Guerra da Ucrânia: a persistência da tradição
Virgílio Caixeta Arraes

Situada entre Ásia e Europa, é truísmo afirmar ser a Rússia nação acostumada a pelejar; afinal, desde a primeira metade do século treze, quando tártaros e mongóis conquistaram boa parte do país sob o comando de Batu Cã, neto paterno de Gengis Cã/ Khan, a população local organiza-se com o propósito de resistir a avanços de povos fronteiriços e mais tarde de retomar as terras perdidas.
Contudo, em decorrência da insuficiência castrense, mesmo temporária, a diplomacia apresentava-se pari passu; por isso, a elite russa firmaria acordos por que pagava tributos à Horda Dourada, assim chamada por ela. Destarte, conseguiria ela deter constantes impulsos bélicos de suecos, bálticos, poloneses e germânicos em busca da anexação de territórios ou de saques ocasionais.
Moscou, entre inúmeros principados daquela vasta região, seria o centro da insubordinação aos invasores, a despeito da existência de localidades como Kiev/Quieve ou Novgorod/ Novogárdia, menos afetada pelos ataques próximos e mais próspera.
Um significativo elemento da identidade em face da presença do agressor estrangeiro seria a religião: a ortodoxia cristã diante do islamismo, do budismo ou mesmo de outra visão do cristianismo, acolhidos entre dirigentes das demais nacionalidades lindeiras.
O processo de expulsão dos ocupantes levaria quase duas centenas e meia de anos. Em concluída a reconquista, Ivan III se consideraria aspirante natural das possessões da Horda de Ouro nas cercanias, de forma que tropas moscovitas teriam embates também contra as vizinhas.
Seu neto, grão-Príncipe de Moscou, Ivan IV — numerado deste modo pela pena do século dezenove de Nikolay Karamzin em sua sintética Memória sobre a Rússia moderna e antiga e responsável outrossim pela sua consagrada alcunha de o terrível — seria a datar de 1547 indicado como o primeiro tsar.
Não há até os dias atuais consenso sobre qual grafia seria a mais adequada no vernáculo para o título empregado por russos e búlgaros — tzar, tçar, csar, czar ou sar — em virtude de qual seria a origem etimológica, ao ter a possibilidade de derivar-se de caesar, cazar/ cázara ou sor/sar.
De lá para cá, ela expandiu-se a ponto de tornar-se o maior do globo, apesar dos recentes reveses territoriais, depois da extinção da União Soviética (URSS), materializado em dezena e meia de nações, entre as quais a própria Ucrânia, vítima do assalto inesperado em fevereiro de 2022.
Além disso, a Rússia nunca se afastaria do autoritarismo ou do totalitarismo, concentrado o poder de decisão no ramo executivo, malgrado o regime: monarquia até 1917 ou comunismo até 1991, a despeito da relativa proximidade geográfica com povos de tradição iluminista, por exemplo.
A datar da década remanescente do último século, o verniz local seria de tom democrático liberal, porém bem delgado. Na prática, a população continua a viver em país ainda infenso ao quadro político e econômico rotineiro do outro lado do continente, assinalado sob a chancela da União Europeia (UE).
Potências contemporâneas, desde que democráticas, costumam depender do congraçamento do Executivo e do Legislativo para desencadear ações militares, em especial as de grande vulto, porque a pressão do eleitorado será constante por abarcar assuntos sobre os quais recairão impactos em seu cotidiano como o alistamento de parentes ou destinação de verbas de setores da saúde, da educação ou de transporte para financiamento da guerra.
Após um ano de confrontação, a despeito de previsões de jaez pessimista dos meios de comunicação norte-atlânticos e de servidores civis e militares de administrações ocidentais, o Kremlin manteve-se de pé, ou seja, sem deixar ir água abaixo o esforço empreendido até o momento para anexar cerca de um quinto do país ora inimigo.
Apesar do registro de inúmeras adversidades nos embates, ao ser a maior a própria duração do enfrentamento com Mariyinsky, uma vez que a projeção original indicava poucas semanas de combates, Moscou adequa-se para a continuidade das batalhas.
Nesse sentido, o conflito entre os dois intensifica-se nas derradeiras semanas. Com o aumento da temperatura na região e com a troca do comando, Sergey Surovikin por Valery Gerasimov, ambos oficiais generais de quatro estrelas, a Rússia tem sido mais ofensiva, ao empregar misseis hipersônicos, difíceis de detecção por causa da extrema velocidade e da pouca altura do voo.
A par da ampliação da intensidade das investidas, circula a notícia de que o ataque ao gasoduto Nord Stream em setembro do ano passado teria sido obra de grupo filoucraniano, ainda que à margem de diretriz oficial.
Não obstante a extensão da investigação, os Estados Unidos não indicaram ao público possível autor, quer governo, quer grupo terrorista — o reparo da linha gasífera teria custado cerca de meio bilhão de dólares.
Na época das explosões submarinas, a responsabilidade segundo Varsóvia e Kiev direcionava-se para Moscou, conquanto sem ofertar provas robustas. Com o aprofundamento da apuração por países europeus, a Casa Branca demonstra maior cautela, até pela possibilidade, em se descartando os russos da autoria, de envolvimento de ucranianos, por sua vez, com ocasional conexão com a administração de Volodymyr Zelensky.
Caso isto tenha de fato ocorrido, a participação euro-otaniana na confrontação se modificaria sem hesitação, dado que seus membros tem sido bastante afetados com a interrupção do fornecimento do produto, em especial no presente inverno.
Mesmo diante da suspeita de possível conexão, Estados Unidos e Alemanha reiteraram o auxílio à Ucrânia e manifestaram preocupação com a inclinação crescente da China em prol da Rússia, concretizada na perspectiva do encaminhamento de armamentos.
Revive-se, mutatis mutandi, acontecimento do período da rivalidade bipolar quando as superpotências se enfrentavam de modo indireto como nas duradouras guerras da Coreia, de Angola ou do Afeganistão, ao prover, além das armas, assistência técnica e financiamento. Contudo, é Pequim a opositora principal de Washington.
Sem desobrigar o Kremlin da responsabilidade da atual invasão, não é recente, contudo, a expectativa de uma Rússia em cujo centro de exercício de poder se localiza Moscou avocar para si o controle ou antes a soberania de vastas terras, conquanto países reconhecidos pelo sistema internacional, entre o continente europeu e asiático.
Por conseguinte, o governo de Vladimir Putin não inicia, porém revive aspirações multisseculares de expansão geográfica enfeixadas por interesses diversos fundamentados, por seu turno, na economia, religião, política, história etc.
