BRICS: força transformadora e alternativas em disputa
José Alejandro Sebastian Barrios Díaz
Resumo: O BRICS é um grupo plural e contraditório que desafia a ordem liberal ocidental, buscando alternativas econômicas e políticas centradas na soberania e cooperação Sul-Sul. Sua expansão reflete disputas internas e externas por protagonismo global, sem representar um bloco homogêneo ou uma solução pronta.
O BRICS existe no plural. Desde sua criação, o grupo carrega consigo uma pluralidade de sentidos e tensões internas que refletem as complexidades da ordem global contemporânea. Embora muitas análises simplifiquem o BRICS como um bloco homogêneo emergente buscando um lugar na mesa do poder internacional, essa visão ignora a diversidade política, econômica e geopolítica que o caracteriza — especialmente após sua recente expansão, que incorporou países como Irã, Egito, Etiópia e Emirados Árabes Unidos, entre outros. Essa ampliação não apenas aumenta o peso numérico do grupo, mas traz à tona a multiplicidade de interesses, agendas e desafios que definem o Sul Global contemporâneo.
A ascensão do BRICS não pode ser compreendida sem reconhecer o contexto de crise e esgotamento da ordem liberal ocidental que domina o sistema internacional desde o pós-Segunda Guerra Mundial. As instituições centrais dessa ordem — o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI), as Nações Unidas e outros organismos multilaterais — operam hoje como instrumentos políticos e econômicos em mãos das potências ocidentais. São, em essência, instrumentos geopolíticos que perpetuam um sistema hierarquizado e excludente. Essa realidade se manifesta, por exemplo, no uso das sanções econômicas como ferramenta de coerção, na imposição de políticas neoliberais sob a bandeira do desenvolvimento e na marginalização dos países do Sul nos processos decisórios globais (Strange, 1998; Acharya, 2014).
É nesse cenário que o BRICS emerge como uma avenida — ainda em construção e repleta de desafios — para a criação de alternativas à ordem liberal ocidental. Essa alternativa não deve ser entendida como uma mera contraposição ou substituição da ordem vigente, mas como um espaço plural de experimentação política e econômica. O grupo, em seu caráter múltiplo e às vezes contraditório, apresenta-se como uma arena onde projetos de desenvolvimento, soberania e cooperação internacional são discutidos e tensionados. O Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), criado pelo BRICS, simboliza essa ambição: uma tentativa concreta de criar instituições financeiras que escapem ao monopólio do Banco Mundial e do FMI, instituições que desde sua fundação têm operado como mecanismos de controle das economias do Sul.
No entanto, para que o NBD se torne de fato uma alternativa viável, é fundamental reconhecer as limitações e os obstáculos internos e externos que o grupo enfrenta. Um ponto crucial está no sistema monetário global baseado no dólar americano e em instituições financeiras ocidentais, que é estruturalmente irreformável (Cohen, 2018). Esse sistema não está em crise, mas funcionando perfeitamente como um mecanismo de dominação. O controle ocidental sobre o sistema bancário internacional, especialmente por meio da rede SWIFT, permite a imposição de sanções econômicas que paralisam países inteiros e que minam a soberania dos Estados. A criação de um sistema paralelo, que permita transações comerciais em moedas nacionais e que seja resistente a essas sanções, é, portanto, uma questão estratégica fundamental para o BRICS e seus países parceiros (Hurley et al., 2019).
Nesse contexto, a expansão do BRICS, e sobretudo do NBD, pode ser vista não apenas como uma questão quantitativa, mas como um esforço para ampliar a base política e econômica que sustenta essa alternativa. Porém, é importante destacar que a expansão do grupo por si só não garante o fortalecimento das alternativas; o que precisa crescer de forma decisiva é o NBD. A pergunta central é: como criar um banco global a partir de um grupo com dez ou mais países que possuem interesses diversos e, por vezes, contraditórios? A resposta passa por uma articulação política sensível, baseada na confiança e na soberania, que respeite as especificidades e as demandas dos países do Sul sem repetir os modelos universalizantes e centralizados das instituições financeiras internacionais tradicionais (Escobar, 2011).
Outro desafio importante está dentro dos próprios países que compõem o BRICS. Em todos eles, setores estratégicos da economia, da política e da burocracia ainda mantêm vínculos profundos com os Estados Unidos e as potências ocidentais. Essas chamadas “quintas colunas” operam para sabotar, desde dentro, as iniciativas que visam aumentar a autonomia e a soberania nacional. Essa luta interna, muitas vezes pouco visibilizada, é central para compreender as dificuldades do BRICS em se consolidar como uma força transformadora. Ela evidencia que a disputa geopolítica não ocorre apenas entre Estados, mas também dentro deles, nos espaços de poder onde se definem as políticas econômicas e externas (Amin, 2010).
Além disso, o BRICS deve desafiar o consenso tradicional que tem marcado a cooperação internacional. A ideia de que o desenvolvimento deve seguir os moldes impostos pelo Norte Global é hoje insustentável. Mais de 85% da população mundial vive em países classificados como emergentes ou em desenvolvimento, o que significa que a maioria das vozes globais está fora do centro hegemônico (Financial Tinmes, 2024). O BRICS, com suas contradições e complexidades, pode ser o espaço onde essas vozes ganham protagonismo político real, influenciando a agenda global e propondo alternativas plurais para o desenvolvimento, a governança e as relações internacionais (So, 2016).
Por fim, é fundamental reconhecer que o BRICS não é uma solução pronta ou um bloco homogêneo com um projeto único e claro. Ele é, antes, uma avenida — repleta de desafios, disputas e possibilidades — onde se desenha a chance de construir alternativas efetivas à ordem global vigente. Essa construção exige uma visão crítica e estratégica, que evite tanto o cinismo quanto a ingenuidade, e que saiba navegar nas contradições internas e externas do grupo.
Em um mundo marcado por crescentes tensões geopolíticas, desigualdades persistentes e crises ambientais, o BRICS representa, portanto, uma força transformadora em disputa. A sua capacidade de articular um sistema paralelo, baseado na soberania, na justiça social e na cooperação entre os países do Sul, pode ser decisiva para os rumos da ordem internacional nas próximas décadas.
Referências
Acharya, A. (2014). The End of American World Order. Polity Press.
Amin, S. (2010). Beyond US Hegemony: Assessing the Prospects for a Multipolar World. Monthly Review Press.
Cohen, B. J. (2018). Currency Power: Understanding Monetary Rivalry. Princeton University Press.
Escobar, A. (2011). Encountering Development: The Making and Unmaking of the Third World. Princeton University Press.
Financial Times. (2024, 16 de setembro). Emerging markets has become a redundant term: Innovations around EM indices are required with more thematic benchmarks. Financial Times. https://www.ft.com/content/24c8920e-c885-438d-8c1b-9939c8b1a965. Acesso em 30 de junho de 2024.
So, A. Y. (2016). The BRICS and the Future of Global Order. Routledge.
Strange, S. (1998). Mad Money: When Markets Outgrow Governments. University of Michigan Press.
Woods, N. (2006). The Globalizers: The IMF, the World Bank, and Their Borrowers. Cornell University Press.
José Alejandro Sebastian Barrios Díaz: Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.

