A popularidade de Joe Biden e a Guerra da Ucrânia
Cláudio Júnior Damin

Resumo: O artigo analisa se o envolvimento dos Estados Unidos na guerra da Rússia contra a Ucrânia alterou os índices de popularidade do presidente Joe Biden e produziu um rally point em razão desse evento militar internacional.
Desde os primeiros momentos da invasão da Rússia à Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022, o presidente americano Joe Biden condenou a ação militar deflagrada por Vladmir Putin. Sua oposição, na verdade, iniciou mesmo antes da eclosão dos primeiros combates, quando o governo do democrata passou a denunciar à comunidade internacional a iminência de uma agressão por parte do Kremlin.
Transcorrido um ano e quatro meses, Biden segue liderando a oposição internacional à guerra, apoiado pelas democracias europeias também contrárias ao conflito. O governo americano não enviou tropas para combater no terreno, porém até o momento entre ajuda financeira, humanitária ou militar já contribuiu com 71 bilhões de euros (STATISTA, 2023). O esforço americano de operar em conjunto com os aliados europeus para prover à Ucrânia capacidades militares para combater a invasão russa tornou-se uma das principais marcas do segundo mandato de Joe Biden no campo da política externa.
O objetivo do artigo é avaliar se todo esse envolvimento dos Estados Unidos na guerra da Rússia contra a Ucrânia produziu alteração na popularidade do presidente da República. Momentos de eventos internacionais considerados dramáticos, conforme o estudo clássico de Mueller (1973), ensejam um súbito crescimento da aprovação do ocupante da Casa Branca, fenômeno denominado de rally point. Foi, assim, por exemplo, com a II Guerra Mundial, guerra da Coreia, Vietnam e, mais recentemente, o Onze de Setembro e as intervenções no Afeganistão e no Iraque em 2003.
Na acepção dada por Mueller (1973, p. 209, tradução nossa), um rally point é desencadeado por um evento que: “1) é internacional e 2) envolve os Estados Unidos e particularmente o presidente do país diretamente; e que deve ser 3) específico, dramático e focalizado”. Um tipo específico de rally point, também indicado pela literatura, é o rally-round-the-flag, ligado a eventos internacionais e fundado a partir do sentimento patriótico que invadiria os cidadãos promovendo sua adesão às ações presidenciais, independentemente de sua ideologia ou preferência partidária (MUELLER, 1973; LEE, 1977; HETHERINGTON; NELSON, 2003). Um dos casos mais exemplares desse efeito na opinião pública ocorreu em razão dos atentados terroristas de 2001, momento em que a popularidade de George W. Bush saltou de 51% para 86% nos dias posteriores ao ataque da Al-Qaeda (DAMIN, 2014).
No caso da popularidade de Joe Biden, conforme o Gráfico I que compila 460 pesquisas de opinião pública no período de janeiro de 2022 a junho de 2023, é possível diagnosticar que antes do início da guerra o democrata exibia patamares de desaprovação superiores a 50% e de aprovação iguais ou inferiores a 45%. Após o início da guerra, em 24 de fevereiro, não se observa uma alteração repentina e minimamente sustentável da avaliação positiva sobre o seu governo, o que mostra não ter existido um rally point com a guerra da Ucrânia.
Quando analisadas ao longo de sua trajetória, de 2022 até junho de 2023, a popularidade mantém-se razoavelmente estável, tipicamente próxima e abaixo dos 45%, enquanto que a desaprovação oscila acima dos 50%, chegando em alguns momentos a aproximar-se de 60%. Não é possível, assim, perceber qualquer alteração na popularidade do presidente produzida por sua atuação no conflito.
Gráfico I — Avaliação da administração de Joe Biden
Fonte: Elaboração própria a partir de Real Clear Politics (2023)
A crise de popularidade de Biden permaneceu inalterada mesmo após o envolvimento dos Estados Unidos e de sua figura pública no esforço de guerra contra a Rússia. Esse evento internacional, assim, mostrou-se incapaz de produzir alguma alteração mais substantiva na opinião pública nacional de modo a que houvesse um alinhamento com a figura do presidente. Saliente-se que os rally points historicamente foram vinculados a eventos internacionais com participação militar de tropas americanas, ou que ocorreram em solo do país, como no Onze de Setembro.
O conflito na Ucrânia não foi percebido pelo cidadão americano como um evento que cumprisse parte dos requisitos de Muller (1973) para produzir algum apoio substantivo ao presidente. Em particular, ele não foi considerado como “específico, dramático e focalizado” e não envolveu “diretamente” o país e o presidente. A distância geográfica, a falta de uma associação histórica mais próxima entre os americanos e os ucranianos, aliada à decisão da administração de não mobilizar tropas para combater os russos, por alegadamente não ser a Ucrânia um membro da OTAN, afastaram a noção de que a guerra era uma ameaça existencial aos Estados Unidos e assim capaz de despertar o sentimento patriótico e unir o país em torno de Joe Biden, o comandante-em-chefe.
O Gráfico II compila uma centena de surveys que mensuraram a opinião dos americanos sobre o desempenho de Biden em relação à guerra da Rússia contra a Ucrânia. Há clara diferença da trajetória das linhas de aprovação e desaprovação na comparação com o gráfico da avaliação da administração de Biden de maneira geral. A primeira é a de que a opinião dos cidadãos se mostra mais disputada ao longo do tempo, uma vez que em vários momentos das duas linhas de aprovação/desaprovação se tocam ou alteram suas posições no eixo. Note-se, ainda, que a aprovação em alguns momentos chega a superar os 50%, o que nunca aconteceu no caso da popularidade do presidente no período analisado.
Gráfico II — Avaliação do trabalho de Joe Biden em relação à Rússia/Ucrânia
Fonte: Elaboração própria a partir de Real Clear Politics (2023)
Pode-se afirmar que a atuação de Biden no conflito recebeu, ao longo do tempo, maior aprovação que o seu desempenho enquanto presidente. Essa maior aprovação, no entanto, foi incapaz de sustentar-se majoritária, acima dos 50%, e tampouco contribuiu para alavancar a popularidade do democrata, reforçando a noção de que não houve quaisquer ganhos em termos de apoio dos americanos ao presidente em razão da guerra.
Parece claro que as questões domésticas, em particular a economia, e a profunda polarização partidária e ideológica presenciada nos Estados Unidos, impuseram-se e impediram que a população percebesse a guerra contra a Rússia como um momento de mobilizar-se e apoiar o presidente Joe Biden.
Referências
DAMIN, Cláudio Júnior. Guerra e opinião pública nos Estados Unidos: o caso da Guerra do Iraque em 2003/War and public opinion in the United States: the Iraq War in 2003. Brazilian Journal of International Relations, v. 3, n. 3, p. 419–448, 2014.
HETHERINGTON, Marc J.; NELSON, Michael. Anatomy of the Rally Effect: George W. Bush and the war on terrorism. Political Science & Politics, jan. 2003, pp. 37–42.
LEE, Jong. Rally Around the Flag: Foreign Policy Events and Presidential Popularity. Presidential Studies Quarterly, 7, 1977.
MUELLER, John. War, Presidents and Public Opinion. Columbus: Educational Publisher, 1973.
REAL CLEAR POLITICS. President Biden Job Approval. Real Clear Politics, 2023. Disponível em: https://www.realclearpolitics.com/epolls/other/president-biden-job-approval-7320.html. Acesso em 26/06/2023.
STATISTA. Total bilateral aid commitments to Ukraine between January 24, 2022 and February 24, 2023, by type and country or organization. Statista, 2023. Disponível em: https://www.statista.com/statistics/1303432/total-bilateral-aid-to-ukraine. Acesso em 26–06–2023.
Sobre o autor
Cláudio Júnior Damin: Mestre e Doutor em Ciência Política (UFRGS), professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Federal do Pampa.


