Algumas notas sobre a futura diplomacia do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Murilo Vilarinho

Resumo: A futura diplomacia do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva por meio dos esforços do embaixador Mauro Vieira buscarão reposicionar, pragmaticamente, o Brasil na arena política-estratégica das relações internacionais hodiernas, situação que tem sido atenuada há alguns anos.
Os intelectuais Amado Luiz Cervo e Clodoaldo Bueno, em A História da Política Exterior do Brasil, estabeleceram um interessante paralelo entre dois estadistas brasileiros, no contexto de inserção global do país no século XXI. Assim sendo,
Dois homens de Estado, os presidentes Fernando Henrique Cardoso (1995–2002) e Luiz Inácio Lula da Silva (2003–2010), ao exercerem juntos dezesseis anos de mandato, são determinantes para a evolução do modelo brasileiro de inserção internacional na passagem do século XX para o XXI. O primeiro nutria suas ideias e decisões com a filosofia do neoliberalismo, o segundo, com a do centro-esquerda sindical. Mas o pensamento não basta para qualificar as estratégias dos dois presidentes. Ao ensaiar em seu segundo mandato o paradigma logístico de politica exterior, Cardoso, o neoliberal que se tornou cético ao elabora o conceito de globalização assimétrica, abriu a porta para seu sucessor, que adotou esse padrão com o fim de promover a inserção interdependente do país (CERVO; BUENO, 2008, p.491).
Parece que a futura diplomacia do Chefe de Estado Luiz Inácio Lula da Silva ensaia para 2023, em alguma medida, uma agenda política internacional pautada pelo antigo conceito de interdependência ensejado por Keohane & Nye (1977, p.8), para os quais “Interdependence most simply defined means mutual dependence. Interdependence in world politics refers to situations characterized by reciprocal effects among countries or among actors in different countries”.
Essa futura diplomacia começa a ser delineada, de modo mais robusto, nos termos teóricos da rememorada interdependência, no ato debutante (não oficial como representante máximo da nação brasileira e de sua chancelaria) do então Presidente eleito, quando aceitou o convite e participou da Conferência do Clima da ONU, no Egito.
Muito embora a política ambiental do então governo tenha sofrido críticas da comunidade internacional, um concerto diplomático parece ter sido iniciado, com a finalidade de atenuar o limbo que o país tem experienciado — algo que será mais explorado, quando se iniciar, de fato, o mandato do Presidente, em face das assimetrias da globalização, que, com a onda da obscura Covid-19, tornou-se mais intensa.
Cervo, em Inserção Internacional: Formação dos Conceitos Brasileiros, afirma que “ o processo decisório dos governos equivale a um cálculo estratégico de meios, fins e riscos” (2008, p.11). Esse ensinamento de condução diplomática respalda-se no pensamento de Jean-Baptiste Duroselle, para quem forças sociais, objetivos a serem atingidos e conduta diplomática que considere ambos os aspectos mencionados influenciem a capacidade de gerencia das relações internacionais do país, por meio dos esforços de negociação e de decisão do Ministério de Relações Exteriores.
Evidentemente, a diplomacia do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por mais que buscará recompor o prestigio da política exterior de outrora — dinâmica, multifacetada, interdependente e soberana, poderá se deparar com uma contextura doméstica — política e sociedade — representada por posições tradicionais — conservadoras não tão preocupadas com um projeto multilateral de equilíbrio nas relações internacionais ensejadas pelo Brasil.
Em um futuro não distante, não será a perspicácia de Celso Amorim nos assuntos estrangeiros que corroborará a conduta diplomática nacional advinda da Casa do Barão do Rio Branco, mas do inveterado e ex-embaixador do Brasil na Croácia, Mauro Vieira, quem já havia sido chanceler na gestão da Presidente Dilma Rousseff. O embaixador deixa clara sua concepção política externa ao dizer que o Brasil esteve ausente do mundo, sendo hora de reconduzi-lo à arena internacional (FRAZAO, 2022).
Haverá vários desafios a serem enfrentados e abordados pela diplomacia nacional, a partir de 2023. O Brasil em suas relações internacionais com a América e com os países de outros continentes, o comércio internacional, as relações Brasil com as arquiteturas político-diplomáticas mundo afora (ONU entre outros organismos), acordos MERCOSUL-UE entre outras agendas são alguns dos itens a serem abordados pelo Itamaraty sob a chancela do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Talvez a grande vedete da política externa brasileira no mandato do Presidente Lula seja a agenda ambiental. Na COP 27, ocorrida no Egito, em 2022, observou-se a tonalidade do discurso político lulista em contraposição à do discurso da atual chancelaria. Redução do desmatamento, acabar com o garimpo ilegal são algumas das metas do futuro governo — dinamismo que anima chefes de Estados como o francês Macron.
De toda sorte, a conjuntura internacional também é palco que deverá ser assistido pelo chefe de Estado brasileiro com bastante pragmatismo e virtù à Maquiavel, ou seja, o mundo ainda experiencia as ruidosas consequências da COVID-19, que ainda se mantém em atividade, apesar dos esforços sanitários de contenção e equacionamento da situação epidemiológica em escala planetária; Guerra na Ucrânia, rivalidades EUA-China. Sãos essas algumas das peças do xadrez das relações internacionais que o plenipotenciário brasileiro, por meio do Ministério de Relações Exteriores, terá de contabilizar em seus cálculos em termos de estratégia política internacional.
Embora os desafios sejam muitos, e a maioria deles baseie-se na busca pelo protagonismo da diplomacia nacional, a futura [nova] diplomacia, na verdade, não carrega nada de novo, já que os instrumentos políticos parecem conservar, em muitos aspectos, a identidade das ações de outrora que pode ser resumida nas palavras soberania, engajamento e pragmatismo. Esperemos o deslindar de 2023 e como a agenda diplomática será alinhavada à atualidade, que, em nada, assemelha-se ao passado, quando da então administração Lula.
Referências
CERVO, Amado Luiz. Inserção Internacional: formação dos conceitos brasileiros. São Paulo: Editora Saraiva, 2008.
CERVO, Amado Luiz & BUENO, Clodoaldo. História da Política Exterior do Brasil. Brasília: Instituto Brasileiro de Relações Internacionais/Editora da Universidade de Brasília, 2008.
FRAZÃO, Felipe. Brasil esteve ausente do mundo, vamos trazê-lo de volta. Estadão, São Paulo, 9 dez. 2022. Disponível em: https://www.estadao.com.br/politica/brasil-esteve-ausente-do-mundo-vamos-traze-lo-de-volta-diz-mauro-vieira-novo-chanceler-de-lula/. Acesso em 10 dez. 2022.
KEOHANE, R. O., & NYE, J. S. Power and interdependence. New York & London: Longman, 1977/2001.
Sobre o autor
Murilo Vilarinho, doutor em Sociologia, docente — FCT\UFG (murilochaves@ufg.br).
