China-Taiwan: “back to the future or forward to the past”?
Paulo Antônio Pereira Pinto
Rio de Janeiro, 1 de maio de 2024
Enquanto o impasse nas negociações “através do Estreito” permanece, Ma Ying-jeou, “ex maior autoridade”[1] de Taiwan e dirigente do partido Kuomintang, visitou a China, em abril passado. Foi a primeira vez que Xi Jinping recebeu, em Pequim, político que tenha ocupado o cargo de mais alto nível em Taipé, cuja gestão foi marcada por aproximação com os dirigentes chineses.
Ma Ying-jeou é um político taiwanês nascido em 13 de julho de 1950 em Kowloon, Hong Kong. Foi prefeito da Cidade de Taipé de 1998 a 2006, eleito “presidente” pelos residentes na ilha de Formosa de 2008 a 2016 e dirigente do partido Kuomingtang (KMT) de 2009 até 2014. Viveu grande parte de sua infância e juventude, no ex-enclave britânico no continente chinês, tendo aprendido o idioma inglês e servido, uma vez instalado em Taiwan, como intérprete de Chiang Kai-shek, o que o introduziu na política local.
A importância atribuída à sua visita, mesmo na condição de não estar mais atuante na política taiwanesa, retoma o imaginário de que ambos os lados do estreito seriam, ainda, capazes de conviver de forma pacífica. Isto é, a atual divisão chinesa — entre o continente e a ilha, através do Estreito de Taiwan — poderia ser reparada com soluções adotadas, no milênio passado, (“foward to the past”) quando se formaram frentes amplas entre o Partido Comunista Chinês e o KMT.
Parece irônico considerar a possibilidade de que a questão de Taiwan seja influenciada pelo retorno a “cenas de partida” acontecidas, por exemplo, entre 1925 e 1945. Isto exigiria que o Partido Comunista Chinês e o Kuomintang voltassem a formar “frente ampla” para preservar a unidade chinesa, a exemplo do ocorrido durante aquele período [2] .
Seria como se não tivesse sido erguida estrutura de confrontação através do estreito, durante a Guerra Fria, a ilha não tivesse sofrido os efeitos da “onda de democratização” da década de 1980, Pequim não tivesse proposto o conceito de “um país, dois sistemas”, e, posteriormente, Lee Teng-hui “o “traidor do milênio” não tivesse apresentado, em 1999, a ideia de “um país em cada margem” do Estreito.
Tudo, então, seria resolvido na mesma forma que nos últimos 4000 anos: pela superioridade da civilização chinesa que, através desta longa história, soube absorver os invasores mongóis e manchus que, mesmo mais fortes militarmente, acabaram “sinificando-se”. A cultura compartilhada seria, portanto, a condicionante principal, seja do passado, ou do futuro chinês (“back to the future”).
Lembra-se, a propósito, que, enquanto Chiang Kai-shek e seu filho Chiang Ching-kuo estiveram no poder em Taiwan, entre 1949 e 1987, Pequim nunca suspeitou que algum deles pudesse reivindicar a independência da ilha. Mao Zedong, por exemplo, considerava que a resistência de Chiang Kai-shek à reunificação devia-se à hesitação de “confessar que havia sido derrotado” ou uma questão “de face” (no sentido de manter as aparências).
Enquanto isso, segundo consta, os Chiangs, pai e filho, reprimiam mais os formosinos partidários da independência do que os simpatizantes do Partido Comunista Chinês. Com frequência, os ex-líderes do Kuomintang resistiam com vigor ao que percebiam como esforços de Washington, no sentido da separação dos dois lados do estreito. Acadêmicos chineses teriam considerado, inclusive, heroico o comportamento da referida dinastia Chiang, por manter unificado o território nacional.
Quanto à aliança com os Estados Unidos contra a RPC, poder-se-ia considerar, em Pequim, como compromisso de conveniência, em virtude de fronteira ideológica determinada pelo período da Guerra Fria — uma frente ampla circunstancial contra o comunismo, mas, nunca, um movimento contra a reunificação.
Nessa perspectiva, dinâmica regional própria poderia levar a novo consenso entre as partes separadas na “Grande China” — da mesma forma ocorrida durante outras fases da história da civilização chinesa: proporcionando um novo período de cooperação entre o PCC e o KMT.
Caberia, então aguardar que a visita de personalidades do Kuomintang à China — como o recente périplo de Ma — servisse, em algum momento futuro, na hipótese de retorno do KMT ao poder na ilha, para a assinatura de “um acordo de paz para o término da Guerra Civil chinesa”.
A partir de então, o grande desafio para esta renovada “frente ampla” seria a interlocução com os setores independentistas formosinos, ora no poder em Taipé.
Nessa perspectiva, a visita de Ma Ying-jeou ter sido cuidadosamente coreografada com simbolismo político: foi a primeira vez que um “ex-dirigente eleito em Taiwan” foi recebido pelo supremo líder da China, em Pequim, desde que Chiang Kai-shek refugiou-se em Taipé, em 1949.
A imprensa chinesa divulgou a “esperança de que o encontro entre Ma e Xi poderia retomar o diálogo iniciado nove anos antes, quando, em Singapura, ambos haviam considerado temas básicos para uma interlocução construtiva através do estreito de Taiwan”.
Assim, por ocasião da “reunião de cúpula” de 2015, quando Ma era o dirigente máximo em Taipé e Xi já era o Presidente da RPC, teria sido criado diálogo favorável à solução do conflito.
O encontro mais recente, em abril passado, no entanto, ocorre em momento de polarização através do Estreito, com o aprofundamento das diferenças entre as duas partes, enquanto torna-se mais violenta a coreografia chinesa contra o que Pequim identifica como movimento independentista formosino.
Esta evolução negativa ficou comprovada em janeiro deste ano, quando os taiwaneses elegeram como seu “líder maior” o Sr. Lai Chiang-te, proporcionando ao Partido Democrático Progressista (DPP, em sua sigla inglesa) independentista e de oposição ao KMT, um terceiro mandato consecutivo, permitindo que fique mais quatro anos no poder, onde já está instalado há 8.
Como retaliação, Pequim aumentou o número de patrulhas marítimas e sobrevoo de aviões militares, ao redor de Taiwan. Tais manobras criaram preocupações, evidenciadas durante encontro de cúpula, no mesmo mês, entre os Presidentes dos Estados Unidos, Filipinas e o Primeiro-Ministro do Japão.
Nessa perspectiva, a visita de Ma ressalta a “expectativa chinesa” de que o diálogo através do Estreito só poderá ter êxito com dirigentes formosinos que aceitem a proposta de que ambas as margens pertencem a “uma China”.
Pequim, portanto, cessou qualquer contato de “alto nível” com Taipé, desde que Tsai Ing-wen — atual mais alta dirigente — do partido DPP, assumiu o poder em 2016. Sua plataforma política vencedora incluiu o cancelamento de acordos comerciais estabelecidos com a China, durante as gestões de Ma Ying-jeou, bem como reforçou o ideal de que a ilha de Taiwan possuiria “identidade” distinta da chinesa.
Conforme se procurou analisar no texto publicado em 14 de fevereiro passado, o DPP rejeita a proposta chinesa de que “existe apenas uma China”, enquanto o KMT a aceita, com a ressalva de que cada lado do estreito “teria a interpretação própria sobre seu significado”.
Nessa perspectiva, a comunicação bilateral é pouco provável que seja reiniciada durante a próxima administração de Lai Chiang-te, que se comprometeu a dar continuidade à política seguida, durante os últimos 8 anos, por Tsai Ing-wen. Isto é, o não reconhecimento de “uma China”.
Segundo divulgado em Taipé, durante a administração de Ma, haveria um “masterplan” que contemplaria a formação de um “conselho de unificação nacional”, entre aqueles dois partidos, que estabeleceriam representações em Pequim e Taipé. Em seguida, aconteceria a anunciada assinatura de “acordo de paz para o término da “Guerra Civil Chinesa”.
Caso houvesse tal desenvolvimento perderia qualquer sentido a concepção de um “status quo”, “the way the USA sees it”, uma vez que este, como se sabe, baseia-se nos “três Comunicados Conjuntos EUA-RPC” e no “Taiwan’s Relations Act”, todos concebidos no milênio passado.
Neste processo de “forward to the past”, caberia resgatar o discurso “sobre contradições”, de Mao Zedong. Segundo o “Grande Timoneiro”, existe sempre a contradição principal, que deve ser solucionada prioritariamente, enquanto são feitas composições com as secundárias, por exemplo, com a formação de “frentes amplas”. Assim ocorreu quando o PCC e o KMT, na década de 1940, se aliaram — colocando sua guerra civil “on hold” — enquanto combatiam os japoneses em território chinês.
Da mesma forma, caso se confirmasse tal “United front” entre a República Popular e a “da China” (esta com sede em Taipé, desde 1949) em benefício da preservação da unidade chinesa, o inimigo seria, a partir de então o DPP independentista.
“Back to the future”, restaria especular, caso retorne ao poder, o KMT acenaria com a possibilidade de que o problema do estreito de Taiwan resumir-se-ia à assinatura de um acordo de paz entre o Partido Comunista Chinês e o Kuomintang, para “que seja encerrada a Guerra Civil chinesa
Segundo o texto do acordo desejado tanto pelo KMT quanto o PCC, o partido que se instalou em Taiwan, a partir de 1949, e foi derrotado nas eleições para a liderança da ilha, em 2000 e 2004, praticamente se julgaria credenciado a conduzir as negociações através do estreito, destruindo a imagem de que, na margem taiwanesa, haveria uma identidade política democrática e soberana a ser levada em conta.
Esvaziado ficaria, nessa perspectiva, todo o esforço do DPP, no sentido de que a adoção, em Taiwan, de formas de governança democráticas seria justificativa suficiente para a inserção internacional da ilha, como Estado soberano e “independente da RPC”.
Durante o período em que exerci a chefia do Escritório Econômico e Comercial do Brasil em Taipé, entre 1998 e 2006, coincidiu ser Ma Ying-jeou o Prefeito (conforme já mencionado acima). Ciente de seu gosto pelo futebol, adquirido em Hong Kong e pouco praticado em Taiwan, tive oportunidade de organizar um jogo, com a participação de representantes estrangeiros, como eu, contra parceiros de Ma. Cabe, a propósito, registrar que em “cantonês” — versão do idioma chinês falado ao Sul do país — dependendo do “tom” adotado segundo particularidade daquele idioma, “Ma” pode significar “cavalo” ou “amigo”.
Em campo, o Prefeito distribuiu vários “coices” contra adversários, que preferimos não retribuir, devido a sua posição administrativa de relevo e sucessivos pedidos de desculpas suas.
Espera-se, contudo, que ainda considerado como “amigo” pelos atuais dirigentes em Pequim, possa contribuir — inclusive pelo outro significado de seu nome — para o relaxamento de tensões através do estreito de Taiwan.
Conforme já mencionado acima, portanto, as animosidades atuais seriam resolvidas, na mesma forma que nos últimos 4000 anos, pela superioridade da civilização chinesa. Esta, através desta longa história, soube absorver os invasores que, mesmo mais fortes militarmente, acabaram compartilhando a cultura local que tornar-se-ia a condicionante principal, seja do passado, ou do futuro chinês.
[1] Não sendo Taiwan reconhecida pelo Brasil como Estado independente, o chefe de seu poder executivo deve ser denominado “maior autoridade local”.
[2] A questão de Taiwan voltará, em maio corrente, a ser um dos temas internacionais mais polêmicos, tendo em vista a posse, em Taipé, da nova “autoridade local”, eleita em janeiro passado — o Sr. William Lai, líder de partido “independentista”. A República Popular da China, certamente, reagirá com conhecida coreografia bélica, no momento em que julgar apropriado.
Este exercício de reflexão busca sugerir que, mesmo nos momentos de divergência explícita mais aguda, como acontecerá em breve, evidencia-se um diálogo subjacente entre o continente e a ilha.
Aliás, o próprio discurso de confrontação representaria uma forma de diálogo a ser decodificado, conforme se tentou assinalar no artigo publicado em 14 de março passado, em Mundorama, UNB.
Sobre o Autor
Paulo Antônio Pereira Pinto: Embaixador aposentado.


