Guerra da Ucrânia: a fraqueza de estender fronteiras
Virgílio Caixeta Arraes

O mundo assiste à elevação da tensão política entre Pequim e Washington enquanto de soslaio observa a refrega entre Kiev e Moscou sem possibilidade de encerrar-se no curto prazo, em vista da constituição castrense das oponentes.
Em descortinamento amplo, poder-se-ia assinalar a sangrenta rivalidade ao leste da Europa entre duas elites em torno dos quais se exerce democracia em escala diferenciada, ao menos de maneira oficial, em decorrência do legado do ciclo comunista (1917–1991).
Na época da Guerra Fria, exerciam o poder de forma compartilhada na União Soviética (URSS) grupos dirigentes de origem russa ou ucraniana, à exceção de Joseph Stálin, georgiano, longevo e controverso.
Os dois governos tornaram-se inimigos figadais, por decisão do Kremlin ao iniciar a ocupação do vizinho pela conquista da Crimeia em 2014. Hoje, a presença se estende a cerca de um quinto do território de Mariyinsky, depois de mais de um ano de incessantes combates.
Na Europa ocidental, nenhum povo — espanhol, batavo, austríaco, francês, inglês ou alemão — se fixou ao longo de sucessivas gerações como potência primaz, quer pela economia, quer pela força, por muito tempo. Na parte oriental da região, o russo, ainda que sem ser aceito ou mesmo reconhecido, avançou de forma gradativa diante do alemão, do polonês, do lituano e do otomano em período similar.
Alemanha e França lideram a União Europeia (UE), sem necessidade de extensão de suas fronteiras para circular seus produtos ou seus habitantes. A aquisição desautorizada de território no continente soava até os movimentos recentes da Rússia como manobra anacrônica, em função do desenvolvimento acelerado de redes de comunicação e de transportes e da incorporação progressiva de tratados à legislação nacional desde o fim do século passado.
A absorção de zonas limítrofes pela administração moscovita chama a atenção em primeiro lugar pela eliminação de vidas e pela devastação da infraestrutura dos contendores, malgrado a desproporção das consequências trágicas para cada um dos envolvidos.
Caso um país consiga assenhorear-se de maneira definitiva de áreas de outrem o valor de recuperação da destruição local levaria anos e anos sob duradouro sacrifício financeiro da própria população — isso sem contar o desgaste moral sob ausência de legitimidade de civis e de militares da nação conquistadora.
A anexação de terras com o propósito de estabelecer zona tampão, haja vista a lembrança do delineado pela Alemanha em face da Rússia durante a Primeira Guerra Mundial naquela vasta região já não se justifica por causa do patamar da tecnologia militar aérea das principais potências — caças e misseis de médio alcance, por exemplo.
Apresenta-se a possibilidade do deslocamento moscovita de fevereiro de 2022 ser expedição punitiva a kievitas, com impacto físico imediato, mas também a washingtonianos e a bruxelenses, com abalo simbólico instantâneo.
O motivo para o castigo extemporâneo seria o injustificado alargamento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ao leste da Europa, ao abarcar a filiação de sociedades outrora soviéticas como a da própria Ucrânia.
O resultado, contudo, tem sido o contrário do aguardado, ao atrair, não intimidar, países próximos dos limites russos como Finlândia. Além do mais, a Casa Branca destinou dezenas de bilhões de dólares a Mariyinsky, com o fito de auxiliar sua resistência ante as investidas do Kremlin.
No curso de séculos, a avaliação do poderio moscovita tem sido controversa. Não há dúvida de que da perspectiva geográfica ele é inconteste, ao abarcar boa parte de dois continentes e ser capaz de resistir mesmo assim a invasões simultâneas dos dois lados.
Nesse sentido, as forças armadas, conquanto não se ombreassem de início com as de potências como França, Alemanha, Turquia, ou até de modo recente Estados Unidos, não se arquearam e superaram com denodo suas dificuldades nos campos de batalha, embora o sacrifício ao povo tenha sido grande.
Concernente à economia, o reconhecimento da fragilidade, a despeito do regime e do momento, visibiliza-se, ao ponto de angustiar a população civil de maneira constante e desencadear, por exemplo, a revolução comunista em outubro de 1917 ou a queda a datar da década de oitenta. Apesar disso, no setor da ciência e tecnologia, o país costuma acompanhar o ritmo de outros em segmentos avançados como a indústria espacial.
No tocante à ideologia, a robustez se impõe há tempos, quer na cultura, a religião ortodoxa, quer na política, o socialismo real. O pan-eslavismo do final do século dezenove e começo do vinte seria substituído pelo comunismo. O fascínio do imperador (czar/tsar) de uns seria trocado pelo do secretário-geral do Partido Comunista de outros.
Com a dissolução da União Soviética, fragmentada em nações de importância variada, o antigo centro, Moscou, optaria por aderir a ideário distanciado da elite daquela época: a democracia neoliberal. Sem adaptar-se ou amoldar-se a ela, a consequência seria o enfraquecimento da federação russa, já debilitada em seu nascedouro.
A reversão do modelo ocidental não seria na economia política, porém na militar: a interrupção da decomposição territorial ao cabo do século passado na transição de poder de Boris Yelstin para Vladimir Putin. Pode-se notar, entrementes, hiato de tempo chamativo entre a operação da Chechênia e o apossamento da Crimeia bem como entre esta anexação e a invasão de novo da Ucrânia em 2022.
Diante do contexto corrente, há a mescla oriunda do ciclo soviético de dois pontos: consideravam-se na perspectiva do Kremlin as forças armadas como unidade de defesa, ou antes de sobrevivência da população, em função da persistência da cobiça de potências ocidentais das riquezas do país:
Em primeira fase, germânica sob rubrica da extrema-direita unificada na Segunda Guerra Mundial; depois, norte-americana sob chancela da direita, vertida ora nos democratas, ora nos republicanos, no desdobrar da rivalidade bipolar.
O desenvolvimento do aparato militar e sua manutenção seria fator necessário de dissuasão para a integridade da sociedade, posto que custoso. Portanto, não caberia a iniciativa a Moscou de atacar outrem ou afrontar.
A despeito do imenso poderio bélico, representado por milhares de ogivas atômicas e pela exclusividade, ao lado ela de quatro apenas, do condão de veto no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), a União Soviética desmoronaria sem ser palmo a palmo sob o olhar de atordoamento do planeta, visto que não houve investida contra ela de ninguém.
O segundo item reparte-se do anterior: a dificuldade de conservar de modo sustentado país com extensão territorial tão vasta, seja sob o período monárquico, seja sob o comunista. Em decorrência disso, a aspiração atual do Kremlin de desejo de ampliação das fronteiras representaria fraqueza, não robustez, uma vez que não seria possível sobrepor-se às perdas humanas, custos econômicos e corrosão política pública.
Sobre o autor
Virgílio Caixeta Arraes: graduado, mestre e doutor em história pela Universidade de Brasília e pós-doutor em história pela Université de Montréal (Canadá). Professor Associado da Universidade de Brasília.
