Das periferias para o centro? O pontificado do Papa Francisco e suas repercussões políticas na América Latina
Arthur Murta e Gabriel Marquim
Resumo: O artigo analisa como o pontificado de Francisco reposicionou a América Latina e o Sul Global no centro da diplomacia vaticana, destacando-se a mediação de tensões políticas e sociais na região, além do número expressivo de viagens e nomeações que refletiram esse giro periférico.
A eleição de Jorge Mario Bergoglio como o primeiro papa latino-americano, em 2013, representou uma inflexão simbólica e geográfica no centro de gravidade do catolicismo global. Essa mudança não ocorreu por acaso: embora a Igreja Católica tenha perdido fiéis para movimentos protestantes na América Latina, a religião ainda permanece como o maior reduto católico do mundo (Løland 2023). Neste artigo, pretendemos repercutir a perspectiva de Francisco sobre as Relações Internacionais, especialmente na América Latina, movidos pelo questionamento: o fato de uma instituição historicamente associada ao centro do pensamento ocidental ter sido, pela primeira vez, governada por um representante do Sul Global produziu alguma mudança efetiva em sua atuação internacional?
Em seu primeiro discurso, Francisco se apresentou como alguém que vinha “do fim do mundo”. Perspectivas decoloniais e queer nas Relações Internacionais frequentemente problematizam o lugar ocupado pela América Latina e pelo chamado Terceiro Mundo no sistema internacional. Argumenta-se que, embora essas regiões tenham sido historicamente vistas pelo Norte Global como atrasadas, não-civilizadas e, portanto, periféricas e sem voz, é justamente essa posição de subalternidade que oferece um potencial epistemológico significativo para repensar o próprio conceito de Internacional. Assim, essa fala inaugural de um representante de uma das instituições com maior capital simbólico do mundo (Bourdieu 1989), ao reivindicar esse lugar periférico, acabou por imprimir um tom específico aos seus 12 anos de pontificado. Nesse período, Francisco demonstrou atenção especial tanto às periferias geográficas (como Cuba, Venezuela, Colômbia e Palestina) quanto às periferias teológicas, ao se posicionar sobre temas como o divórcio, a participação das mulheres em cargos eclesiásticos e os direitos de pessoas LGBTQIA+. Destaca-se, no entanto, que, apesar da abertura, a postura do papa em relação aos temas de gênero e sexualidade não representou uma inflexão no pensamento tradicional católico.
O legado de um papa só pode ser realmente medido com o passar dos anos, ainda mais quando se está falando de um pontífice que foi reformador (Ivereigh 2014). De fato, se cada lugar geograficamente estabelecido comporta uma identidade culturalmente constitutiva, não seria de se espantar que as características latino-americanas tenham plasmado Bergoglio não somente como cidadão, mas também como agente religioso (Bourdieu 2015). Em uma linguagem bourdiesiana, o habitus latino-americano tornou-se disposição herdada por Bergoglio, estruturando Francisco. Por isso, conforme mencionado, já em seus primeiros discursos, o papa chamou a atenção para um novo paradigma que ele desejava instalar na Igreja: uma perspectiva periférica.
Para tanto, era necessário deixar de lado uma visão eclesial que privilegiava o centro para assumir uma conjuntura de periferia (novamente, não apenas geográfica, mas sobretudo existencial). Assim, apenas quatro meses após ser elevado à condição de papa reinante — nomenclatura que incomodava Francisco, mas ainda hoje válida — viajou à ilha de Lampedusa, por onde migrantes e refugiados costumam entrar na Europa e ali permanecem em precariedade.
Desde então, Francisco forçou um movimento centrífugo à Igreja (Passos apud Brighenti 2019), algo que lhe custou boicotes e resistências, quando não um enfrentamento direto (Tornielli e Valente 2019). Partindo da premissa de que a heterodoxia de um movimento pode ser avaliada a partir da violência da ortodoxia oponente (Bourdieu 2019), conclui-se que a centrifugação bergogliana foi intensa e profunda.
Isso pode ser visto, em primeiro lugar, nas viagens feitas pelo papa à América Latina. Enquanto Paulo VI (1963–1978) — o primeiro a realizar percursos internacionais na era moderna — viajou para um país latino-americano uma única vez (Colômbia, 1968), João Paulo II (1978–2005) elevou esse número para 23 países, 10 deles com mais de uma visita. No caso de Bento XVI (2005–2013), foram visitados três países latino-americanos, apenas. Por fim, Francisco (2013–2025) esteve em 10 países da região, quais sejam: Brasil (2013), Equador (2015), Bolívia (2015), Paraguai (2015), Cuba (2015), México (2016), Colômbia (2017), Chile (2018), Peru (2018) e Panamá (2019) (Vaticano, s.d.).
Como é possível perceber, João Paulo II foi aquele que mais viajou para países da América Latina, porém, é preciso destacar que seu pontificado durou 26 anos — o terceiro mais longevo de toda a História católica — enquanto Francisco, com 12 anos de pontificado, é o segundo que fez mais viagens para países latino-americanos. Vale ressaltar, além disso, um outro dado que confirma a inflexão periférica realizada por Francisco: em seus 12 anos de pontificado, ele realizou 47 viagens internacionais (fora da Itália), visitando 66 países, sendo 42 deles do chamado Sul Global e 24 do Norte Global. Embora a quantidade de viagens seja relevante, ela não basta para explicar esse movimento centrífugo de Bergoglio, que deve ser analisado à luz de seu tempo à frente da Igreja (Vaticano, s.d.).
Outro elemento importante de análise versa pela internacionalização do colégio de cardeais, que começou com João XXIII, ao nomear seis latino-americanos, mas foi ampliada por seus sucessores: Paulo VI elevou esse número para 20 (com o primeiro centro-americano), João Paulo II para 50, enquanto Bento XVI reduziu para 10. Francisco retomou a expansão, com 25 indicações da América Latina. Embora João Paulo II tenha feito o maior número de nomeações, reforçamos que seu pontificado durou mais do que o dobro do de Francisco. O pontificado de Bergoglio também ampliou a diversidade geográfica do colégio, incluindo países que nunca haviam tido cardeais, como Bangladesh, Brunei, Cabo Verde, Haiti, Laos, Malásia, Mianmar, Mongólia, República Centro-Africana, Suécia, Timor-Leste e Tonga — quase todos pertencentes ao Sul Global, com exceção da Suécia (Vaticano, s.d.). Temos, portanto, mais um exemplo disso que chamamos centrifugação das periferias para o centro que Francisco fez, trazendo atores políticos das periferias globais da Igreja para o centro da formulação da governança da instituição
Na diplomacia de seu papado, Francisco concentrou ações significativas no Sul Global, convertendo seu capital simbólico em influência política concreta. Destacam-se sua mediação na retomada das relações entre Cuba e Estados Unidos (2015), e nas negociações entre a oposição e o governo Maduro na Venezuela (2016), nas quais a presença do Vaticano foi condição imposta pela oposição para o diálogo (Løland 2023). Ainda em 2015, antecipou o Jubileu, previsto para Roma, iniciando-o na República Centro-Africana, onde conseguiu um cessar-fogo em meio a conflitos civis.
No final de 2016, conseguiu reunir o então presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos e seu crítico mais ferrenho à época, o ex-presidente Álvaro Uribe. Santos confirmou em entrevista que só aceitou participar da reunião porque se tratava de “um pedido do Santo Padre” (Infobae 2025). Apesar dos esforços do pontífice, a reunião não resultou em avanços significativos, mas foi considerada um gesto simbólico importante na busca pela reconciliação nacional na Colômbia. Em 2017, visitou o país e reforçou a legitimidade do acordo de paz entre o governo e as FARC.
Promoveu ainda encontros com movimentos populares, convocou o Sínodo da Amazônia (2019) e reconheceu publicamente a responsabilidade da Igreja nos conflitos com povos indígenas no Canadá e no Peru. Encontrou-se com lideranças mapuche (Chile), yanomami e guarani-kaiowá (Brasil), quíchua (Peru) e outras. Em 2018, determinou uma inédita devassa nos casos de abusos sexuais no Chile, que resultou na renúncia coletiva de 34 bispos, das quais três foram aceitas. Essas ações evidenciam que a diplomacia do Vaticano, sob Francisco, esteve sustentada não por poder territorial, mas por um singular capital simbólico (Bourdieu 2019).
Por todo o exposto, sustentamos que, ao assumir a condição de papa latino-americano, Bergoglio não apenas trouxe a América Latina para o centro da diplomacia do Vaticano, como também reconfigurou a lógica de atuação da Igreja no cenário global. Resta, contudo, a questão: uma instituição central como a Igreja poderia realmente adotar uma perspectiva periférica? A trajetória de Francisco, moldada por um habitus latino-americano, estruturou uma teologia política centrífuga, voltada às margens geográficas, sociais e teológicas do sistema internacional e da estrutura eclesial. Suas viagens, nomeações e gestos diplomáticos e simbólicos buscaram mobilizar o capital simbólico da Igreja em favor da justiça social e da reconciliação. Diante das desigualdades persistentes na região, Francisco representou uma inflexão no diálogo com a América Latina, denunciando o neoliberalismo e reconhecendo a diversidade espiritual dos povos originários (Francisco 2015; Francisco 2020).
Nesse sentido, a eleição de um papa do “fim do mundo” não foi apenas um evento inédito, mas um marco na forma como o catolicismo se inscreveu nas dinâmicas globais contemporâneas, reforçando a tese segundo a qual o habitus e o capital simbólico — em seus variados matizes, inclusive religioso — tem efeitos objetivos na reconfiguração de forças do campo social — inclusive internacional — cujo legado deverá ser avaliado nos anos que se seguirão ao seu pontificado.
Referências
Bourdieu, Pierre. 1989. O poder simbólico. Lisboa: Difel.
Bourdieu, Pierre. 2015. A economia das trocas simbólicas. 8ª ed. São Paulo: Perspectiva.
Bourdieu, Pierre. 2019. Questões de sociologia. Petrópolis: Vozes.
Brighenti, Agenor, org. 2019. Os ventos sopram do sul: o Papa Francisco e a nova conjuntura eclesial. São Paulo: Paulinas.
Francisco. 2015. Laudato Si’: Sobre o Cuidado da Casa Comum. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana. Acessado em 2 de maio de 2025. https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html
Francisco. 2020. Fratelli Tutti: Sobre a Fraternidade e a Amizade Social. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana. Acessado em 2 de maio de 2025. https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html
Infobae. 2025. “La vez que el papa Francisco intentó reconciliar a Juan Manuel Santos y Álvaro Uribe: así fue el encuentro.” Publicado em 21 de abril de 2025. https://www.infobae.com/colombia/2025/04/21/la-vez-que-el-papa-francisco-intento-reconciliar-a-juan-manuel-santos-y-alvaro-uribe-asi-fue-el-encuentro/.
Ivereigh, Austen. 2015. Francisco, o grande reformador: os caminhos de um papa radical. Braga: Vogais.
Løland, Ole Jakob. 2023. The Political Theology of Pope Francis: Understanding the Latin American Pope. Abingdon and New York: Routledge.
Tornielli, Andrea, e Gianni Valente. 2019. Papa Francisco debaixo de fogo: guerras de poder, intrigas, abusos e escândalos. O que está por trás da conspiração para pedir a resignação do papa. Lisboa: Planeta Manuscrito.
Vaticano. s.d. Página oficial de Bento XVI. Acessado em 2 de maio de 2025. https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt.html
Vaticano. s.d. Página oficial de João Paulo I. Acessado em 2 de maio de 2025. https://www.vatican.va/content/john-paul-i/pt.html
Vaticano. s.d. Página oficial de João Paulo II. Acessado em 2 de maio de 2025. https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt.html
Vaticano. s.d. Página oficial de João XXIII. Acessado em 2 de maio de 2025. https://www.vatican.va/content/john-xxiii/pt.html
Vaticano. s.d. Página oficial de Paulo VI. Acessado em 2 de maio de 2025. https://www.vatican.va/content/paul-vi/pt.html
Vaticano. s.d. Página oficial do Papa Francisco. Acessado em 2 de maio de 2025. https://www.vatican.va/content/francesco/pt.html
Vaticano. s.d. Página oficial dos Cardeais da Cúria Romana. Acessado em 2 de maio de 2025. https://www.vatican.va/roman_curia/cardinals/index_po.htm
Arthur Murta: Doutor em Relações Internacionais pela USP, com período sanduíche no King’s College London. Professor de Relações Internacionais na PUC-SP e pós-doutorando no Centro de Síntese USP Cidades Globais (IEA-USP). Coordenador da Área Temática “Feminismos, Gênero e Sexualidade” da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI) e do Tibira — Núcleo de Estudos Internacionais de Gênero e Sexualidade da PUC-SP.
Gabriel Marquim: Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP, tendo sua pesquisa se debruçado no pensamento do Papa Francisco, e mestre em Comunicação pela UFPE. Professor de Jornalismo e Publicidade na Uninassau (PE). Coordenador de Grupo de Pesquisa em “Comunicação, religião e sociedade”, orientando atualmente trabalho cujo título é: “Ultrapassar as polarizações — a proposta do Papa Francisco para a construção de consensos em uma sociedade de rupturas”, na Uninassau.
