Guerra da Ucrânia: a invocação da causa multilateral para a invasão
Virgílio Caixeta Arraes

A disputa entre Rússia, agressora, e Ucrânia continua a duras penas às duas nações. Montaigne em um de seus ensaios — Do útil e do honesto, o primeiro do terceiro livro — registrou o desalento com os confrontos civis, ao recorrer com maestria à história antiga, a fim de arrolar variados exemplos de grandeza e também de tragédia entre rivais.
Volteou assim o constrangimento de tratar das dramáticas desavenças entre compatriotas de seu tempo, separados de maneira resoluta em católicos e em protestantes, sob embates de três príncipes de igual prenome: Henrique. O lamento se fundamentava na considerada incontornável divisão de familiares e de amigos em torno da cisão da religião cristã.
Duas justificativas principais embasam a rejeitada ação militar de Moscou contra Kiev: a multilateral relaciona-se com a ocasional participação da adversária na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), fundada em 1949, e a bilateral direciona-se à circulação de grupos de extrema direita em solo ucraniano.
Derrotada a União Soviética (URSS) de modo surpreendente na virada da década de oitenta para a de noventa, a expectativa entre os dois antagônicos blocos — democracia ao oeste e autoritarismo ao leste da Europa — havia sido a de não ocorrer a expansão das filiações otanianas junto a ex-integrantes da vasta federação socialista.
Sem o comunismo oficial no continente, a base de atuação do organismo castrense necessitaria de atualização, a não ser que se aceitasse sua dissolução, conquanto gradativa. A opção capitaneada pelos Estados Unidos (EUA) seria a de substituir de forma tácita uma ideologia, o socialismo real, por um país, a Rússia, mesmo se desejosa ela de conectar-se à ordem vigente naquela altura, isto é, a democrática neoliberal.
Seria, portanto, medida preventiva, caso a adesão do Kremlin ao ideário político-econômico da Casa Branca malograsse. Com a transição do bastão de Boris Yeltsin para Vladimir Putin, a visão de precaução ou de desconfiança impulsionar-se-ia no polo ocidental, em essência no membro mais distante do território moscovita: o washingtoniano.
Os primeiros passos do deslocamento rumo à circunscrição da finada União Soviética aconteceriam com o ingresso das três nações bálticas, Estônia, Lituânia e Letônia, em março de 2004. Anteriormente, a suspeita de Moscou já se amparava em face da intromissão da organização militar nas rixas entre os componentes da extinta Iugoslávia como Sérvia, Croácia e Eslovênia.
Com o êxito da admissão da trinca, a Ucrânia, em se desconsiderando a entrada de países do outrora Pacto de Varsóvia, como Polônia, Hungria e Chéquia, seria aquisição de maior importância e polêmica.
A Cúpula de Bucareste da OTAN em 2008 havia autorizado a inscrição de Kiev e de Tiblíssi às suas fileiras, apesar da presença lá de Moscou como observadora; contudo, isso não impediria o aceite da matrícula da dupla, embora na prática suspenso em decorrência do indisfarçável incômodo do Kremlin.
A movimentação seria considerada provocação desnecessária — era o último ano da gestão de George Bush, erodida ela por causa das guerras contra Afeganistão e Iraque. Na perspectiva da Casa Branca, seria uma compensação aos reveses médio-orientais bélicos, malgrado modesta.
A atenção norte-americana se encontrava em terras médio-orientais, de sorte que o inoportuno convite à Geórgia e Ucrânia para aderir a seu círculo de defesa desencadearia o desagrado da Rússia. Nesse sentido, os efeitos desfavoráveis logo emergiriam: o encontro otaniano havia sido em abril de 2008; em agosto, os russos começariam a confrontação com os georgianos.
A reação do organismo castrense viria rápida, ao revisar a adesão dos dois países em dezembro — além do percalço castrense, aquele ano seria o da crise financeira de impacto global de origem nos Estados Unidos.
A despeito do tocante aviso transmitido ao planeta pela contenda georgiana-russa, a OTAN, ao não renunciar a sua ampliação ao leste da Europa, desembocaria em situação paradoxal: sua expansão não acarretaria o reforço da segurança de seus membros, porém geraria quadro inverso, ao despertar a ira da Rússia, superpotência nuclear encabeçada por grupo autoritário.
Com a interrupção do socialismo real, a maioria da população russa aguardaria em vão o progresso material advindo do modus vivendi do Ocidente. Todavia, a difusão combinada de democracia, com eleições formais, de livre mercado, com privatização maciça, e de liberdade de expressão, se bem que contida, não traria o imaginado.
A pobreza continuaria e a desigualdade se estenderia, ao conhecer o mundo os novos bilionários locais — alcunhados de modo pejorativo de oligarcas. O resultado, pois, seria de reduzida ascensão social. O capitalismo lá implementado seria próximo do da América do Sul ao invés do da Europa ou do Canadá.
Assim, a sociedade teria nova fase de privação, estado persistente malgrado o regime político ou econômico no século passado — da monarquia da dinastia Romanov ao presidencialismo de Boris Yeltsin.
A constatação é a ilusão como elemento de constância do cotidiano do povo moscovita. Com o insucesso da conversão do comunismo para capitalismo, o distanciamento, embora relativo, do Kremlin da Casa Branca seria natural. Portanto, Vladimir Putin ser mais cético que seu bamboleante antecessor seria esperado.
Ao invés de reestruturar o relacionamento comercial e financeiro com Moscou na transição de Yeltsin a Putin, Washington, sob comando dos democratas de Bill Clinton, preferiu o militar, ainda que centrado no multilateralismo norte-atlântico.
Com isso, a Rússia sentir-se-ia acuada, mas não intimidada, haja vista o poderio bélico acumulado. A cada tentativa de avanço otaniano em antigos integrantes soviéticos, uma resposta russa, conquanto sem a eficiência suficiente com o propósito de desencorajar futuras investidas.
O fracasso da Rússia na Ucrânia, não obstante a possibilidade de ser temporário, não pode ser considerado sucesso dos Estados Unidos, porque a corrosão política entre os envolvidos somada aos custos financeiros levará anos até alcançar-se entendimento diplomático mínimo, caso os democratas permaneçam na Casa Branca.
No fim de contas, se houver o retorno dos republicanos, ainda mais com o problemático Donald Trump, a postura do governo poderia modificar-se e dessarte o pêndulo inclinar-se-ia a Moscou, não Kiev. Em decorrência disso, o apoio da Europa poderia também reduzir-se e, por conseguinte, aliviar suas finanças com os gastos energéticos e com as despesas militares endereçadas ao país invadido.
Sobre o autor
Virgílio Caixeta Arraes: graduado, mestre e doutor em história pela Universidade de Brasília e pós-doutor em história pela Université de Montréal (Canadá). Professor Associado da Universidade de Brasília.
