China e Taiwan: o processo de negociação “através do estreito”
Paulo Antônio Pereira Pinto
Rio de Janeiro, em 14 de fevereiro de 2024
O vencedor das eleições de janeiro passado, em Taiwan, foi William Lai, que deverá tomar posse em 20 de maio de 2024. Trata-se de personagem conhecido por sua forte oposição à integração com a China e a favor da manutenção de vínculos com os Estados Unidos. O governo de Pequim considera Lai um “encrenqueiro”, “divisionista”, “linha-dura” e “muito pior do que a atual líder Tsai Ing-wen”.
Cabe aguardar, portanto, nova demonstração das forças armadas da República Popular da China, em ocasião próxima à posse.
O momento, oferece, a propósito, oportunidade para a reflexão sobre técnicas de negociação, entre Pequim e Taipé, a respeito da questão do estreito de Taiwan, que separa o continente da ilha. Proporciona, também, aprendizado sobre como devemos conduzir nossas próprias gestões com o universo chinês, do qual China e Taiwan fazem parte.
Verifica-se, por exemplo, que no processo de negociação com chineses, desde o início, cabe precaver-se quanto à necessidade de distinguir entre um enunciado e um compromisso. Isso porque, com frequência, a simples proposta do tema a ser discutido já contém, em seu enunciado, o compromisso que uma das partes pretende obter de seu interlocutor.
Assim, na condução das negociações através do estreito, os dirigentes da RPC anunciam, como condição prévia, a aceitação pelos taiwaneses do princípio de uma China. Dessa forma, o tópico enunciado pelos chineses, para a discussão com os formosinos, já contém em si mesmo o compromisso que Pequim pretende obter de Taipé.
De sua parte, os taiwaneses tratam a ideia de uma China como um enunciado que só poderia ser atingido quando, de fato, fosse contornada a realidade de que existiriam duas Chinas.
Seria, portanto, do interesse de Taipé obter, como ponto de partida, o compromisso chinês de que existem uma República Popular da China e outra entidade política representada por Taiwan.
Na sequência das negociações, há um esforço permanente para estabelecer sucessivas novas cenas de partida. Isto é, cada parte procura superar qualquer vitória que o interlocutor tenha obtido, empurrando a discussão para um patamar seguinte, em que novo consenso lhes seja favorável. Na prática, é um criativo exercício de linguagem. O que foi acordado, para o universo chinês, é com frequência algo inesperado para a mente ocidental.
É necessário perceber, em primeiro lugar, que um negociador de seja qual for a margem do Estreito, com frequência, utilizará palavras de seu interlocutor para encurralá-lo em determinada posição ou levá-lo a concessões.
Daí, por exemplo, a relutância formosina em aceitar o princípio de uma China, como cena de partida para o reinício das conversações. No momento em que tal enunciado for aceito, a parte chinesa terá vencido a argumentação, pois haverá obtido o compromisso de Taipé quanto à inexistência de outra entidade política na margem formosina do estreito.
Em segundo lugar, é conveniente considerar o que é entendido no universo chinês como face, no sentido de aparências ou status social ou político do interlocutor.
Dessa forma, sempre tomando como referência as tratativas entre as margens chinesa e taiwanesa do estreito, nota-se que, mesmo antes de se sentarem à mesa, cada parte busca, inclusive com a demonstração de força, exercer pressão ou desmerecer a outra, buscando diminuir-lhe a face.
Assim, Pequim, enquanto reitera que só aceita conversar com Taipé quando as autoridades formosinas aceitarem o princípio de uma China, renova a ameaça de emprego da força militar caso os líderes taiwaneses insistam em declarar-se uma entidade política separada. Daí o aumento recente e impressionante de aviões militares e mísseis da RPC sobrevoando áreas próximas a Taiwan, inclusive com o emprego de “munição viva” (live ammunition).
Em contrapartida, ao reafirmarem que já são um país independente, as autoridades em Taipé, não cansam de acenar com a existência do “Taiwan Relations Act,” que, aprovado pelo Congresso norte-americano, obriga os EUA a assistirem militarmente a Ilha, caso esta seja invadida pelo continente.
Cabe observar, ainda, que outra característica dos negociadores do universo chinês é a da tentativa de colocar o adversário em situações de tomada de decisão sob pressão permanente, do tipo pegar ou largar. Mas, em seguida, adotam nova postura, indicando que, na verdade, não atribuíam tanta importância à exigência que haviam acabado de fazer.
Quanto a esse aspecto, tanto os chineses como os taiwaneses adotam a técnica de reinterpretar um suposto compromisso final, em favor de sua própria conveniência. Isto é, após o acordo obtido em 1992 sobre a possibilidade de que cada parte admitisse a existência de uma China, segundo sua conveniência, Pequim passou a reinterpretar que essa única China seria a RPC, estabelecida em 1949, enquanto Taipé insistiria que se tratava, na verdade, de consenso quanto à persistência da República da China, fundada em 1912.
Na linha de raciocínio que se procurou desenvolver nos parágrafos acima, ambas as partes chegam, nessa sequência de consensos, a patamar distinto, que significaria nova cena de partida, a ser rediscutida, em função de enunciados distintos, até que, em algum momento, se chegue a compromisso.
Reitera-se que a reflexão sobre essas técnicas de negociações é fundamental para que possamos nos situar melhor, por exemplo, quando se procura fortalecer a estratégia da parceria, entre Brasília e Pequim. É necessário identificar, em cada negociação, com nitidez, a diferença entre o que está sendo acordado e o a ser perseguido, bem como os sucessivos consensos a serem percorridos até que se chegue a compromisso final, incluindo interesses de ambas as partes.
Entre os ensinamentos que ficam do estudo da interlocução com e intra universo chinês, seria possível registrar que: naquela parte do mundo, esticam-se, ao máximo, as negociações, no esforço de identificar novas vantagens a serem obtidas do interlocutor, utilizando-se o leque de artifícios e pressões relacionados acima. Uma tática frequentemente aplicada é a de repetir enunciados ou indagações semelhantes. Nesse processo, os negociadores sínicos usam e abusam de detalhadas anotações.
Acima de tudo, trabalham em perfeita sintonia, isto é, não demonstram contradições internas perante seus interlocutores. Fica sempre claro que a verdadeira agenda do grupo é cuidadosamente disfarçada. Para a adequada condução de conversações com pessoas herdeiras dessa cultura, deve-se, inicialmente, entender que os encontros de alto nível não necessariamente proporcionarão — de acordo com nossa maneira de negociar — a oportunidade final de compromissos definitivos.
Para os chineses, na verdade, esses são momentos para exibir a tal face, executar um ritual, durante o qual buscarão demonstrar sua superioridade. O que vale, para eles, é o relacionamento pessoal desenvolvido durante as reuniões preparatórias, os sucessivos consensos obtidos, através das formas de pressão e concessões conseguidas. Daí ser fundamental que a outra parte, com antecedência, disponha de propostas em comum — que não seriam rediscutidas perante o adversário, revelando, assim, falta de coerência interna.
Segundo mandamento: não alternar negociadores, pois tal hesitação levará o grupo chinês a testar a vulnerabilidade do novo interlocutor; e cabe, em encontros prévios, negociar processos claros para a barganha com os chineses, antecipando, se possível, quais são os patamares a serem almejados, bem como os pontos quanto aos quais não haverá concessões.
No livro “Iruan nas Reinações Asiáticas”, publicado pela Editora AGE em 2004, procurei descrever o processo de negociação cultural que desenvolvi, a título de assistência consular ao guri gaúcho Iruan Ergui Wu, retido em Taiwan, pela família paterna, entre 2001 e 2004, quando tive a necessidade de colocar em prática alguns dos ensinamentos que julgava haver aprendido quanto à negociação com o universo chinês.
Tratava-se, então, de fazer prevalecer que o menor possuía identidade cultural brasileira e que seu relacionamento familiar mais próximo era com a avó gaúcha. Foi um penoso e longo exercício, contornando obstáculos em interlocução com características da metodologia descrita acima, cheia de avanços e recuos, consensos e enunciados.
Parece que aprendera alguma coisa, pois, no início de 2004, após três longos anos de negociações com autoridades judiciárias formosinas, contando com a orientação de advogado local e com o apoio fundamental de uma “comissão interinstitucional” formada em Porto Alegre, integrada por pessoas advindas de diversas organizações governamentais e não governamentais, bem como jornalistas, que passaram a definir, com a autorização e apoio da família gaúcha, estratégias para a repatriação do guri, vencemos a disputa e, retornando a criança ao Brasil, pude entregar à avó gaúcha, “o doce neto, no Salgado Filho” (aeroporto de Porto Alegre). Durante este período, o noticiário foi amplamente coberto pela TV Globo, no Brasil. Sobre o assunto, publiquei recente artigo no jornal Zero Hora, do RS, em 10/02/2024.
De volta ao tema de soberania chinesa versus autodeterminação da Ilha, verifica-se que o cenário futuro favorável para a questão de Taiwan poderia ser descrito nas linhas gerais seguintes: haveria acordo quanto à renúncia taiwanesa à independência e ao término da ameaça chinesa de utilização da força para a reunificação. Prevaleceria a ideia de que existe apenas uma China, sujeita a duas interpretações, correspondente a cada margem do estreito.
Cabe reiterar que, historicamente, a Ilha de Formosa desfrutou de duas vantagens competitivas. A primeira é política: o fato de que, graças a uma prudente distância do continente chinês, manteve-se longe das turbulências que afetaram a vida interna da outra margem do estreito, durante séculos.
A segunda é geográfica, que a coloca próxima ao sempre vasto mercado da China. Com a fuga de Chiang Kai Check para Taipé, em 1949, ademais, a ilha foi inserida na esfera ocidental da Guerra Fria, como bastião da economia de mercado, contra o sistema socialista vitorioso na República Popular, recém-declarada por Mao. Daí vieram significativos investimentos, transferência de tecnologia, proteção militar e — principalmente — acesso ao mercado dos EUA a tudo que fosse produzido pelos aliados formosinos.
Não houve milagre: era necessário a Washington provar, no contexto de competição entre um sistema de mercado e um centralmente planificado, que o capitalismo seria vencedor. Aconteceu, portanto, o sucesso econômico formosino.
Imagine-se colocar os 25 milhões de taiwaneses, por exemplo, na Ilha de Marajó ou em Madagascar, longe do mercado chinês e sem o apoio incondicional dos EUA. Haveria, também, na ilha de Formosa, um milagre econômico justificado apenas pela autodeterminação?
Sobre o autor
Paulo Antônio Pereira Pinto: Embaixador aposentado.

