China — a Rota das Sedas e “o vento que sopra do oriente”
Paulo Antônio Pereira Pinto

Rio de Janeiro, 20 novembro de 2023
“Ou o vento do Oriente prevalece sobre o vento do Ocidente, ou o do Ocidente prevalece sobre o do Oriente”, escreveu Mao Zedong, em 1957, na sua linguagem ao mesmo tempo poética e belicosa para descrever o conflito bipolar, então existente. Seis décadas mais tarde, a atual liderança em Pequim está conseguindo que ganhe vigor o vento oriental, por meio de iniciativa denominada “Cinturão e Rota”.
Marcante, nessa “proposta meteorologia sínica”, foi o fato de que o primeiro trem a fazer o percurso da China ao Reino Unido foi batizado de “East Wind”, tendo levado 16 dias para percorrer 12 mil quilômetros, atravessando Cazaquistão, Rússia, Belarus, Polônia, Alemanha, Bélgica, França até chegar à área Londrina. Estima-se que teria feito a viagem utilizando um quinto do tempo que seria gasto por via marítima.
Em sua dimensão estratégica atual, no dia 27 de outubro de 2023, o Presidente da República Popular da China, Xi Jinping, comemorou os 10 anos de lançamento do projeto do Cinturão e Rota das Sedas, com a presença, em Pequim, de representantes de dezenas de países e organizações internacionais, incluindo o Presidente Vladimir Putin, da Rússia, e do Secretário-Geral da ONU, Antônio Guterres.
Na ocasião, Xi afirmou que a China seria o único país “capaz de navegar os desafios do século XXI”. “Mudanças no mundo de hoje são de significado histórico e estão ocorrendo como nunca”, afirmou aos que participaram do “Belt and Road Forum”. Segundo ele “a China dedicaria esforços incansáveis para levar a modernização a todos os países” e para construir “um futuro compartilhado por toda a humanidade”.
A visão de Xi expressa a proposta atual do Partido Comunista da China, no sentido de “reformular o sistema internacional, que agora favoreceria os Estados Unidos da América e seus aliados”. Na sua perspectiva, o vento do Oriente continuaria a prevalecer sobre o do Ocidente.
Seria possível, para tanto, que houvesse renúncia à “soft power” ora exercida, de forma global, pelo “American way of life”? Isto em favor de “harmonia planetária” sugerida por “poder suave com características chinesas”?
Encontra-se disponível ampla bibliografia sobre valores, quantidades e composição das mercadorias transportadas, nas travessias de ida e volta por ferrovias ora criadas pela China, em direção à Europa. Já têm sido, também, exaustivamente descritos os caminhos que levariam “o vento leste a ser, hoje, mais forte que o do Oeste”, na medida em que são louvados os atuais ganhos geopolíticos chineses.
No sentido contrário, amplas críticas são divulgadas a respeito desta expansão da economia e valores de governança chineses — como resultado do projeto — em termos de conflitos com identidades culturais diversas, excessivos ganhos para a China e, mesmo, facilitação de novos canais para a expansão de vírus, com eventual origem na RPC, entre outros malefícios da mesma proposta.
Para os países considerados rivais, Pequim acreditaria que o momento seria propício para alterar o equilíbrio de poder mundial, assegurando, cada vez mais, a ascensão da China.
Nesse sentido, os chineses têm promovido seu “modelo de governança alternativo” através de inciativas globais, com o objetivo de conseguir apoio em diferentes partes do mundo. Para alguns observadores, esta promoção de valores de formas de governança chinesas cria temores quanto à consagração de “normas de governo autocráticas” — tais como pesadas formas de controle social, censura e repressão política — que poderiam tornar-se práticas aceitáveis, em outras partes do mundo.
Ademais, a atual pressão chinesa para sobrepor-se aos EUA, acontece em momento de “grande turbulência sob o céu” [1], na medida em que acontecem guerras na Europa e Oriente Médio, contesta-se a hegemonia unipolar norte-americana e questões climáticas surgem por todas as partes do mundo. Esse contexto coincide com a reivindicação, pelo “Sul Global”, de uma ordem internacional mais justa e com múltiplos polos.
Muitos destes países, menos favorecidos atualmente, reforçaram seus laços econômicos com Pequim durante a presidência de Xi, que, como sabe, tem divulgado que “durante uma década, a China pretende investir até UM TRILHÃO DE DÓLARES NORTE AMERICANOS na construção de infraestrutura de seus aliados”.
Não é possível assegurar que, na sequência da promessa de tamanho investimento, países a serem beneficiados viriam a adotar a visão de mundo e formas de governança chinesa.
O exercício de reflexão a seguir, no entanto, preocupa-se mais com a evolução histórica que permitiu à China prevalecer em sua inserção internacional no entorno que lhe é mais próximo. As áreas a serem analisadas são o Sudeste Asiático e a Ásia Central. Será concedida ênfase ao discurso atual do Governo de Pequim, no que diz respeito a cada uma destas regiões.
De início, é feita referência ao esforço de Pequim em recorrer à História, para demonstrar a importância dos oceanos na interação entre a “civilização terrestre chinesa” e as civilizações ultramarinas, enquanto busca dar versão benigna à viagem do Almirante Zheng He, ocorrida há 600 anos, ao Sudeste Asiático. Em seguida, busca-se explicar os objetivos atuais da diplomacia chinesa destinada a traçar novo perfil de influência na Ásia Oriental.
No que diz respeito aos efeitos dos périplos de Zheng He há, no entanto, críticos severos da tese atual dos dirigentes chineses, quanto a apenas efeitos benéficos do empreendimento. Setores de opinião contrária descrevem suas viagens como predadoras e destinadas a criar vínculos de dependência, entre as nações visitadas e o então poderoso Império chinês.
Os dirigentes chineses pretendem, de qualquer forma, resgatar as referidas expedições marítimas históricas como registro de suas “intenções pacíficas” e exemplo da permanente busca de “harmonia” — em oposição a “hegemonia” — nas relações da China com seus vizinhos ao sul de suas fronteiras. O Partido Comunista Chinês (PCC), portanto, se esforça, tanto no plano interno, quanto no das relações com o exterior, no sentido do convencimento de que, em todos os momentos de emergência do país — há 600 anos, como agora — a China pode ser forte, sem representar ameaça regional ou mundial.
Este enunciado de intenções pode ser tranquilizador para os que habitam ao sul da China. Na década de 1980, principalmente, havia extrema preocupação, no Sudeste Asiático, quanto a possível “China Threat”, diante da abertura daquele país ao exterior. Agora, haveria pelo menos um enunciado de intenções pacíficas sínicas com respeito a seus vizinhos austrais.
Verifica-se, contudo, certa preocupação quanto à outra proposta chinesa. A de criação de uma nova Rota das Sedas, como um projeto estratégico que visa a transformar a Ásia Central de sua condição atual de “land locked” (sem acesso ao mar) em “land-linked” (com ligação terrestre) proporcionando, assim, acesso a mercados e portos no Oceano Índico, Golfo Pérsico e Oceano Atlântico.
Sua implementação representará, sem dúvida, a melhoria da malha ferroviária através da região, ligando o Irã ao Tajiquistão, atravessando o Afeganistão e chegando à fronteira com a China. Em sua dimensão de “ponte terrestre eurasiana”, conjuntos de ferrovias, estradas e dutos conduzirão bens e recursos naturais, nos dois sentidos, entre o porto de Lianyungang, na China oriental, através do Cazaquistão, na Ásia Central, até Roterdam, e entre o delta do Rio das Pérolas, no sudeste da China, através do Sudeste Asiático, e também Roterdam. Cabe lembrar que já existe a ferrovia transiberiana, no percurso de Vladivostok, na Rússia oriental, a Roterdam.
A RPC entende, nessa perspectiva, uma “New Silk Route” como ligação terrestre para facilitar seu abastecimento de recursos naturais e a venda de produtos “made in China”. Alguns setores de opinião preocupam-se, contudo, com possível necessidade chinesa de que esta intensa capilaridade de ferrovias, estradas e dutos conte, na área a ser percorrida por tais vias de transporte, com proteção militar, seja local ou, eventualmente, mesmo fornecida por Pequim.[2]
Torna-se pouco convincente, a propósito, que a China queira relacionar sua expansão, pelo continente eurasiano, com o ressurgimento da “Rota das Sedas”. A visão chinesa, neste caso, busca a mesma justificativa utilizada no caso das viagens marítimas do já referido Almirante Zheng He, que projetara — sempre de acordo com a narrativa de Pequim — poder e cultura chineses superiores, principalmente no Sudeste Asiático, há seiscentos anos.
Nessa perspectiva, pretendo, inicialmente, examinar o crescente compromisso de Pequim com as nações ao Sul de suas fronteiras, que representariam o agrupamento regional onde aconteceria, prioritariamente, esta “ascensão chinesa”, em benefício de futuro compartilhado.
A China e o Sudeste Asiático durante a Dinastia Ming
O Sudeste Asiático é situado na confluência de rotas comerciais entre o Ocidente e o Oriente e, portanto, absorveu variadas culturas. O intercâmbio entre aquela região e mundo exterior ocorreu, principalmente, ao redor do Mar do Sul da China, do Mar de Java e do Estreito de Malaca, que se situam nas proximidades da China e da Índia e entre os oceanos Pacífico e Índico.
Antes da chegada dos europeus, no século XV, entre os anos 800 e 1368 — período que marcou o final da dinastia Yuan e início da Ming — comerciantes chineses começaram a visitar a região.
Conforme já mencionado em artigos publicados anteriormente, o navegador chinês mais importante desta época foi o Almirante Zheng He que, entre 1405 e 1433 — dinastia Ming — efetuou sete expedições ao Sul das fronteiras chinesas, estabelecendo entrepostos comerciais, sob a autoridade do Imperador Yongle. Segundo seus relatos sobre as relações da antiga China Imperial com o Sudeste Asiático ou “Nanyang”, eram caracterizadas pelo tratamento diferenciado concedido a três grupos de “unidades tribais e políticas” então identificados. Hoje, tais conjuntos correspondem aos países seguintes: o constituído por Myanmar, Laos e Vietnã; o formado pela Malásia, Cingapura, Indonésia, Filipinas e Brunei; e o do Camboja e Tailândia
Há correntes de pensamento atual que atribuem efeitos benignos à herança deixada, durante os périplos do navegador. Outros analistas têm opinião contrária.
Segundo os que procuram relacionar o “caráter pacífico” das viagens de Zheng He, com o atual processo de “ascensão pacífica” chinesa, o navegador chinês teria deixado, como legado de suas visitas, atitude de “coexistência pacífica entre diferentes religiões e grupos étnicos”. Teria promovido, então, espírito de tolerância, abertura e inclusão, através do comércio e intercâmbio cultural[3].
Assim — sempre de acordo com este ponto-de-vista — os imigrantes chineses que se instalaram em diversos pontos do Sudeste Asiático, com o apoio de Zheng He, foram os fundadores de muitas cidades costeiras. Nesse processo, estabeleceram princípios básicos de urbanismo, criaram portos, templos, mercados, ruas comerciais e salões de encontro, proporcionando identidade própria aos locais que então adotavam como nova residência.
Em contrapartida, os chineses tornar-se-iam “nativos” das localidades em que se instalavam, incorporando características regionais — como a arquitetura — a sua própria identidade cultural. Assim, formas de organização urbana inovadoras foram surgindo, incorporando elementos chineses e nativos, além de outras influências, resultando em paisagens que mesclavam elementos de diferentes origens.
Entre os principais críticos dos propósitos e legado das sete viagens de Zheng He, encontra-se o Prof. Geoff Wade, da Universidade Nacional de Cingapura [4]. Nesse sentido, este autor afirma que as expedições do Almirante chinês representaram, na verdade, missões colonizadoras e de invasão, com pouca diferença das empreitadas portuguesas no século XVI.
Segundo seu ponto-de-vista, 300 dos 400 navios utilizados por Zheng eram embarcações militares, e, entre os 28.000 tripulantes, a maioria eram soldados. Citando fontes históricas chinesas, o Sr. Wade informa que, no século XV, não havia potência marítima, seja na Ásia Oriental ou no Sudeste daquela região, capaz de representar ameaça a tal armada. Pouco sentido defensivo existiria, portanto, para que o navegador chinês contasse com tamanho poderio.
Não são encontrados registros, contudo, de que Zheng He tenha deixado, nas áreas incluídas em seus sucessivos périplos, um único navio, soldados ou “colonizadores”. Seria, então, distinto o relacionamento do Império chinês com as nações ao Sul de suas fronteiras.
O Perfil da Influência Chinesa
Desde o início da Dinastia Yin, em 3,000 A.C., a China desenvolveu sua própria civilização em isolamento, sem se defrontar com concorrente algum entre as culturas vizinhas. As tribos periféricas foram sempre menos adiantadas e, com frequência, aceitavam o Imperador chinês como seu próprio suserano.
A ausência de rivais levava os chineses a dedicarem desprezo aos povos situados em seu entorno. Mesmo em momentos de fraqueza da China, quando alguns destes chegaram a invadi-la, como no caso dos mongóis (Século XII), os bárbaros acabavam sucumbindo perante a superioridade da cultura chinesa. Não havia, portanto, a noção de igualdade entre Estados.
Os chineses desenvolveram, bem cedo, uma visão sinocêntrica do mundo. Este pensamento incluía dois componentes principais. O primeiro era a ideia de que o Imperador da China reinava sobre aquele país e as áreas vizinhas, sem que, entre estas, fosse estabelecida qualquer distinção ou limites geográficos — eram consideradas simplesmente uma vasta mancha amorfa.
O segundo aspecto dizia respeito à percepção chinesa de que o mundo — dentro dos limites então alcançáveis — poderia ser governado de forma harmoniosa e pacífica, como uma sociedade ideal, sob o mando de um Imperador virtuoso. Unidade e harmonia eram, assim, os objetivos a serem atingidos, numa visão utópica de como deveriam estabelecer-se as relações internacionais, sempre ditadas a partir de um centro de decisões localizado dentro da China[5].
Traço também característico, resultante dessa noção de superioridade chinesa, era a atitude de desdém com respeito ao comércio internacional, delegado a populações de outras etnias, principalmente maláia. Tal postura era devida ao fato de que a sociedade chinesa ter sido, essencialmente, agrária, não necessitando, como as potências europeias do século XVI, de acesso a recursos naturais, mercados e, portanto, de colônias.
Assim, no início da Dinastia Ming, o Imperador Zhu Yuanzhang desincentivou o comércio exterior, enquanto dedicava os recursos do país apenas a atividades agrícolas.
Segundo decreto deste Imperador, “Todos os estados estrangeiros bárbaros além das montanhas e mares são situados em lugares isolados do universo. Capturá-los seria fútil, pois não são capazes de nos fornecer suprimentos ou alimentos adequados. Qualquer tentativa de civilizá-los seria insignificante. Caso cometam a imprudência de nos invadir, sem avaliar suas próprias fraquezas, será desastroso para eles. Seria, contudo, de mau agouro para nós montar uma operação militar contra eles, desde que não representem ameaça à China. Apenas porque a China é rica e forte não é motivo suficiente para usufruir a satisfação de derrotar os outros. Não há razão para ações de caráter militar, visando a causar sofrimento a outros povos — devemos lembrar que não nos cabe fazer isso”[6].
Assim, laços de vassalagem foram mantidos com Myanmar, Laos e Vietnã, até o final da Dinastia Qing, marcado pela instalação do sistema republicano, em 1912. A região predominantemente marítima do Sudeste Asiático — atualmente integrada por Indonésia, Malásia, Cingapura, Brunei e Filipinas — logo se separou da área de influência direta chinesa. Tailândia e Camboja ficaram em situação de dependência intermediária.
A lógica do relacionamento entre os estados tributários — ou vassalos — e o Império chinês derivava do próprio sistema de relações sociais entre o Imperador e seus súditos, previsto nas normas confucionistas, adotadas desde o século VI A.C. De acordo com estas, o Imperador era soberano sobre todos “sob o Céu” e, na medida em que todo o mundo então conhecido era considerado “território imperial”, “todos os cidadãos do mundo deveriam pagar tributo ao Imperador”.
Nessa perspectiva, até o século XIX, a China permaneceu como a força política dominante, bem como o radiante centro de civilização na região, em virtude de seu desenvolvimento cultural e sofisticado sistema de organização política. Por isso, os países do Sudeste Asiático eram mais ou menos atraídos à esfera de influência chinesa, em busca de fonte de inspiração e legitimidade política. O Império chinês reciprocava, atribuindo à Nanyang vínculos especiais.
Tal coincidência de interesses gerou a formação de esquema de vassalagem em que praticamente todos os países da região pagavam tributos à China, em troca de reconhecimento, de proteção militar e assistência, quando de situações de crise. Em diferentes ocasiões, a China chegou mesmo a intervir, tanto política quanto militarmente, fosse a convite de Governos locais para restaurar a ordem, fosse por sua própria iniciativa para manter a estabilidade e a paz em suas fronteiras.
Cabe ressaltar que as relações da China com o Sudeste Asiático foram historicamente cordiais, marcadas pela busca constante do equilíbrio regional. Os chineses, sem nunca renunciarem a sua visão sinocêntrica do mundo, demonstravam determinação no sentido de pacificarem os “bárbaros” situados ao Sul de suas fronteiras, ao mesmo tempo em que procuravam transmitir-lhes suas normas de comportamento confucionista.
A moldura política pretendida pelo Império do Centro, contudo, era de caráter eminentemente cultural, sem o estabelecimento de presença política direta no Sudeste Asiático, sempre que seus vizinhos não representassem ameaça ao equilíbrio da área.
Nesta perspectiva, a influência criada pela China era expressa pela sua incontestável superioridade em termos de organização política e social e produção de normas éticas de procedimento executadas exemplarmente pelos próprios chineses, na convivência entre nações. Não se procurava o domínio econômico ou a conquista territorial dos Estados vizinhos, com o emprego da força. Como resultado, o Sudeste Asiático tinha a percepção constante da existência de uma potência regional a ser levada em conta, mas não permanentemente temida[7].
A razão principal para que a China exercesse papel estabilizador na área, portanto, era devida à adoção pelos países vizinhos de sistema político-social semelhante ao monárquico chinês. Suas economias funcionavam, também, de forma similar e, através de intenso intercâmbio comercial, eram complementares.
Não existe um padrão de coerência e continuidade que permita traçar a evolução histórica da área da Bacia do Pacífico, até o século XX, de acordo com a metodologia normalmente utilizada para o estudo do progresso de civilizações ao redor do Mediterrâneo e Atlântico[8].
Isto é, enquanto a China simplesmente encarava os Estados ao Sul de suas fronteiras como a periferia de seus domínios, naquelas outras partes do mundo desenvolvia-se intenso intercâmbio e trocas de influência, entre formações sociais cujo peso político variou através dos séculos, ora se equivalendo, ora uma superando a outra, mas, sempre, interagindo.
O interesse dos chineses pela “bacia” do oceano que banha seu país, por outro lado variou muito em intensidade, no decorrer do tempo. Nunca houve uma visão estratégica ou de conjunto com respeito à “Nanyang”. O nome “Pacífico” só foi cunhado no século XVI, por Fernando Magalhães, após ter navegado por mares bem mais agitados, em seu entender.
Em linhas simplificadas, contudo, é possível verificar que tal formato de relacionamento foi fonte, tanto de moldura de estabilidade regional, incluindo a China e o Sudeste Asiático, que perdurou durante séculos, quanto de grande parte das tensões e percepções de ameaças que perduraram até o passado recente.
A Expansão por Círculos Concêntricos, na Ásia Central.
A montagem de esfera de influência da China, na Ásia Central, não parece sugerir o mesmo processo de emergência pacífica, para a reintegração do Sudeste Asiático à antiga esfera de influência do Império do Centro. Observadores centro-asiáticos, a propósito, temem que a expansão chinesa em curso naquela região siga o rumo de “círculos concêntricos”, com base em teoria de “fronteiras estratégicas”.
Lembra-se, a propósito, que, com o colapso da União Soviética, em 1991, estados independentes, com forte influência do Islã, surgiram ao redor das fronteiras ocidentais da China. De repente, diante do efeito demonstrativo da emancipação da URSS de novas Repúblicas, como a do Tajiquistão, onde predomina a mesma religião, Pequim se viu forçada a confrontar desafios a sua autoridade na província limítrofe mais remota — a de Xingjian que, apropriadamente, significa “nova fronteira”, no idioma chinês. A prioridade da RPC foi, desde o início da década de 1990, a manutenção do domínio e estabilidade sobre seu próprio território.
O conceito de fronteira empregado no que diz respeito à Xingjian, no entanto, sempre teve, para Pequim, conotação bastante “móvel”. Isto é, dependendo da necessidade de explorar recursos e da capacidade de projetar poder para garantir tal apropriação, o traçado destas “fronteiras” poderia expandir-se ou retrair-se.
Em seu livro “The New Silk Road Diplomacy”, Hasan H. Karrar explica que “the optimum level of expansion varied over time, a fact borne out by the cyclical expansion and withdrawal from Western Regions that corresponded with the center’s ability to project decisive power into the contested frontier zone”.
Com o crescimento econômico acelerado recente, no entanto, a RPC começou a identificar crescente competição internacional por recursos energéticos e influência na Ásia Central, agora livre do controle que Moscou exercia sobre a extinta URSS.
Nessa perspectiva, sempre de acordo com Hasan Karrar, imperativos de ordem econômica e de segurança determinam a estratégia expansionista chinesa, a partir da província de Xingjian, no sentido ocidental, em direção à “Eurásia”. Registra, a propósito, que durante a Dinastia Qing, em 1884, aquele território foi incorporado pelos chineses e, em 1949, tornou-se uma “região autônoma” da recém-fundada República Popular.
Segundo este raciocínio, o conceito de uma nova Rota das Sedas, para os chineses, significa, inicialmente, a estabilização de Xingjian, que, como se sabe, tem sofrido período de intensa turbulência. Em sua expansão ocidental, em direção à Eurásia, a China continuaria no esforço de desenvolver as regiões ocidentais mais remotas e garantir o fornecimento de recursos naturais.
Haveria, assim, uma visão chinesa de que a expansão de suas fronteiras no sentido ocidental seria dependente de uma política de sucessivos círculos concêntricos. Isto é, haveria um centro de poder em Pequim que, dependendo do poderio militar e força econômica do momento, teria capacidade de projetar ou retrair influência além de seu território, criando os tais círculos concêntricos. Este tipo de evolução ou retração teria ocorrido, de forma cíclica, no decorrer da longa história da China.
Cabe registrar que a Ásia Central tem representado área propícia para sucessivos períodos de expansão de diferentes impérios — além do chinês — tendo em vista a fragilidade das diferentes formas de instituições políticas que lá se instalaram, bem como abundância de atores não estatais, que variam de traficantes e bandos de saqueadores a pequenas aldeias. Essa complexidade é bem descrita no livro “The Great Game”, de Peter Hopkirk.
Enquanto isso, Pequim continua a evocar narrativas das viagens de Zheng He, que servem como conforto para os que se preocupam com sua expansão marítima. A projeção de seu poder terrestre, no entanto, não combina necessariamente com a ideia de ascensão pacífica marítima chinesa, conforme mencionado acima. Poderia refletir, sim, esforço de expansão de doutrina de fronteira estratégica.
No que diz respeito à “Rota das Sedas”, situa-se em região que separa a China da Ásia Central e Europa e é uma das mais inóspitas do mundo. A maior parte é coberta pelo deserto de Taklamakan, e sofre pela ausência de chuva e por frequentes tempestades de areia. Apesar de poucas estradas, em péssimas condições, caravanas fizeram seu percurso, durante séculos.
Ao invés de comercializar sedas, porcelanas, tapetes, pérolas e especiarias, os chineses hoje vendem eletrônicos, automóveis, aparelhos de telecomunicações, enquanto investem em portos, ferrovias, estradas, projetos de exploração de gás e petróleo e minas.
No momento, a China aparenta estar expandindo seus interesses por acesso a recursos naturais e a novos mercados, ao Pacífico Ocidental, ao redor da periferia dos países do Sudeste Asiático, e ao Sul da Ásia, bem como em direção à Ásia Central e crescentemente sobre o continente eurasiano.
O objetivo é estabelecer um fluxo de livre comércio e futura integração internacional de mercados. Com essa iniciativa, a China almeja novas oportunidades de comércio, estabelecendo “network” de integração e cooperação (“conectividade” para empregar o termo preferido de seu governo atual) com vários países que se dispuserem a participar.
Assim, se materializaria a “iniciativa de um cinturão e uma rota”, lançada por Pequim, em 2013, ambicionando a modernização da massa terrestre eurasiana, onde vive (incluindo chineses e indianos) cerca de sessenta por cento da população mundial. Ademais, tendo em vista a fragilidade do sistema de poder internacional vigente o projeto de “Belt and Road” poderia indicar um novo ordenamento nas relações entre os países a serem incluídos.
Fonte: HKTDC (2017) Interpreting the Belt and Road Initiative. HKTDC (Hong Kong; Trade Development Council).
Conclusão
Países em desenvolvimento devem, atualmente, cerca de um trilhão e 100 bilhões de dólares norte-americanos a Pequim, segundo divulgado no evento de celebração dos 10 anos do projeto “Cinturão e Rota”. De acordo com as mesmas fontes, há crescentes atrasos no pagamento de tais dívidas aos chineses. Os recursos, como se sabe — e mencionado acima — foram investidos em estradas, aeroportos, ferrovias e usinas elétricas, entre outros.
Na medida em que esses “bons ventos” têm ajudado o crescimento econômico dos países recipientes, suas respectivas capitais se aproximaram politicamente da chinesa, conforme ficou evidente, pelo elevado número de representantes, por ocasião do décimo aniversário do “Belt and Road”, em outubro passado.
É chegado, contudo, o término do período de carência — estimam algumas fontes — de 55% para o pagamento dos referidos empréstimos, em momento de maiores taxas de juros e variações cambiais. Avalia-se, também, que a China se tornou no maior “cobrador de dívidas do mundo”.
Cabe, portanto, aguardar “novos ventos” que permitam, por um lado, os endividados a cumprirem suas obrigações financeiras junto à RPC. Por outro, espera-se que prevaleça um “discurso inovador” dos chineses, de forma a desafiar o que identificam como “liderança global dos EUA”.
Segundo a visão de seus rivais a atual ascensão chinesa deve ser temida pelo “caráter autoritário” de sua forma de governança. Isto é, haveria receio de que a emergência de um mundo regido por “normas autocráticas”, caracterizado por pesadas formas de controle social, censura e repressão política, viriam a tornar-se o “novo normal”.
Talvez, na perspectiva metafórica do início deste exercício de reflexão, Xi Jinping tenha indicado que teria havido evolução positiva — a seu ver — em tal caminho, ao mencionar, durante seu recente encontro com o Presidente Biden, por ocasião da Reunião de Cúpula da APEC, em São Francisco, no mês em curso, que os dois países teriam, agora, “recolocado suas relações sobre os trilhos”.
Notas
[1] Em discurso pronunciado na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 10.04.1974, Deng Xiao Ping, então Vice Primeiro-Ministro da RPC, elaborou sobre o conceito, afirmando que: “A situação é a de “grande desordem sob o céu” como a descrevemos, nós os chineses. A “desordem” é a manifestação do agravamento das contradições básicas do mundo contemporâneo. É a aceleração da desintegração, declínio e decadência de forças reacionárias e o estímulo do despertar e crescimento de novas forças populares”.
[2] Lin, Christina , “Visiting Scholar at the Center for Transatlantic Relations at the Paul H. Nitze School of Advanced International Studies”, — Resumo de trabalho intitulado “China’s New Silk Road to the Mediterranean: The Eurasian Land Bridge and Return of Admiral Zheng He”, Outubro de 2011. “ISPSW Strategy Series: Focus on Defense and International Security”.
[3] “A Celebration of Diversity: Zheng He and the Origin of the Pre-Colonial Coastal Urban Pattern in Southeast Asia”, por Johannes Widodo, publicado pela Universidade Nacional de Cingapura. 2002.
[4] Vide livro “Admiral Zheng He and Southeast Asia”, editado por Leo Suryadinata e publicado pelo “ Institute of Southeast Asian Studies”, em 2005. Capítulo 3, “Did Zheng He set out to Colonize Southeast Asia”, de autoria do Prof. Tan Ta Sen, Presidente da Sociedade Internacional Zheng He, em Cingapura.
[5] A respeito da projeção da influência política chinesa, na Ásia Oriental, vide “East Asia — Tradition and Transformation”, por John K. Fairband, Edwin O. Reischaurer e Albert M. Craig. Modern Asia Editions. l976.
[6] Citado no artigo “Did Zheng He set out to colonize Southeast Asia”, por Tan Ta Sen, publicado em “Admiral Zhen He and Southeast Asia”.
[7] Vide “A China e o Sudeste Asiático”, por Paulo Antônio Pereira Pinto, Editora da Universidade — UFRGS. 2000.
[8] Gerald Segal, em “Rethinking the Pacific”, Clarendon Press, Oxford, 1990, pag. 3, analisa as dificuldades metodológicas para o estudo da evolução da Bacia do Pacífico.
Sobre o autor
Paulo Antônio Pereira Pinto: Embaixador aposentado.

