China e Índia — Emergência e Impacto no Novo Ordenamento Internacional
Paulo Antônio Pereira Pinto
Rio de Janeiro, em 9 de outubro de 2023
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China e Índia ocupam, hoje, parcelas quase idênticas de interesse no noticiário internacional, enquanto exercem a liderança em sucessivas reuniões de alto nível, com diferentes siglas e participantes diversificados.
Os chineses já despertavam atenções, desde o início do processo de abertura da República Popular ao exterior, na década de 1980. Os indianos, mais recentemente, passaram a provocar enorme curiosidade, pela ruptura gradual com modelo de desenvolvimento tradicionalmente fechado, em descompasso com a globalização.
Permeando os frequentes atuais relatos, encontram-se interpretações sobre “uma nova ordem internacional”, na qual Pequim e Nova Delhi teriam protagonismo equivalente. Tratar-se-ia da emergência de “paradigmas civilizacionais”, que viriam a competir com as instituições que têm regido o mundo a partir de 1945.
O interesse, agora, pela relevância das nações mais populosas do planeta e civilizações entre as mais antigas é, no entanto, com frequência, analisado apenas na perspectiva da crescente inserção internacional de suas economias, bem como a partir da cobiça quanto ao acesso de centenas de milhões de seus potenciais consumidores à oferta de produtos e serviços estrangeiros.
A propósito, o foco prioritário na dimensão econômica leva a crer que o progresso tecnológico em comunicações promoveria maior cooperação e entendimento entre os povos. Com uma melhor educação, as pessoas tornar-se-iam mais independentes e racionais.
Na medida em que as sociedades se tornassem mais afluentes, acreditava-se, superariam paixões “tribais” ou nacionalismos extremados, enquanto instituições globalizadas consolidar-se-iam, criando, mesmo, um novo ordenamento entre as nações.
Infelizmente, parece ter acontecido o contrário, pois, enquanto o mundo tornou-se mais rico e mais bem educado, diferenças identitárias também se fortaleceram. Nacionalismo e tribalismo tampouco desapareceram. Na prática, instituições transnacionais, como a ONU e a União Europeia tornaram-se fracas e sujeitas a crises.
Sabemos, agora, que a criação de uma economia global e a emergência de novas forças tecnológicas não erodiram culturas e valores locais. Verificou-se, pelo contrário, que, na medida em que as pessoas tiveram acesso a maior informação e educação, suas diferenças culturais se tornaram mais pronunciadas — não menos. Nesse processo, diferentes grupos demonstraram perseguir visões distintas de bem-estar, assim como reagiram de formas agressivas a ameaças perceptíveis a sua dignidade cultural.
Melhor direcionamento de foco, no que diz respeito à atual emergência da China e da Índia, deveria levar em conta, portanto, o grande desafio do entendimento de como as culturas evoluem, adaptam-se ou permanecem estáveis. Que tipo de influência estas alterações exercerão no cenário internacional?
Nesse sentido, chamam atenção especial, por um lado, as sucessivas declarações da China, de que sua condição atual de potência emergente deve ser entendida como uma nova fase histórica, marcada por “ascensão pacífica” do país, destinada a beneficiar seu entorno imediato e relações com o exterior.
Por outro, a Índia não busca nem expandir sua cultura, nem suas instituições democráticas. O que os indianos parecem analisar com grande precisão são os quesitos necessários para a segurança interna de sua multiculturalidade, em ambiente internacional estável.
A liderança atual indiana, portanto, parece entender que a inquietação mundial, provocada por rivalidades étnicas e religiosas, poderá afetar, também, seu próprio país. Daí, Nova Delhi ter que exercer amplo leque de interlocução com culturas que rodeiam a Índia.
As origens das duas civilizações
Verifica-se, a propósito, que mesmo existindo no Oriente e no Ocidente características sociais comuns a toda a humanidade, China e Índia foram historicamente influenciadas por formas específicas de organização, determinadas pelo clima e relevo regionais, e pelo conjunto de crenças e valores que levaram a instituições políticas e ideologias diferentes de outras partes do mundo.
A primeira parte deste exercício de reflexão tratará de condicionantes geográficas, que contribuíram para moldar as civilizações daqueles dois países, que, apesar de distintas, compartilham, no entanto, de efeitos de uma natureza ao mesmo tempo rica e invasora.
O clima, nessa perspectiva, permite distinguir claramente as regiões geográficas que formam a Ásia. Ao Norte, se estende a Ásia continental, isto é a Sibéria; ao Centro, aparecem desertos imensos; no Oeste, o clima mediterrâneo predomina, com algumas variações — todos estes tipos climáticos encontram equivalentes em outras partes do mundo.
No Subcontinente Indiano, contudo, há um fenômeno original, sem réplica alhures. Trata-se das monções, que ocorrem, em geral, de abril a setembro, e se caracterizam por fortes chuvas, que, por um lado, ajudam a desenvolver a agricultura e, por outro, podem causar inundações, colocando em risco a vida humana.
A vida, naquela região está ligada às variações deste clima das monções, que provoca ventos dos oceanos em direção ao continente, no verão, e do continente em direção aos oceanos, no inverno. O relevo também influenciou a ocupação humana, na medida em que reduziu as opções de áreas habitáveis.
A ocupação humana organizada na Ásia ocorreu, na China, a partir do terceiro milênio antes de Cristo. A civilização chinesa desenvolveu-se nas grandes planícies do Norte, onde a terra é amarela, chamada de “loess”, e favorece a agricultura.
A Índia foi povoada cerca de mil anos depois, com o surgimento de cidades com estruturas básicas. A grande pluviosidade foi, sem dúvida, o motivo que atraiu sucessivas levas de novos habitantes.
A Ásia das monções apresenta uma mistura complexa de civilizações de origens diversas, resultante de invasões sucessivas. Não se pode falar, nem no passado, nem hoje, em “unidade étnica”, na medida em que “raças” diferentes dividiram esta região e a ocuparam, em diferentes áreas e períodos.
Em função do relevo, a Índia permanece fechada à Ásia Central. A imensa barreira imposta pelo Himalaia separa solidamente a planície chinesa da bacia do rio Ganges. Em contrapartida, a Índia se abre em direção ao Ocidente. Apesar de quase desértico, o planalto iraniano — vizinho ao subcontinente indiano — não é intransponível e, portanto, sucessivas levas de imigrantes chegaram à Índia, procedentes da Ásia Ocidental, atravessando a Pérsia.
A Índia é, também, aberta ao exterior através do Golfo de Bengala, proporcionando-lhe uma vocação marítima e ligações comerciais milenares com diferentes partes do mundo.
Segundo dados disponíveis, os primeiros habitantes da Índia foram tribos “arianas” ou “indo-europeias”, originárias da Europa. Os “arianos” (Aryas) não modificaram as culturas encontradas no território que vieram ocupar. Introduziram, no entanto, o sistema de divisão da sociedade em “castas” estanques, que viria a alterar definitivamente as relações sociais em âmbito estrito e rígido.
Por influência dessas novas levas migratórias, são fortalecidos os vínculos com a Indochina, sem que este sistema de castas seja exportado para aquela sub-região. Registra-se, contudo, que a “ação civilizadora” exercida no Sudeste Asiático, a partir do século Mil antes de Cristo é de origem indiana.
Enquanto isso, a China — separada da Índia, ao Sul, pelos Himalaias — abre-se para o Norte e Noroeste, interagindo com povos da Mongólia, Turquestão, planície Caspiana e Mar Negro.
Os contatos dos chineses com o exterior são feitos por via terrestre. A China é, portanto, muito menos voltada para o mar, do que a Índia. Sua influência estende-se até o Japão, transitando pela península coreana. Atinge, também, parte da Indochina.
O mundo chinês é, portanto, muito mais concentrado sobre si próprio, do que o indiano.
O povoamento destas regiões é muito antigo. As pessoas foram se adaptando às condições naturais. Utilizaram a terra com criatividade, tornando-se sociedades agrícolas. Apesar de diferenças notáveis, entre as culturas chinesa e indiana, a espiritualidade asiática é marcada pela submissão às forças da natureza, bem como pela busca de riqueza e desenvolvimento puramente interior dos indivíduos.
A Ásia é uma expressão geográfica. Não corresponde a uma civilização particular. Agrupamentos humanos muito variados se espalharam por seu território. Uma “civilização asiática” se apresenta, apenas, no Extremo Oriente. Naquela área, com efeito, a vida humana se relaciona mais com o continente do que com o mar e seu litoral.
Pode-se falar, portanto, de um mundo do Oceano Pacífico e do Índico. Cada um destes deve ser estudado separadamente. A natureza e a história, no entanto, concederam traços comuns a estes dois vastos conjuntos, diferenciando-os do mundo Ocidental.
Assim, segundo dados históricos disponíveis, a dinastia “Chang” floresceu, na China, no Segundo Milênio antes de Cristo, tendo sucumbido a invasores conhecidos como os “Tchéous”.
Em seguida, um novo Império se organiza, mas é tão vasto que se fraciona em principados hostis uns aos outros. A Guerra Civil se intensifica até que uma família mais forte, a dos “Han”, impõe sua autoridade. Os quatro séculos de paz assegurados pelos Han são seguidos por novo período de anarquia até que veio a ser instalada a dinastia Tang (entre 618 e 907 DC).
Estas lutas internas, no entanto, não impediram que a China estendesse sua influência sobre a península coreana e ilhas japonesas.
Tais conflitos marcaram profundamente a mentalidade chinesa em dois aspectos principais: o camponês viveu sempre na ignorância sobre as causas dessas profundas alterações na vida política do país, enquanto consolidou completa indiferença quanto ao que se passava além do seu grupo social de interesse mais próximo; e o comércio e a agricultura se desenvolveram à margem dos grandes movimentos políticos que sacudiram o Império chinês, através dos séculos.
Enquanto isso, até a chegada dos conquistadores turcos-afegãos, no século XII, as sucessivas levas de invasores ou novos imigrantes que chegavam à Índia foram sendo absorvidos pelas civilizações já estabelecidas na área. Assim acontecera com gregos, hunos e diferentes grupos e tribos da Ásia Central.
Com turcos e afegãos, no entanto, veio novo elemento cultural que não foi absorvido pelo Hinduísmo — o Islã.
Mesmo que estas duas religiões tenham permanecido separadas e distintas a civilização que chegou à Índia com o Islã começou a influenciar todos os aspectos da vida local, criando o que alguns estudiosos chamaram de uma cultura Indo-Islâmica, particularmente no Norte do país.
Dois debates são criados, com respeito ao relacionamento entre a Índia e o Islã.[1] O primeiro é histórico. Estudiosos ocidentais descrevem as dinastias turco-afegãs e suas sucessoras, Mughals, como o período de regência muçulmana na Índia. Outro grupo de acadêmicos discorda. Para estes, a comunidade muçulmana não exerceu poder, tendo, na verdade, compartilhado o poder com lideranças comunitárias locais.
O segundo debate diz respeito à teoria de que haveria duas “nações” na Índia, após a chegada do Islã àquele país. Este ponto-de-vista justifica a divisão atual do subcontinente, com a criação do Paquistão.
Os que se opõem a tal interpretação assinalam que o sentimento de nacionalidade surgiu, na Índia, apenas em meados do século XIX. Havia uma elite muçulmana, naquela época, mas o país fora governado pelos ingleses.
Tais debates podem parecer obscuros, mas conduzem ao âmago da questão da identidade indiana, na medida em que coloca o país em condição de absorver influências externas, sem perder seu sentido de identidade.
Caberia, por exemplo, comparar as posturas chinesa e indiana, no processo de absorção de influências ocidentais, a partir do início do século XVIII.
No que diz respeito à China, estes aportes do exterior ocorreram quando sua civilização e sistema de governança estavam enfraquecidos. Neste país, as pressões exercidas de fora, portanto, foram mais traumáticas do que na Índia.
No caso chinês, houve evolução no sentido a um “nacionalismo” e totalitarismo, que se fundiram durante a fase maoísta. Na Índia, as influências externas levaram a uma democracia vigorosa.
A Espiritualidade nas duas Culturas
Procura-se, a seguir, analisar, em linhas reconhecidamente simplificadas, como a emergência da China e Índia, com suas diferentes percepções sobre a espiritualidade, podem impactar o ordenamento internacional vigente.
Verifica-se, a propósito, que a mente ocidental judaico-cristã desenvolveu e favoreceu uma visão otimista da evolução da humanidade e, nesse processo, consolidou-se uma fé na capacidade do homem aperfeiçoar-se, através de um melhor planejamento, da tecnologia, da ampliação da educação e da abertura de oportunidades para todos.
Enquanto isso, o pensamento asiático hindu-budista se sente à mercê de forças destrutivas: da natureza, como doenças; dos homens, como a guerra; e do passar do tempo, que, ao decorrer da longa história das nações daquela parte do mundo, tem engolido indivíduos, reinos e cidades.
No Ocidente, valoriza-se a genialidade humana para inventar, organizar e disciplinar o espaço geográfico, com o intuito de controlar as forças móveis da natureza. Assim, os indivíduos são os agentes que provocam mudanças — a natureza permanece a mesma. Esta pode ser conquistada pela análise científica e pode ser subjugada pelos avanços da humanidade.
Os pensadores europeus do Século XVIII acreditavam no “iluminismo coletivo”, isto é, na sabedoria, como um combate à escuridão do desconhecimento, tornando a sociedade perfeita, nobre e pura. Os do Século XIX valorizaram o progresso material e coletivo, a conquista das forças da natureza, a abolição da violência, da escravidão, da injustiça e a vitória sobre o sofrimento e morte prematura. O Ocidente chegou, ao Século XX, convencido de que apenas com intenso a extenso planejamento e organização pode a civilização humana ser salva[2].
No mundo ocidental, hoje, a fragilidade da vida humana não causa mais obsessão, na forma sofrida pelos antepassados, dos Séculos XV e XVI. Ao invés de atitude de aceitação, resignação e contemplação, cultiva-se uma vida de movimento constante, provocando mudanças a cada volta, melhorando e planejando as coisas, submetendo o crescimento do mundo a alterações previsíveis.
Em suma, ao invés de procurar entender a vida e o cosmo como um todo, busca-se o controle sobre detalhes concretos.
A espiritualidade asiática foi sempre intensa, a ponto de permear a arte, tornando-a, com frequência, expressão tipicamente religiosa.
Na China, durante períodos como o da Dinastia Tang houve a construção de estátuas imensas e pagodes. Mas os chineses vivenciaram momentos em que floresceu uma arte desengajada de qualquer preocupação divina.
A Índia, de sua parte, sempre esteve inteiramente voltada para a especulação religiosa. As primeiras grandes construções indianas datam do II milênio antes de Cristo e são santuários. Em seguida, vieram as “stupas”, que são imensas construções “hemisféricas” ou cônicas, ao mesmo tempo, símbolos místicos e monumentos comemorativos.
Ente os séculos IX e XVIII D.C. a Índia se cobre de templos, enquanto a influência espiritual indiana se estende pelo Sudeste Asiático. Os imensos conjuntos de Angkor Vat, no Camboja, e os templos de Bangkok são alguns exemplos do papel espiritual desempenhado pela Índia.
A Ásia das monções, contudo, não foi berço de religião alguma — no sentido de ter fornecido um conjunto de regras, dogmas, revelações religiosas precisas, acompanhadas de imperativos. A espiritualidade asiática, portanto, não segue ordenamento prático, nos moldes a que estamos acostumados no Ocidente. Trata-se, portanto, antes de tudo, de um exercício de meditação, um voltar-se para o seu próprio interior, um esforço de concentração.
Uma análise superficial da espiritualidade indiana parece indicar que esta se aproximaria de formas religiosas do Ocidente. À época das invasões indo-europeias, a Índia assiste à implantação em seu território de uma tradição religiosa à qual é dado o nome de “Veda” (O Saber).
O Veda é uma revelação “vinda do alto”, mas não pode ser comparada às revelações na forma concebida pelas “religiões mediterrâneas”[3]. O “Saber” seria proveniente do “Brahma” que é, em grande medida, a “palavra”, o “Espírito Absoluto”. O Bhrama é a “unidade”, cada alma é uma parte destacada desta unidade, que só se reencontra quando volta a se fundir no “todo”.
Essa crença foi denominada Bramanismo ou Hinduísmo, com seus “deuses” maiores ou menores, seus templos e cerimoniais. Desenvolveu-se, assim, um ritual do Bramanismo, paralelamente a um aspecto puramente espiritual, que é a espera ao retorno ao “Universal”.
No século VI antes de Cristo, uma nova concepção espiritual, o Budismo, se expandiu a partir dos Himalaias. Verifica-se, a propósito, que o Budismo não pretende, nem inovar, nem complementar, nem combater, nem substituir o Bramanismo. Desenvolve-se ao lado do Bramanismo, sem confirmá-lo ou contradizê-lo.
O Budismo foi apresentado à Índia em momento de grandes convulsões sociais, provocadas por guerras internas e invasões externas. Seria, em grande medida, uma forma de consolo a povoações rurais que não dispunham de grandes expectativas quanto a sua própria existência.
As relações estreitas entre a natureza, a vinculação profunda num mundo camponês, limitado por laços familiares, são ainda mais sensíveis no universo chinês do que no espaço indiano.
O Budismo exerceu influência sensível na China. Durante a Dinastia Tang (618 a 907), manifestou-se através da influência no desenvolvimento de esculturas. Os chineses guardaram do Budismo, acima de tudo, o desprendimento das coisas deste mundo. Mas, com frequência, seguiram sua própria via.
No VI século AC, Confúcio veio propor-lhes soluções bem distintas do Budismo. Tendo como ponto de partida, também, sua sociedade contemporânea, Confúcio chegou a solução bastante distinta daquela do Budismo. Isto porque o “momento presente” também não lhe parecia perfeito — longe disso — mas ele identificava possibilidades de transformações. Estas aconteceriam através do controle dos impulsos pessoais. Não seria necessário, como acreditam os budistas, “escapar de tudo”. Pelo contrário, caberia adaptar-se.
Confúcio, assim, apresenta uma filosofia que considera o homem dentro da natureza, que se expressa pelo culto do passado, considerado como uma Era melhor, e pela comunhão com o mundo material. Daí resulta, para seus seguidores, a busca permanente da harmonia que se manifesta através do gosto por uma escrita extraordinária. A caligrafia é bela em seus menores detalhes. A pintura de paisagens, como se refletissem o estado da alma, é também levada a extremos do bom gosto.
A pintura, ademais, é influenciada por um outro aspecto do pensamento chinês: o Taoismo, que é uma doutrina mais recente do que o Confucionismo. O Taoismo é uma forma de meditação sobre a ordem da natureza, muito mais mística do que o Confucionismo, na medida em que se submete à essência do mundo para poder penetrá-lo.
Alguns pensadores concluem que a espiritualidade oriental apresenta grandezas e fraquezas, na medida em que, por um lado, é superior ao pensamento ocidental, que jamais soube dedicar a mesma humildade e busca de compreensão — a exemplo da espiritualidade oriental — às leis do mundo, aceitá-las e ir além delas (“les dépasser”)[4]. A “simpatia universal” que, no entanto, submete o pensamento asiático à passividade, dificulta a luta das pessoas daquela parte do mundo, contra as forças da natureza, as destruições provocadas por sucessivas guerras e o condicionamento de hábitos consagrados por heranças milenares.
A sociedade indiana, por exemplo, é o resultado da assimilação de centenas de influências culturais, originárias da Europa e Ásia, trazidas dos continentes europeu e asiático. A Índia incorporou, portanto, costumes e crenças das diferentes civilizações que a invadiram ou lá se estabeleceram. Como resultado, hoje existem no país 17 línguas oficiais e algumas centenas de dialetos.
Mas a Índia não foi apenas “importadora” de cultura. Foi também “exportadora”. O Sânscrito, como se sabe, é uma língua originária na Índia e raiz de línguas indo-europeias, como o grego e o latim.
O Budismo nasceu na Índia, derivado do Hinduísmo, mas praticamente desapareceu de seu país de origem, espalhando-se pela Ásia e outras regiões. O Hinduísmo, no entanto, foi difundido pelo Sudeste Asiático, mas continuou a florescer, principalmente no território indiano.
Verifica-se, a propósito, que o Hinduísmo parece adaptar-se perfeitamente à sociedade indiana — há quem diga que, nesse caso, a religião influencia a sociedade e vice-versa. Isto é, a profusão de “deuses” oferece ampla escolha de devoção aos fiéis a teria ajudado no estabelecimento de sistema casta que sobrevive há 3.000 anos.
As origens espirituais
É possível notar, com respeito à espiritualidade oriental, uma submissão quase que mística à ordem das coisas que o espírito humano espera penetrar de forma dócil.
A sabedoria chinesa não tem a mesma profundidade do misticismo indiano. Enquanto se endereça a uma povoação de camponeses, o Confucionismo desenvolve uma moral de simpatia humana e resignação.
Diante da espiritualidade oriental, o Cristianismo, permeado, também, de forte carga de misticismo, aparece como uma doutrina de ação. A caridade que o Cristo pregou é, assim, uma caridade ativa.
Para todos os cristãos, o dogma é idêntico. Mas a interpretação do relacionamento entre o homem e Deus varia consideravelmente. Os católicos concebem estas relações como um diálogo entre a criatura e o Criador. Os ortodoxos percebem, de sua parte, uma subordinação do finito ao infinito. Existe, assim, para os católicos, uma troca ativa; para os ortodoxos, a aceitação.
Em toda a extensão do Corão, aparece a referência constante à vontade de Deus. O muçulmano acredita e, porque ele acredita, obedece.
Até a chegada dos conquistadores turcos-afegãos, no século XII, as sucessivas levas de invasores ou novos imigrantes que chegavam à Índia foram sendo absorvidos pelas civilizações já estabelecidas na área. Assim acontecera com gregos, hunos e diferentes grupos e tribos da Ásia Central.
Com turcos e afegãos, no entanto, veio novo elemento cultural que não foi absorvido pelo Hinduísmo — o Islã.
Mesmo que estas duas religiões tenham permanecido separadas e distintas a civilização que chegou à Índia com o Islã começou a influenciar todos os aspectos da vida local, criando o que alguns estudiosos chamaram de uma cultura Indo-Islâmica, particularmente no Norte do país.
Dois debates são criados, com respeito ao relacionamento entre a Índia e o Islã. O primeiro é histórico. Estudiosos ocidentais descrevem as dinastias turco-afegãs e suas sucessoras, Mughals, como o período de regência muçulmana na Índia. Outro grupo de acadêmicos discorda. Para estes, a comunidade muçulmana não exerceu poder, tendo, na verdade, compartilhado o poder com lideranças comunitárias locais.
Conclusão
Conforme mencionado no início deste artigo, China e Índia ocupam, hoje, espaços quase idênticos nas atenções mundiais.
A importância maior da atual emergência da China e da Índia encontra-se, no entanto, na análise de como estas culturas evoluíram e se adaptaram aos sucessivos desafios históricos que lhe foram impostos. Que tipo de influência futura estas alterações terão no ordenamento do cenário internacional?
A China tem reiterado que sua condição atual de potência emergente deve ser entendida como uma nova fase histórica, marcada por “ascensão pacífica” do país, destinada a beneficiar seu entorno imediato e relações com o exterior. Nesse contexto, cabe examinar o crescente compromisso de Pequim com as nações ao Sul de suas fronteiras, que representariam o agrupamento regional, ASEAN, onde aconteceria, prioritariamente, esta “ascensão chinesa”. (Em textos anteriores, analisei esta questão).
Quanto ao fenômeno indiano, cabe avaliar se existe, realmente, processo sustentável de crescimento ou se não se trata, por um lado, de exercício promocional do Governo de Nova Delhi, com sua campanha de divulgação de oportunidades de investimento, ou, por outro, de contraofensiva de empresas multinacionais assustadas com sua excessiva dependência da economia chinesa e, portanto, interessadas em criar alternativa para seus investimentos.
Ao contrário dos chineses, os indianos nunca procuraram expandir sua cultura, nem suas instituições democráticas. Sua grande preocupação parece ser a garantia da segurança interna de sua multiculturalidade, em ambiente internacional estável. A liderança atual indiana, portanto, parece entender que a inquietação mundial, provocada por rivalidades étnicas e religiosas, poderá afetar, também, seu próprio país. Daí, Nova Delhi ter que exercer amplo leque de interlocução com culturas que rodeiam a Índia.
Na medida em que se consolide a emergência destes dois países, que possuem laços de vizinhança milenares, bem como se desenvolvam cooperação mais intensa e troca de ensinamentos sobre como administrar seus respectivos processos de crescimento exponenciais, haverá, sem dúvida, impacto significativo no ordenamento político internacional.
Basta lembrar que, há pouco mais de 50 anos, foram ambos os promotores dos chamados Cinco Princípios de Convivência Pacífica. Caberia, agora, desejar que contribuam para um relacionamento internacional baseado no respeito mútuo entre culturas diversas.
As comparações entre os países que adotam como símbolo, respectivamente, o elefante e o dragão seriam inúmeras. Conta lenda regional, contudo, que o dragão teria o hábito de devorar o filhote do elefante. Enraivecido o pai da cria seria capaz de enfrentar o inimigo. Ao término da peleia, o dragão estrangularia o paquiderme que, com seu peso, cairia ao chão, esmagando o adversário com seu peso. Haveria destruição mútua.
Espera-se, nesta perspectiva, que a competição entre os dois gigantes asiáticos continue a ocorrer em termos pacíficos e simbólicos, prevalecendo os traços favoráveis da elegância do elefante e da imponência do dragão.
A contribuição de China e Índia, para o tal “novo ordenamento internacional”, teria, assim, um início auspicioso.
Notas
[1] Vide “Asia Pacific: A View on its Role in the New World Order”, por Michael S. Dobbs-Higginson,, editado por Longman 1993.
[2] “Le Monde Contemporain — Histoire — Civilizations”. “Collection d’Histoire Luis Girard”. Bordas 1966.
[3] Vide “Philosophies of India”, por Heinrich Zimmer. Editado por Joseph Campbell. Bollingen Series/Pinceton 1989.
[4] “Le Monde Contemporain” “Histoire — Civilisations” –Collection d’Histoire Luis Girard. Bordas, 1966..
Sobre o autor
Paulo Antônio Pereira Pinto: Embaixador aposentado. Serviu em Pequim, como Diplomata, entre 1982 e 1985. No Sudeste Asiático, onde influência cultural chinesa e indiana é intensa, trabalhou nas Embaixadas em Kuala Lumpur, Singapura e Manila, entre 1986 e 1995. Foi Diretor do Escritório Econômico e Comercial do Brasil em Taipé, Taiwan, de 1998 a 2006. Entre 2006 e 2009, foi o primeiro Cônsul-Geral do Brasil em Mumbai, Índia.

