Resumo: A busca por status internacional influencia o comportamento dos Estados. Porém, faltam análises sobre o que ocorre quando estratégias de busca de status divergem. Analisando a expansão do BRICS, este artigo argumenta que China e Brasil tinham estratégias divergentes que influenciaram os países convidados.
O BRICS é atualmente um dos principais blocos políticos e econômicos. Com quase 40% do PIB global em paridade de poder de compra e englobando praticamente metade da população mundial, o agrupamento visa fortalecer o multilateralismo. Um dos principais benefícios que o BRICS oferece aos seus membros é o aumento do status internacional. Por mais de dez anos, apenas cinco países podiam dizer que eram membros de um grupo que se apresentava com a pretensão de transformar o sistema internacional. No entanto, as estratégias de busca de status entre os membros do grupo nem sempre foram convergentes. Por exemplo, a Índia e a China disputam relevância regional. O projeto chinês da Iniciativa Cinturão e Rota é visto na Índia como uma ameaça às suas pretensões regionais, uma vez que os investimentos chineses têm aproximado o país de vizinhos como o Sri Lanka e Bangladesh e reduzido a influência indiana sobre eles (Nuruzzaman 2022).
Um dos momentos mais relevantes em que estratégias divergentes na busca por status emergiram no BRICS foi a expansão do bloco. Enquanto a China defendia, por anos, que a expansão seria benéfica, Brasil e Índia (e África do Sul, em menor escala) temiam que tal processo lhes tirasse protagonismo no grupo. Para a China, ter mais membros implicava mais prestígio, uma vez que continuaria a ser a grande potência no bloco. Para a Índia e o Brasil, mais membros significariam menos seletividade e, consequentemente, menos status. Tais divergências influenciaram diretamente o processo de expansão do grupo, especialmente na área de influência dos Estados que não a desejavam.
Neste artigo, analisaremos, assim, como a divergência nas estratégias de busca por status internacional do Brasil e da China afetou o processo de expansão do BRICS. Antes de analisar este processo, contudo, é importante fazermos uma breve contextualização do que é o status internacional.
A busca por status como central para os Estados
O status internacional refere-se à posição de um Estado numa estrutura social (Larson 2015). A posição do Estado nessa estrutura confere-lhe determinados ganhos. Ter mais status supostamente aumenta a segurança de um Estado, sua capacidade de influenciar os demais e até mesmo seus ganhos econômicos (Renshon 2017; Gouveia Junior 2024). Isso faz com que o status seja sempre relacional e comparativo: um Estado tem status em relação ao outro (Larson e Shevchenko 2010). Para obter status, os Estados utilizam uma série de estratégias; entre elas, criam e se juntam a chamados “elite clubs”. Com uma membresia exclusiva, grupos como o G20, o G7 ou o BRICS funcionam como espaços de obtenção de prestígio.
A ideia de status internacional é hoje profundamente discutida por uma corrente teórica que examina as construções de identidade dos Estados. Influenciados pela psicologia de grupo, estes teóricos afirmam que os Estados buscam uma identidade social positiva, isto é, que a sua imagem seja positiva tanto internamente quanto internacionalmente (Larson e Shevchenko 2010). Essa imagem positiva elevaria o status de um Estado.
É nesse processo de criação de uma identidade nacional que estratégias divergentes podem surgir dentro de um elite club, como o BRICS. A estratégia adotada por um membro da organização para ganhar prestígio pode inevitavelmente colidir com a de outro, criando um jogo de soma-nula. A esse processo chamarei de estratégias divergentes na busca por status. Podemos, assim, voltar-nos para o processo de expansão do BRICS.
As estratégias de busca de status de Brasil e China
No processo de expansão do BRICS, Brasil e China tinham estratégias antagônicas de busca de status. De forma geral, o Brasil tem uma busca de status fortemente baseada em mecanismos de criatividade. O país tenta criar uma identidade de ‘do-good state’ para ganho de status: apresenta a identidade nacional como inerentemente pacífica na esfera internacional, mantendo boa vizinhança e atuando como ponte entre o Norte e o Sul Global (Carvalho 2020; Gouveia Junior 2024). Além disso, especialmente durante os governos do Partido dos Trabalhadores, o Brasil tentou fortalecer sua identidade internacional como defensor do multilateralismo e seu papel de liderança regional. Para isso, a presença em blocos como o BRICS e o G20 serviu para dar destaque ao país em relação aos demais da região.
Para a potência sul-americana, o aumento do número de membros do grupo representaria uma perda da exclusividade da membresia do bloco. Se antes ser membro do BRICS era restrito a 5 países, agora mais Estados poderiam ter essa condição. Tal perspectiva afetaria ainda mais o status do país com a potencial inclusão de países latino-americanos no bloco. Antes, o Brasil era o membro latino-americano do BRICS. Agora, poderia passar a ser um membro latino-americano do BRICS. Por outro lado, o Brasil temia que, se os novos membros fossem majoritariamente asiáticos e africanos, o foco do grupo se tornaria muito mais voltado a um espaço regional geograficamente distante de seus interesses (Giaccaglia 2024). Portanto, aumentar o número de membros representaria, para o Brasil, uma perda de status e, potencialmente, de interesse geopolítico. Quando, na discussão política, o processo de expansão se tornou inevitável, arriscando um isolamento do país no bloco, coube aos negociadores brasileiros influenciarem esse processo de modo a mitigar a perda de status internacional do Brasil.
Para a estratégia chinesa, o oposto ocorreu. Para a China, devido à sua preponderância econômica, mais membros não diminuiriam sua capacidade de influência e, pelo menos para observadores externos ao bloco, de liderança. Como muitos observadores no Ocidente percebem o BRICS como um grupo usado pela China, um número maior de membros no bloco representaria mais países mais próximos de sua influência. É por isso que a China sempre foi a principal incentivadora do chamado BRICS+. No início da década de 2010, o país já havia proposto a inclusão da Argentina no bloco, sugerindo, inclusive, a mudança do acrônimo para BRICSA (Cooper 2016). Para a China, quanto mais novos membros, melhor seria. Esta estratégia era obviamente antagônica à brasileira, na qual se dava primazia a um número menor de novos membros.
Uma vez que a América Latina era a região do mundo mais sensível aos interesses de status do Brasil, o processo de expansão nessa região tornou-se particularmente relevante.
Estratégias divergentes e a expansão do BRICS na América Latina
Em 2023, a Argentina surgia como a melhor parceira para o ingresso no grupo, sem comprometer as aspirações brasileiras. Liderado por Alberto Fernández, o país tinha um discurso pró-desdolarização. Da mesma forma, não iria ampliar a percepção de que o bloco é antiocidental, algo que o Brasil sempre evitou. Uma vez que o BRICS vinha declarando apoio às aspirações do Brasil, da Índia e da África do Sul na ONU (apesar de nunca haver apoio explícito ao assento permanente), incluir a Argentina no bloco também poderia representar um maior alinhamento político com o seu parceiro sul-americano, que nunca apoiou publicamente as aspirações do Brasil no Conselho de Segurança. Por sua vez, a China sempre demonstrou apoio à presença argentina no bloco, e seu ingresso parecia natural naquele momento. Apesar da não expansão ser melhor para a sua estratégia de ganho de status, a inclusão da Argentina surgiu, assim, como a melhor opção viável para o Brasil. Após o convite formal para que o país se tornasse membro pleno do grupo, a eleição de Javier Milei alterou o processo, uma vez que ele decidiu não ingressar no grupo.
Semelhante ao caso argentino, Cuba e Bolívia se juntaram ao BRICS, mas como membros observadores. Em ambos os casos, suas inclusões não representavam um grande desafio para as pretensões brasileiras. Como referido, em relação à China, o aumento de membros era particularmente apoiado. O que se torna interessante, contudo, é comparar os processos da Argentina, de Cuba e da Bolívia, com o processo venezuelano. Ainda liderada por Nicolás Maduro, a Venezuela tentou, enfaticamente, ser incluída na listagem de países parceiros do bloco em 2024. Com uma crise diplomática com o governo brasileiro deflagrada após a eleição daquele mesmo ano, Maduro chegou a viajar até Kazan, onde a cúpula era realizada, para pressionar pelo ingresso do seu país. No entanto, o Brasil usou seu poder de veto (o BRICS funciona por consenso) para bloquear os interesses bolivarianos.
Diferentemente da Argentina, a inclusão da Venezuela representaria uma erosão do discurso brasileiro visando aumentar seu status. O ingresso do país fortaleceria a imagem do BRICS como bloco antiocidental, o que diverge da estratégia brasileira de ganho de status. Além disso, em comunicações realizadas no período, o Assessor Especial para Assuntos Internacionais do presidente do Brasil, Celso Amorim, enfatizou que a presença da Venezuela potencialmente não contribuiria para a paz regional (Gularte 2024; Ribbeiro 2024). Num contexto em que a Guerra da Ucrânia já impunha desafios ao discurso brasileiro de ‘do-good state’ perante seus parceiros ocidentais, a presença da Venezuela, após as ameaças de Maduro de incorporar o Essequibo, suscitava ainda mais dúvidas sobre os impactos do ingresso do país no bloco. Enquanto isso, a China chegou a apoiar publicamente a adesão da Venezuela aos BRICS. Porém, a divergência entre as estratégias de ganho de status da China e do Brasil tornou-se tão grande que o país sul-americano decidiu exercer seu poder para vetar o ingresso de seu vizinho.
Conclusão
O processo de expansão do BRICS demonstra como processos divergentes de busca de status internacional podem influenciar organizações informais. Para o Brasil, a expansão do bloco era contrária à sua estratégia. Para a China, mais membros simbolizava mais status. Quando a expansão se tornou inevitável, a opção brasileira foi mitigar as perdas. No caso da Argentina, de Cuba e da Bolívia, suas presenças como membros plenos ou parceiros não representavam um prejuízo tão grande à estratégia brasileira.
O caso venezuelano, no entanto, representava uma ameaça a diversas estratégias brasileiras de criar uma identidade social positiva e, consequentemente, de alcançar status. Nesse caso, a divergência entre a estratégia brasileira e a chinesa tornou-se tão grande que o país sul-americano utilizou sua posição para atuar como gatekeeper e vetar a inclusão da Venezuela na lista de países parceiros. Obviamente outros fatores contribuíram para esta decisão brasileira, incluindo questões de política doméstica. No entanto, o discurso oficial sugere que questões ligadas ao status internacional do Brasil contribuíram, sim, para essa decisão.
Portanto, o processo de expansão do BRICS demonstra como dinâmicas de status internacional afetam não só as relações entre Estados, mas também os processos dentro dos chamados elite clubs.
Referências
Carvalho, B. 2020. “Brazil’s (frustrated) quest for higher status.” Em Status and the rise of Brazil: global ambitions, humanitarian engagement and international challenges, editado por P. Esteves, M. G. Jumbert, e B. Carvalho, 19-30. Londres: Palgrave-McMillan.
Cooper, A. F. 2016. The BRICS: a very short introduction. Oxford: Oxford University Press.
Giaccaglia, C. 2024. “Alineamientos y Realineamientos: discusiones en torno al candidato latinoamericano para Brics: un análisis sobre las posiciones de Brasil como miembro fundador y de Argentina como el aspirante fallido.” Mural Internacional 15 (1): 1-23. https://doi.org/10.12957/rmi.2024.85599.
Gouveia Junior, L. 2024. “A brazilian status dilemma in the Ukraine war? Between being a ‘do-good’ state and a Brics member.” Janus 15 (2): 175-89. https://doi.org/10.26619/1647-7251.DT0324.8.
Gularte, J. 2024. “Discussão sobre entrada de Venezuela nos Brics não é ‘julgamento moral e nem político’, diz Celso Amorim.” O Globo, 22 de outubro. https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2024/10/22/discussao-sobre-entrada-de-venezuela-nos-brics-nao-e-julgamento-moral-e-nem-politico-diz-celso-amorim.ghtml.
Larson, D. W. 2015. “Will China be a new type of great power?” The Chinese Journal of International Politics 8 (4): 323-48. https://doi.org/10.1093/cjip/pov010.
Larson, D. W., e A. Shevchenko. 2010. “Status seekers: Chinese and Russian responses to US primacy.” International security 34 (4): 63-95. https://doi.org/10.1162/isec.2010.34.4.63.
Nuruzzaman, M. 2022. “Conflicts, strategic divergences and the survival of economic groupings: Will China–India rivalry make BRICS obsolete?” Asian Journal of Comparative Politics 7 (4): 1025-44. https://doi.org/10.1177/20578911221108800.
Renshon, J. 2017. Fighting for status: Hierarchy and conflict in world politics. Princeton University Press.
Ribbeiro, L. 2024. “Celso Amorim diz que Venezuela acusa Brasil ‘injustamente’ por barrar entrada nos Brics.” CNN Brasil, 29 de outubro. https://www.cnnbrasil.com.br/politica/celso-amorim-venezuela-brics/.
Sobre o autor
Luis Gouveia Jr.: Doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Coimbra e pesquisador visitante no BRICS Policy Center da PUC-Rio. É mestre em Estudos Latino-americanos pela Universidade de Oxford. Email: luisgouveia@ces.uc.pt.
Este texto se baseia no artigo “Divergent status-seeking in elite clubs: Brazil, China, and the BRICS expansion in Latin America”, publicado na Revista Brasileira de Política Internacional (RBPI) em 2025.

