Estados Unidos: sem obras, sem feitos na Ucrânia
Virgílio Caixeta Arraes
O título alude ao canto oitavo do mais famoso poema de Portugal, mas de maneira inversa. Com um quarto do mandato cumprido, o presidente Joe Biden acumula não prestígio externo, porém desencantamento expressivo da opinião pública.
A retirada das últimas tropas norte-americanas do território afegão trouxe-lhe embaraço no ano passado, ao assemelhar-se, posto que em escala muito menor, à saída dos efetivos do Vietnã ao tempo da Guerra Fria.
Perante o fracasso inicial da administração, a Casa Branca tem necessidade de ofertar à sociedade global impassibilidade no seu posicionamento em decorrência dos considerados caprichos ou das ameaças do Kremlin no tocante à soberania da Ucrânia: adesão futura à Organização do Tratado Atlântico Norte (OTAN) e relacionamento com grupos russófilos em Lugansk e Donetsk, caracterizados pelo secessionismo a datar de 2014.
Bem decaída ao cabo da década de oitenta passada, a União Soviética (URSS) fragmentar-se-ia bastante territorialmente em seu contorno europeu: a região iria assistir, pois, ao surgimento em curto prazo de nações como Letônia, Lituânia, Estônia, Belarus (outrora Bielo-Rússia), Moldávia e Ucrânia, pivô da atual crise político-militar entre Estados Unidos (EUA) e Rússia, sucessora essencial da federação comunista.
No cerne da acérrima rivalidade entre Washington e Moscou, situa-se a expansão da OTAN rumo ao leste da Europa, embora não se possa desconsiderar aspectos econômicos, resumidos no segmento energético, isto é, no fornecimento de gás de abundantes reservas russas para o centro do continente, sendo beneficiária principal a Alemanha.
Cada potência envolvida tem interesse específico na questão, mesmo momentâneo, influenciado sem hesitação pelo calendário eleitoral interno: o do Estados Unidos ocorrerá no segundo semestre de 2022 e envolverá a renovação total dos assentos bienais da Câmara dos Deputados, um terço das cadeiras sexenais do Senado e dois terços dos governos estaduais.
O desassossego da gestão de Joe Biden deriva da expectativa de insucesso no pleito vindouro e, portanto, na perspectiva de tornar-se minoria nas duas casas parlamentares. Hoje, há maioria tênue para o Partido Democrata, graças à pequena vantagem na Câmara dos Deputados — duzentos e vinte e dois assentos de quatrocentos e trinta e cinco.
Com a corrosão do retorno dos contingentes do Afeganistão ainda vívido em Washington, após vinte anos de operações castrenses infrutíferas concernente à contenção ampla do extremismo local, Joe Biden agasta-se com o possível assinalamento de tibieza na condução da política exterior em uma gestão já de modo precoce abatida aos olhos da população pela inflação ascendente — a maior desde 1982, período no qual estava à frente da presidência da República Ronald Reagan.
No outra face norte-atlântica, ocorrerá a disputa legislativa na França no final do primeiro semestre de 2022; no entanto, o pleito presidencial será em poucas semanas: em abril. Nela, Emmanuel Macron irá candidatar-se à reeleição em ambiente no qual seus inúmeros adversários tanto à direita como à esquerda encontram-se muito divididos, de maneira que ele se situa em posição cômoda até o momento com vistas ao êxito.
Sua recente viagem a Moscou com o propósito de persuadir o dirigente Vladimir Putin ao retraimento chamou a atenção dos meios de comunicação em primeiro lugar por causa da movelaria do salão, não por conta da seriíssima questão diplomática vinculada com a assombrada Ucrânia. O destaque na reunião de cúpula não foi o conteúdo da demorada conversação entre os dois representantes-mores, porém o alongado tampo da mesa!
Oficialmente, a opção pelo local do encontro deveu-se a uma necessidade sanitária premente, haja vista a recusa do dirigente francês de se submeter a um teste do vírus corona em solo russo. Contudo, outros governantes teriam sido dispensados da exigência — como o da Argentina, Alberto Fernandez — uma vez que se reuniram com o mandatário moscovita sem as mesmas restrições, ou seja, sem distanciamento físico recomendado e sem utilização de máscara.
Na prática, o singular móvel terminaria por simbolizar o afastamento entre o posicionamento do Kremlin e o do Champs-Élysées, mais moderado do que o da Casa Branca, acerca do imediato destino político-militar ucraniano: permanecer à sombra da bílis da Rússia ou aproximar-se do Ocidente através da OTAN.
O aguardado ingresso da Ucrânia nas fileiras otonianas incomoda sobremodo a Rússia, malgrado não ser algo inesperado, ao ter em conta o deslocamento pendular de Kiev, após sua conturbada troca de governo em fevereiro de 2014 (Revolução da Dignidade), em direção a Washington, época na qual o poder estava tal qual como hoje sob bastão democrata — Barack Obama.
A retaliação da administração de Putin seria a de anexar a Crimeia, doada a Kiev no correr da gestão de Nikita Khruschev em 1954. Encraves russófilos entusiasmar-se-iam com a manobra bélica e pronunciar-se-iam outrossim a favor de sua incorporação por Moscou ou pelo estabelecimento do federalismo, fator de real autonomia às duas autoproclamadas repúblicas, mas de enfraquecimento de soberania para Mariinsky.
No período da deflagração da revolta, a extrema direita local apoiou a remoção do presidente Viktor Yanukovich: Paris, Berlim e Varsóvia acompanharam o movimento turbulento não muito distantes. O sucessor, Petro Poroshenko, empresário bilionário, constaria nos chamados Panamá Papers, documentação divulgada com estrondo pelos meios de comunicação em todo o mundo em 2016.
Saliente-se que o desejo de orbitar em torno da Casa Branca se estende a outros países oriundos da antiga esfera soviética; cite-se no Cáucaso a Geórgia, objeto da severa repressão militar do Kremlin em agosto de 2008.
No acelerado processo de desagregação do Estado comunista na passagem dos anos oitenta para os noventa, a expectativa de Moscou era o reconhecimento tácito do arco norte-atlântico de não estender limites marciais à beira de suas novas fronteiras até porque a preocupação seria a de reequilibrar-se diante da irrupção de pedidos de independência.
Na avaliação do Kremlin, ampliar o número de membros da decana instituição castrense seria fomentar um estado de tensão desnecessário entre os recém-nascidos governos da região e a Rússia, todos desnorteados em suas transições sistêmicas.
Naquela fase, a administração russa tinha a esperança de receber auxílio econômico de nações ocidentais ou de organismos multilaterais como, por exemplo, do Fundo Monetário Internacional (FMI), de sorte que iria conter suas aspirações geopolíticas perante os (novos) vizinhos.
Isto só se alteraria no começo de 2014, ou seja, quase um quarto de século depois da diluição soviética, por causa da ingerência externa, na perspectiva russa, em assunto político importante não só para a Ucrânia.
Se esta solicitação, conquanto silenciosa em termos diplomáticos na nova ordem global do final do século vinte, havia sido respeitada durante o transcorrer da Guerra Fria, poderia sê-la agora até pela aceitação de que a OTAN já não teria o temido contraponto do Pacto de Varsóvia, órgão dissolvido no início de 1991, marco de transformação ideológica, por conseguinte, nos países do leste europeu do comunismo para o capitalismo neoliberal.
Não há dúvida de que Kiev gostaria de recuperar a Crimeia de Moscou e preservar a soberania plena nas duas autocelebradas repúblicas filorrussas. No entanto, o custo político — humano, militar e financeiro — de iniciar uma ação seria desmesurado, ainda que fosse sob proteção ocasional da OTAN. Defronte disso, a maior demonstração de firmeza a ser fincada pelos Estados Unidos seria a de reiterar nos próximos dias o caminho da diplomacia, não o do embate.
Virgílio Caixeta Arraes: graduado, mestre e doutor em história pela Universidade de Brasília e pós-doutor em história pela Université de Montréal (Canadá). Professor Associado da Universidade de Brasília.
