A “guerra de escolha” de Benjamin Netanyahu
Danillo Alarcon e Giovanni Hideki Chinaglia Okado

Resumo: O propósito deste artigo é analisar as decisões de Benjamim Netanyahu em relação à conflitividade atual no Oriente Médio por meio da Análise da Política Externa (APE). Argumenta-se que as ações militares de Israel na região são reflexo das condições que sustentam a coalização de Netanyahu no poder, das dinâmicas políticas do país e da construção de uma imagem favorável do líder junto à opinião pública.
O Oriente Médio nunca esteve tão próximo de um conflito interestatal no século XXI. A atual guerra em Gaza, iniciada na esteira dos ataques do Hamas em outubro de 2023, escalonou, Israel e Irã têm se atacado mutuamente, e a linha divisória entre ações de baixa e alta intensidade está cada vez mais tênue. Enquanto uma parcela das análises foca nas tensões regionais ou internacionais, pouco se avalia o nível doméstico, especialmente em relação a Israel. Aqui, importam mais o comportamento das lideranças e o jogo político do que o poder militar e as decisões estratégicas sobre o emprego da força. Observando o nível doméstico, fica evidente que a guerra — não só contra o Hamas, mas também contra o Irã e o Hezbollah –, é uma “guerra de escolha”, para recordar a expressão de John J. Mearsheimer e Stephen M. Walt (2003), promovida pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e não uma necessidade para a sobrevivência do estado de Israel.
O propósito deste artigo é analisar as decisões de Netanyahu em relação à conflitividade atual no Oriente Médio por meio da Análise da Política Externa (APE), especificamente pela “estratégia de desvio”. Argumenta-se que o endurecimento das ações militares de Israel na região é reflexo não exclusivamente dos ataques do Hamas de outubro de 2023, mas das condições que sustentam a coalizão de Netanyahu no poder e das dinâmicas políticas de um país cindido e pressionado pela opinião pública.
Benjamin Netanyahu: da refundação do estado judeu às divisões políticas domésticas
Netanyahu vem construindo sua carreira política há décadas. Na esteira dos acordos de paz com os palestinos nos anos 1990, contra os quais vociferava, ele incitou a opinião pública mais radical do país. Após o trágico assassinato do primeiro-ministro Yitzhak Rabin, por um ultranacionalista judeu, assumiu o poder político pela primeira vez. Mas os tempos eram outros, e, pressionado pela presidência Clinton, concedeu e logo saiu do comando do país, mas não da política. Ocupou as pastas das Relações Exteriores e Finanças de Israel antes de voltar ao cargo de primeiro-ministro, que ocupa quase ininterruptamente desde 2009 (Laron, 2024).
A volta de Netanyahu promoveu uma transformação drástica no estado de Israel e em suas lideranças políticas. A extrema-direita radical se consolidou no poder, e a própria noção de democracia ficou prejudicada no país. Um dos objetivos que tem mobilizado o Likud, partido do primeiro-ministro Netanyahu e de seus parceiros em múltiplas coalizões, é manter o controle da Cisjordânia, onde há uma grande população de colonos israelenses e para os quais políticas e benefícios específicos têm sido habilmente manejados há décadas em troca de apoio (Laron, 2024). Para isso, sufocaram Gaza economicamente, mantendo o Hamas no poder e impedindo uma conciliação com as lideranças políticas palestinas na Cisjordânia, as quais também têm sua parcela de culpa nesse jogo.
A euforia criada entre 2020 e 2021 pelos Acordos de Abraão, em razão do reconhecimento de Israel por alguns países árabes, certamente engrandeceu a autopercepção de Netanyahu em relação ao seu poder de moldar o Oriente Médio e, claro, de se manter no controle em casa. À época, ele tinha o apoio do governo de Trump, que poucos meses antes havia anunciado o “Acordo do Século”, destinado a sufocar os anseios por soberania palestina e consagrar sua segregação, uma realidade há muito tolerada por muitos setores da sociedade israelense e pela coalização no poder.
Finalmente derrotado em eleições parlamentares em 2021, Netanyahu preparou seu retorno depois de mais uma vitória em 2022. Com o terreno aparentemente sob controle, ele avançou seus planos para controlar o judiciário do país, único contrapeso ao poder exercido pela coalizão mais radical que Israel já havia nomeado.
Logo após manipular as forças políticas para prosseguir com seu plano, parcela considerável da opinião pública israelense se voltou contra ele e, então, seguiram-se meses de protesto, quando Netanyahu amargou uma baixíssima aprovação (Pita, 2024) — ver figura 1. Talvez Netanyahu não esperasse a imensa mobilização popular contra a tentativa de subverter a frágil estrutura institucional do país. Até mesmo o então ministro da defesa, Yoav Gallant, foi demitido após alertar que a segurança nacional do país estaria em risco por conta dos planos de subversão do judiciário israelense (Fabian, 2023).
A despeito dessas mobilizações, Dahlia Scheindlin (2024) recorda que a Suprema Corte “raramente intervém contra o regime de ocupação” na Cisjordânia, refletindo os dois principais problemas do país: a) a ausência de uma constituição, que levou a coalização atual a tentar subverter a ordem judiciária; e b) a ocupação dos territórios palestinos. Importante lembrar que Netanyahu sempre foi um promotor de ambos.
A estratégia do desvio
A “guerra de escolha” de Netanyahu pode ser explicada pela Análise de Política Externa (APE). A opinião pública influencia e é influenciada pela política externa. A tentação da guerra como um instrumento de mobilização, ou “estratégia de desvio”, é uma das situações em que ocorre essa influência bidirecional. A instabilidade política ou a desaprovação popular no âmbito doméstico são a razão da instabilidade regional ou internacional. Em outras palavras, quando uma liderança política está fragilizada domesticamente, ela tende a criar ou alimentar uma crise ou conflito para desviar a atenção de problemas interno (Morin e Paquin, 2018). O emprego da força e as ações militares no estrangeiro são instrumentos de manipulação da política externa em prol do fortalecimento da posição domesticamente (Hagan, 2017). Alguns dados corroboram essa perspectiva.
O terceiro mandato de Netanyahu como primeiro-ministro foi conquistado em meio a uma crise política interna: cinco eleições em quatro anos, ausência de coalizão majoritária no parlamento e três diferentes formações de governo apenas em 2022. A última dessas formações, que permanece até hoje, se equilibra entre orientações centristas e ultradireitistas, adversários políticos e escândalos de corrupção. O atual líder é investigado desde seu mandato anterior por fraude, quebra de confiança e suborno. Não por acaso a aprovação do governo Netanyahu declinou até atingir os menores índices no início de 2024 (Figura 1), quando apenas 15% da população acreditava que o premiê deveria permanecer no poder após o término da guerra em Gaza (Staff, 2024).
Figura 1. A popularidade do governo de Benjamin Netanyahu, 2013–2024
Mesmo um ano depois dos ataques do Hamas e das ofensivas militares de Israel no Oriente Médio, Netanyahu não é tão bem avaliado em comparação com outras lideranças políticas do país, como o ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, e o chefe das Forças de Defesa de Israel (FDI), Herzi Halevi (ver Figura 2). Para 39% da população israelense, a resposta contra o Hamas ainda não foi longe demais e, por mais contraditório que seja, 61% e 68% dessa população teme que, respectivamente, a guerra se espalhe pela região e dure por muito tempo (Silver e Smerkovih, 2024). Em outras palavras, baseando-se na estratégia de desvio (Morin e Paquin, 2018; Hagan, 2017), a opinião pública pressiona o primeiro-ministro de Israel a tomar decisões bélicas mais assertivas e, ao mesmo tempo, este procura consolidar a sua posição internamente.
Figura 2. Avaliação de lideranças políticas israelenses envolvidas na guerra em Gaza
Fonte: Hermann; Yohanani; Kaplan (2024). Nota: notas atribuídas em uma escala de 1 (muito ruim) a 5 (excelente).
Sobre os ataques de outubro de 2023, é preciso tecer algumas considerações. Primeiro, a ilusão de um Estado forte desmoronou. Mais do que a ferocidade do ataque contra os civis israelenses, espantou a incapacidade de Israel de ter agido previamente, ou mesmo durante a ação do Hamas, que fez reféns israelenses, ainda mantidos em Gaza. Daqui depreendem-se outras duas questões: a) Netanyahu foge de uma responsabilização pelos ataques; b) a despeito de acordos de paz com os vizinhos, e algumas concessões na década de 1990, não houve por parte dos governos israelenses desde 1967 nenhum compromisso concreto com a promessa de dois Estados, como prega a comunidade internacional. Exemplificando o primeiro item, Gallant, que voltou ao governo ainda em 2023, foi novamente demitido no começo de novembro de 2024, por dentre outros motivos, defender um inquérito sobre outubro de 2023 (Berman; Sokol, 2024). Adicione-se a isso os dados indicados na figura acima sobre a avaliação de Gallant comparada à de Netanyahu.
No entanto, a situação nos territórios “ocupados” chama mais atenção. A colonização da Cisjordânia levou à situação que o geógrafo israelense Oren Yiftachel (2023) chamou de uma ocupação “temporariamente permanente”, cuja ilusão de temporariedade serve para alimentar a máquina de propaganda do país e acadêmicos incautos. Para o autor, “É uma evidente distorção separar os regimes políticos dos dois lados da Linha Verde, simplesmente porque o espaço político judaico realmente se estende por ambos os lados” (Yiftachel, 2023, p. 9, tradução nossa). A atual coalizão de Netanyahu deixa isso explícito e a participação ativa de membros do Knesset em manifestações que planejam a forma como Gaza será reocupada é prova suficiente para indicar que há em curso um processo de expulsão da população palestina (Landau, 2024).
É importante lembrar que parte da historiografia israelense já discutiu em décadas passadas a limpeza étnica ocorrida após 1948 (Masalha, 2012). Mas no caldeirão criado por Netanyahu isso pouco importa. Mais uma vez o discurso oficial é que os palestinos do norte de Gaza precisam sair, por questões operacionais, mas, magicamente não voltarão a seus lares, tal como aconteceu na independência do país. Muitos analistas teimam em culpar os palestinos por terem perdido a oportunidade X ou Y, mas esquecem a realidade da ocupação e que nunca se prometeu de fato um Estado — com todos os seus atributos — aos palestinos. Há quem apoie isso em Israel, especialmente na coalizão que sustenta o atual governo de Netanyahu.
Se a resposta energética de Israel aos ataques do Hamas de outubro de 2023 era esperada, as ofensivas militares nos territórios libanês e iraniano são riscos inadvertidos, mas que sustentam o movimento indicado acima. Além disso, são parte de um projeto de sobrevivência política de Netanyahu e de reconstrução da imagem do mandatário junto à opinião pública. Não constituem, todavia, um imperativo de segurança nacional, vide a cautela com que tanto o Hezbollah quanto o Irã vêm utilizando em suas respostas visando não escalar ainda mais o conflito. A dificuldade em conciliar posições no âmbito de um governo dividido, bem como a frágil popularidade (Pita, 2024), tem pressionado o primeiro-ministro a buscar uma vitória avassaladora impossível. A morte dos líderes do Hamas e do Hezbollah é simbólica, mas não resultará na destruição dos grupos, assim como não aconteceu com a Al Qaeda após a morte de Osama bin Laden.
Considerações finais
A verdade indiscutível — e inegável por inúmeras evidências — é que Benjamin Netanyahu não busca o cessar-fogo, nem o retorno dos reféns e muito menos a pacificação com os palestinos. Há uma agenda clara na coalizão que o sustenta: uma Israel que vá do rio ao mar, controlando partes de Gaza, anexando efetivamente a Cisjordânia, que acontecerá se preciso for a partir da limpeza étnica dos palestinos. Com isso, o governo contenta parte do público israelense, que ele habilmente vem manejando, mas mantem-se alijado de uma parcela considerável da opinião pública do país.
Referências
Berman, Lazar; Sokol, Sam. Netanyahu fires Gallant, saying disagreements and lack of mutual trust helped the enemy. The Times of Israel, 6 November 2024. Disponível em: https://www.timesofisrael.com/netanyahu-fires-gallant-says-disagreements-lack-of-mutual-trust-helped-the-enemy/. Acesso em: 06 nov. 2024.
Fabian, E. Netanyahu fires Defense Minister Gallant for calling to pause judicial overhaul. The Times of Israel, March 26, 2023. Disponível em: https://www.timesofisrael.com/netanyahu-fires-defense-minister-gallant-for-calling-to-pause-judicial-overhaul/. Acesso em: 01 nov. 2024.
Hagan, J. Diversionary theory of war in foreign policy analysis. Oxford Research Encyclopedia of Politics, October 26, 2017. https://doi.org/10.1093/acrefore/9780190228637.013.412
Hermann, T.; Yohanani, L.; Kaplan, Y. One Year of War — Public Opinion in Israel at the One Year Anniversary of the War in Gaza. Special Survey. The Israel Democracy Institute, October 7, 2024. Disponível em: https://en.idi.org.il/articles/56081. Acesso em: 7 nov. 2024.
Landau, I. Exterminate, expel, resettle: Israel’s endgame in northern Gaza. +972 Magazine, November 1, 2024. Disponível em: https://www.972mag.com/exterminate-expel-resettle-israel-northern-gaza/. Acesso em: 1 nov. 2024.
Laron, Guy. Israel’s Bonaparte. Catalyst Journal, v. 8, n. 1, 2024. Disponível em: https://catalyst-journal.com/2024/06/israels-bonaparte. Acesso em: 11 out. 2024.
Masalha, Nur. The Palestine Nabka — decolonizing history, narrating the subaltern, reclaiming memory. London/New York: Zed Books, 2012.
Mearsheimer, J.; Walt, S. An unnecessary war. Foreign Policy, 134, p. 51–49, Jan.-Feb. 2003.
Morin, J.; Paquin, J. Foreign policy analysis: a toolbox. Cham: Palgrave Macmillan, 2018.
Pita, A. Netanyahu is once again the most popular politician in Israel. El País International, August 26, 2024. Disponível em: https://english.elpais.com/international/2024-08-26/netanyahu-is-once-again-the-most-popular-politician-in-israel.html. Acesso em: 01 nov. 2024.
Silver, L.; Smerkovich, M. Israeli views of the Israel-Hamas War Jewish Israelis and Arab Israelis see the war very differently. Pew Research Center, May 30, 2024.
Staff, T. Only 15% of Israelis want Netanyahu to keep job after Gaza war, poll finds. The Times of Israel, January 2, 2024. Disponível em: https://www.timesofisrael.com/only-15-of-israelis-want-netanyahu-to-keep-job-after-gaza-war-poll-finds/. Acesso em 5 nov. 2024.
Sobre os Autores
Danillo Alarcon: Doutor em História pela UFG e Professor do curso de Relações Internacionais da PUC Goiás.
Giovanni Hideki Chinaglia Okado: Mestre em Relações Internacionais pela UnB e Professor do curso de Relações Internacionais da PUC Goiás.



