnost — de Mikhail Gorbachev ao assumir o Kremlin em março de 1985.
Na visão de Moscou, recursos financeiros de seus antagonistas, via Fundo Monetário Internacional (FMI), assegurariam a transição do regime comunista a um menos rígido, talvez social-democrata, malgrado o sistema encontrar-se em crise havia anos na Europa, entre outros fatores, por causa das consequências bastante adversas dos dois choques do petróleo do decênio anterior (1973 e 1979).
No olhar do eixo Washington-Bruxelas, auxílio significativo em dinheiro só se ocorresse a transformação do comunismo soviético para o capitalismo ocidental, de preferência o emergente daqueles anos: o neoliberal, caminho trilhado de modo respectivo por Grã-Bretanha, com Margaret Thatcher, Estados Unidos, com Ronald Reagan, e Alemanha com Helmut Kohl. Os três dirigentes haviam iniciado fase cuja ufania seria alcunhada de fim da história.
Não obstante o ajoelhar-se da elite socialista perante a contraparte capitalista, a ruína viria porque não ocorreria a ajuda ansiada — não se observava tamanha humilhação ao povo russo havia muito tempo; ela não se resumiria à ideologia ou economia, ao trazer consigo acelerada fragmentação da união política de quase três quartos de século, por seu turno, reverberada no estabelecimento de mais de uma dúzia de nações, entre os quais a Ucrânia, objeto desde fevereiro passado de cobiça da Rússia.
Mesmo com o desaparecimento do rival mais acerbo do século vinte, haja vista a ausência até da possibilidade de confronto direto com os russos em face do poderio a ser enfrentado como o nuclear, parcela da nata norte-americana não se conformaria ainda com a eliminação do inimigo, de sorte que a perspectiva de isolar o recém-nascido país seria dificultar sua integração com Europa, Estados Unidos e Japão.
A recente ‘Cortina de Ferro’ seria defendida pelo segmento neoconservador, hoje em baixa depois de inúmeros fracassos na formulação e na execução da política exterior durante a dupla gestão republicana de George Bush Jr (2001–2009). Naquele período, o grupo situava-se na oposição diante do mandato inicial de Bill Clinton, porta-voz da renovação dos democratas, ainda que sem progressismo sociopolítico de fato.
A par da malquerença com vistas à cooperação econômica duradoura, malgrado o potencial do mercado consumidor moscovita, o maior do continente, o agrupamento neocon se posicionaria em seu modo de ver de maneira cautelosa; no entanto, no horizonte de outros setores acadêmicos, sua posição seria antes pessimista.
A despeito das duas opiniões opostas, a grei reacionária ambicionaria valer-se da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para manter a Rússia intimidada e, destarte, recolhida.
Não seria fácil naquela altura avaliar o grau necessário de contenção dos republicanos neoconservadores, uma vez que, a depender do grau de pressão sobre os russos, nova secessão poderia ser desencadeada com efeitos imprevisíveis, ao ter em mente o destino de um dos dois maiores arsenais atômicos do planeta.
Como contraponto ao eventual distanciamento à força ao Kremlin, pôs-se à mesa a defesa da aproximação dos democratas, pela Casa Branca, por motivo militar igual: a impremeditação das consequências de ocasional divisão territorial. Por isso, a disposição expressa de relacionar-se com a administração de Boris Yeltsin e com as demais derivadas da extinção soviética, embora aos trancos e barrancos.
Na dimensão russa, o afastamento ou a adjacência do Ocidente — ou melhor, dos Estados Unidos — seria fundamental para aceitar ou rejeitar sua configuração geográfica na nova ordem mundial. Nessa toada, poder-se-ia abstrair no momento a medida de ‘russificação’ de regiões como a báltica ou a caucasiana, áreas reconhecidas, mesmo de forma oficiosa, por Moscou como culturalmente distintas, apesar de integração ao império por séculos.
Conduta dessemelhante seria com duas nações: Belarus — outrora Bielo-Rússia — e Ucrânia. A acomodação com ambas decorreria da proximidade política e outrossim militar. O pan-eslavismo tradicional permitiria abrigar manifestação de diferenças no cotidiano, em especial no tocante com as de Kiev.
Com a chegada de Vladimir Putin ao poder como primeiro-ministro, a partir de maio de 2000, alterar-se-ia o deslocamento do pêndulo russo-norte-americano, de maneira que o mandatário se inclinaria no sentido de afastar o Kremlin da Casa Branca. Por conseguinte, com a desunião diplomática entre os dois grandes polos de poder, adviria o desejo de recomposição territorial, conquanto sem enunciá-lo de modo explícito às potências do globo.
Em decorrência da conjuntura da época, a ação russa seria iniciada no Cáucaso, ao preservar a Chechênia após uma década de pesados conflitos (1999–2009) pela independência e ao investir na Geórgia em 2008, a fim de desestimulá-la de compor o organismo otaniano.
Confiante, a Rússia extrairia da Ucrânia a Crimeia em 2014 ante o acompanhamento a distância do atordoado eixo norte-atlântico em função da rapidez das manobras castrenses. Com a conquista, ela iria garantir por seu turno maior segurança no mar Negro e não seria afetada no dia a dia — abrigaria sem restrições em 2018 a Copa do Mundo.
É possível especular que o Kremlin durante o ápice da pandemia do vírus corona tenha planejado a anexação definitiva das duas províncias, Donetsk e Lugansk, ao escorar-se no sucesso bélico crimeano, e tenha ambicionado executá-la com o mundo ainda temeroso quanto aos desdobramentos do flagelo virótico, de sorte que suas forças armadas invadissem o território ucraniano sem tempo de reação das potências europeias com o fito de dissuadir a invasão.
A autoconfiança russa desaguaria em duas frentes de combate com resultado desigual. Em uma, êxito relativo, ao absorver até o momento a maior parte das duas áreas almejadas; em outra, o malogro, ao fracassar na derrubada da presidência da República Volodymyr Zelensky sob justificativa de preparar-se para ingressar na OTAN e de patrocinar a extrema direita do país ou então de omitir-se com relação a ela.
Rememore-se não ser Zelensky o primeiro a arredar-se do campo russófilo; basta mencionar o antecessor imediato, Petro Porochenko, cuja gestão havia avançado no processo de aproximação com a União Europeia (UE) e no nacionalismo, ao estendê-lo à religião ortodoxa inclusive.
Com o desaparecimento do Pacto de Varsóvia em 1991, a zona tampão da Rússia já não seria Polônia, Hungria, Checoslováquia e Romênia, porém Moldávia, Belarus e Ucrânia; por isso, a aspiração de que elas se mantivessem em sua órbita, mesmo sem integração político-econômica plena.
Até a usurpação de fevereiro de 2022, o modus operandi moscovita para viabilizar laços duradouros seria o energético, ao subsidiar o fornecimento de gás. No caso quievita, seria o agrícola, ao prover insumos para a fabricação de fertilizantes do maior produtor continental.
Avaliadas como insuficientes as duas medidas, dado o interesse fervoroso de admissão de Kiev a Bruxelas otaniana, Moscou optou por preservar sua segurança fronteiriça e por que não também alimentar da maneira mais lamentável, ao utilizar força desmesurada, não exercício do diálogo.
Sobre o autor
Virgílio Caixeta Arraes: graduado, mestre e doutor em história pela Universidade de Brasília e pós-doutor em história pela Université de Montréal (Canadá). Professor Associado da Universidade de Brasília.
