A relação dos Estados Unidos com Israel e sua influência política no conflito regional
Lívia L. Cândido Rangel

Resumo: O presente artigo pretende tratar das variantes das relações entre os Estados Unidos e Israel, analisando brevemente seu contexto histórico a fim de ponderar a presente conjuntura, especialmente no que concerne à participação estadunidense e sua influência no conflito atual entre Israel e o Hamas.
A relação diplomática entre os Estados Unidos e Israel é uma das mais sólidas e duradouras na política internacional contemporânea, remontando ao reconhecimento oficial de Israel como um Estado independente em 1948, tornando-se ainda mais estável a partir da Guerra dos Seis dias, em 1967. Desde então, uma parceria estratégica entre os países passou a ser construída, marcada, ao longo dos anos, por forte cooperação bilateral, com tradição nas áreas de segurança interna e cibernética, operações espaciais, tecnologia, sustentabilidade e outros campos relevantes no cenário internacional.
Mais do que apenas contar com a influência de fatores como afinidades políticas, interesses regionais compartilhados e laços culturais e religiosos, essa relação com a única democracia do Oriente Médio se traduz em um pilar indispensável para as políticas e interesses estadunidenses na região. Razão pela qual Israel tem sido o maior receptor anual de assistência direta, econômica e militar dos Estados Unidos, desde 1976; além de ser o maior receptor geral desde a Segunda Guerra Mundial, somando o montante de bem mais de US$ 150 bilhões contabilizados nessa relação. Ressalta-se que outros países que recebem ajuda estadunidense obtêm a quantia em prestações quadrimestrais, Israel, entretanto, recebe sua contribuição integral no início de cada ano fiscal, podendo, portanto, receber juros sobre ela. Além disso, a maioria dos Estados que recebem ajuda para propósitos militares tem a obrigatoriedade de gastá-la inteiramente nos Estados Unidos, mas Israel é autorizado a usar cerca de 25% de sua concessão para subsidiar sua própria indústria de defesa. Sendo, assim, Israel é o único país a receber ajuda estadunidense e não precisar prestar contas de como o dinheiro é gasto (MEARSHEIMER; WALT, 2007).
Ademais, os Estados Unidos já forneceram a Israel mais de US$ 3 bilhões para o desenvolvimento de sistemas de armamentos e defesa antimísseis, além de concederem ao país acesso a aparatos avançados como helicópteros e jatos. Os EUA ainda oferecem cooperação de inteligência, dando a Israel acesso a informações que negam, inclusive, a seus aliados da Otan. Como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, seu apoio diplomático a Israel é contínuo, tendo vetado, desde 1982, mais de 30 resoluções desfavoráveis ao país. Os Estados Unidos socorrem Israel em tempos de guerra e tomam seu partido em negociações de paz. Tudo isto sem jamais condenar a aquisição de armas nucleares por Israel (MEARSHEIMER; WALT, 2007).
Verifica-se, portanto, que Israel não apenas é um Estado com o qual os EUA compartilham valores, ele é para os EUA um farol de oportunidades por situar-se em uma região criticamente estratégica para seus interesses regionais. Interesses esses que vão desde a cooperação em questões de segurança, já que Israel atua como um contrapeso em uma região historicamente volátil e desempenha um papel fundamental na contenção de ameaças regionais, incluindo o Irã; passando por setores como a estabilidade do fornecimento de energia, visto que o Oriente Médio é uma região crítica para o fornecimento global de energia — especialmente petróleo e gás natural –, sendo a estabilidade da região vital para garantir o fluxo contínuo de recursos energéticos para os EUA e seus aliados; até o imprescindível lobby pró-Israel nos EUA, que conta com a influência de grupos como o American Israel Public Affairs Committee (AIPAC), desempenhando um importante papel na promoção dos interesses de Israel em Washington e influenciando fortemente a política externa dos EUA em relação a Israel e sua agenda expansionista.
Esses interesses combinados resultam em uma forte e duradoura parceria entre os Estados Unidos e Israel, que tem sido uma característica essencial da política estadunidense no Oriente Médio por muitas décadas. A despeito das críticas e desafios enfrentados, especialmente relacionados à questão palestina e ao impacto das políticas israelenses na região, essa relação tem se mantido inabalável. Retrato disso foi o reconhecimento de Jerusalém como a capital de Israel e a transferência da embaixada dos EUA de Tel Aviv para Jerusalém, em dezembro de 2017, pelo governo dos Estados Unidos, sob a administração do ex-presidente Donald Trump. Esse movimento foi amplamente criticado por muitos países e organizações internacionais, visto que Jerusalém é uma cidade contestada no conflito Israel-Palestina. Alguns críticos argumentam que o apoio incondicional dos EUA a Israel mina os esforços de paz, além de apontarem que os EUA deveriam fazer mais para responsabilizar Israel por suas ações em relação aos palestinos.
Com o início da administração do presidente Joe Biden, houve certa mudança em alguns aspectos da política em relação a Israel e ao conflito com o Hamas. O governo Biden se comprometeu com um apoio contínuo a Israel, mas também expressou o desejo de trabalhar para uma solução de dois Estados para o conflito Israel-Palestina. Todavia, o foco dos EUA ultimamente estava na intermediação do estabelecimento de relações diplomáticas entre Israel e Arábia Saudita. Fator esse apontado como crucial para os acontecimentos de 7 de outubro deste ano, no que se refere aos ataques do Hamas a Israel e o anúncio do governo israelense do início de Estado de Guerra no país.
A partir de então, o posicionamento adotado pelos EUA, com o presidente Biden, foi ainda mais enfático no que se refere a promessa de apoio irrestrito a Israel. Pondera-se, contudo, se os eventos atuais não seriam justamente fruto desse pleno apoio estadunidense a Israel, visto que tal sustento pode ter sido precisamente o que desestimulou a busca de Israel por uma solução pacífica e factível no conflito de décadas com a Palestina, priorizando, em lugar disso, relações com Estados que os afastariam ainda mais de quaisquer possibilidades de acordo com seu vizinho.
Verifica-se, assim, que negar à Palestina seus direitos políticos legítimos certamente não tornou Israel mais seguro, bem como a longa campanha para marginalizar uma geração de líderes palestinos reforçou grupos extremistas como o Hamas e reduziu o número de dirigentes palestinos dispostos a aceitar um acordo justo e praticável com Israel. Desse modo, possivelmente, o cenário atual seria outro se a política estadunidense naquela região fosse mais imparcial, bem como sua influência no que tange a uma agenda expansionista israelense não fosse tão veemente, com sua ajuda diplomática, econômica e militar sem precedentes.
Todavia, a despeito de quaisquer suposições, a estreita relação dos Estados Unidos com Israel não dá indícios de perder sua proeminência como um elemento central na política externa estadunidense no Oriente Médio. Embora possa variar o líder à frente das administrações estadunidenses, suas abordagens e prioridades em relação a esse parceiro estratégico têm permanecido inalterados no tempo, mesmo em períodos de crise. Portanto, ainda que sob conflitos que tornem imprevisível o futuro da região, historicamente, não há margens que indiquem mudanças na política e nas ações dos Estados Unidos no que diz respeito à essa relação consolidada há décadas com Israel. Resta saber até que ponto, porém, irá sua participação e esforços em uma guerra que não diz respeito diretamente à sua política ou território nacional. Fato é que, por influência estadunidense ou não, a possibilidade de Israel e um futuro Estado Palestino coexistirem lado a lado em paz e segurança mostra-se cada vez mais inalcançável.
Referências
AIPAC. The American Israel Public Affairs Committee: America’s Pro-Israel Lobby. 2020.
MEARSHEIMER, John; WALT, Stephen. The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2007.
QUANDT, William B. Peace Process: American Diplomacy and the Arab-Israeli Conflict since 1967. Washington, DC: Brookings Institution Press, 2005.
Sobre a autora
Lívia L. Cândido Rangel: Doutoranda e Mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, pesquisadora de segurança internacional e filiada ao grupo de pesquisa da Rede Colaborativa de Pesquisa em Terrorismo, Radicalização e Crime.
